Meditação de Sábado

H. L. Mencken

Às vezes chego a suspeitar de que meu principal problema é o fato de ser desprovido do que se costuma chamar de dons espirituais. Ou seja, sou incapaz de experiência religiosa, em qualquer sentido. Algumas cerimônias religiosas me interessam esteticamente e, com alguma frequência, até me divertem, mas não extraio delas nenhum estímulo, nenhuma sensação de exaltação, nenhuma katharsis mística. Neste departamento, sou tão palerma quanto o organista da igreja, o coroinha do altar ou o próprio arcebispo. Quando me sinto deprimido e cheio de miséria, não tenho o menor impulso de pedir ajuda, ou mesmo consolo, nos poderes sobrenaturais. Assim, a generalidade das pessoas religiosas continua misteriosa para mim, além de vagamente insultuosa, assim como sou inquestionavelmente insultuoso a elas. Para mim, um homem rezando e outro portando um pé de coelho para lhe dar sorte são igualmente incompreensíveis. Esta falta de compreensão tem-me causado inimizades, acredito que duradouras. Tenho ojeriza a qualquer homem religioso, e todos os homens religiosos que conheço têm ojeriza a mim.

Sou apenas um ateu militante e não tenho a menor objeção a que se vá a igrejas, desde que honestamente. Eu próprio já entrei em igrejas mais de uma vez, procurando sinceramente sentir o estalo de que tanto falam as pessoas religiosas. Mas nem mesmo na Catedral de São Pedro, em Roma, senti o mínimo sintoma do estalo. O máximo que já senti no mais solene momento da mais pretensiosa cerimônia religiosa foi um deleite sensual por sua beleza — um deleite exatamente igual ao que me invade quando ouço, por exemplo, Tristão e Isolda ou a Quarta Sinfonia de Brahms. O efeito da tal música é, na realidade, mais agudo que o da liturgia, mas só porque Brahms me comove mais poderosamente que os santos.

Como se vê, esta deficiência é uma desvantagem num mundo populado, em esmagadora maioria, por homens inerentemente religiosos. Isto me afasta de meus semelhantes e torna difícil para mim compreender muitas de suas ideias e não poucos de seus atos. Vejo-os responder, de maneira firme e constante, a impulsos que a mim parecem inexplicáveis. Pior ainda, faz com eles me compreendam, a ponto de me infligirem sérias injustiças. Não conseguem se livrar da ideia de que, por ser apático aos conceitos que os comovem profundamente, só posso ser um homem de tal aberração moral que devo ser mantido a distância. Nunca cruzei com um homem religioso que não revelasse essa suspeita. Não importa a sua sinceridade em tentar entender o meu ponto de vista, sempre termina por bater em alarmada retirada. Todas as religiões ensinam que o não-conformismo é pecado; muitas delas fazem disto o mais negro dos pecados, e o punem severamente, se tiverem poder suficiente. É impossível para este homem tão religioso duvidar da justiça desse julgamento. Ele simplesmente não consegue imaginar uma regra de conduta que não se baseia no temor a Deus.

Devo acrescentar que minha deficiência reside no impulso fundamental, não na mera credulidade teológica. Não me mantenho longe a igreja por não ser capaz de acreditar em seus dogmas atuais. Para dizer a verdade, alguns me parecem bastante razoáveis e, provavelmente, discordo deles com menos veemência do que muitos que lhes são assíduos devotados. Entre minhas experiências curiosas, há alguns anos, houve a de tentar convencer um ardente católico que não acreditava na infalibilidade papal. Tratava-se de um fiel filho da igreja, e sua incapacidade para aceitar o dogma o angustiava. Provei-lhe, e ele pareceu satisfeito, que não havia nada de intrinsecamente absurdo na tal infalibilidade papal — já que, se os dogmas que ele já tinha adotado fossem verdadeiros, este provavelmente também o seria. Algum tempo depois, quando este homem estava nas últimas, fui visitá-lo e ele me agradeceu com aparente sinceridade por ter resolvido sua velha dúvida. Suas últimas palavras para mim foram as de esperança de que eu abandonasse minha teimosia em relação a Deus e levasse uma vida mais pia. Morreu firmemente convencido de que eu estava condenado ao Inferno — e, o que é pior, tendo feito por merecê-lo.