O niilismo pode ser definido como a implosão da subjetividade. Alternativamente, e sendo um pouco mais claros, podemos defini-lo como uma descrença em qualquer fundamentação metafísica para a existência humana. Não se trata, entretanto, de algo difícil de ser definido, mas de ser apreendido. Por ser uma noção bastante ampla e abstrata, existe muita confusão em torno dela. Vejamos alguns dos principais motivos disso. Primeiro, o niilismo é vago em si mesmo, pois vem de nihil, que significa nada. A palavra niilismo, que poderia ser traduzida como “nadismo”, de imediato, não nos dá qualquer ideia do que se trata. Segundo, o niilismo não possui qualquer conteúdo positivo. Por se tratar de uma postura negativa, só conseguiremos entendê-la depois que tivermos consciência do que ela nega, e por isso a compreensão do niilismo envolve muitos outros conceitos; ele só se tornará visível depois que esboçarmos seu contexto. Por fim, o niilismo também não recebeu, historicamente, um emprego consistente, sendo que cada pensador ou movimento o interpretou de modo bastante particular, quase sempre com um pano de fundo ideológico, na tentativa míope de justificar um niilismo ativo e militante.
Em geral, vemos o niilismo associado a outras ideias, denotando seu vazio inerente. Por exemplo, niilismo político seria mais ou menos equivalente ao anarquismo, repudiando a crença de que este ou aquele sistema político nos conduziria ao progresso, o qual não passaria de um sonho mentiroso. O niilismo moral equivaleria à negação da existência de referenciais morais objetivos, ou seja, de valores bons ou maus em si mesmos. O niilismo epistemológico, por sua vez, seria a afirmação de que nada pode ser conhecido ou comunicado. Portanto, vemos que associar qualquer noção ao niilismo não é exatamente um elogio, mas algo como colocar ao seu lado uma placa dizendo: aqui não há nada — principalmente nada do que se acredita haver.
O niilismo, todavia, não é só um termo que justapomos a qualquer ideia que nos desagrade, a fim de desmerecê-la. Seu poder de apontar o vazio das coisas não pode ser usado como uma arma, pois, quando se dispara o tiro de nada, automaticamente deixa de existir a arma, e a coisa toda perde o sentido. O niilismo, sendo um processo radical de crítica, não pode ser usado parcialmente. Não podemos, por exemplo, usar o niilismo moral para refutar valores específicos, com os quais não simpatizamos, imaginando que os nossos próprios valores sobreviveriam à crítica. Quando afirmamos que a moral não existe, isso implica que não existem quaisquer valores, sejam os nossos valores, sejam os de nossos oponentes. Com o niilismo moral, toda a moral é reduzida a nada, inclusive a nossa. A redução da moral a nada, como vemos, está respaldada não na gramática, mas na suposição de que a moral é vazia em si mesma, de que ela não tem fundamentos reais e objetivos. Não se trata de simpatizarmos ou não com a moral, mas da constatação segundo a qual ela é um sonho, uma fantasmagoria inventada por nós próprios, não sendo leis morais, portanto, mais relevantes que leis de trânsito.
Nós, entretanto, nos ocuparemos principalmente do niilismo existencial, ou seja, a postura segundo a qual a existência, em si mesma, não tem qualquer fundamento, valor, sentido ou finalidade. Segundo o niilismo existencial, tudo o que existe carece de propósito, inclusive a vida. Todas as ações, todos os sentimentos, todos os fatos são vazios em si mesmos, desprovidos de qualquer significado. Nessa ótica, viver é algo tão sem sentido quanto morrer, e estamos aqui pelo mesmo motivo que as pedras: nenhum. Essa parece ser a categoria mais fundamental de niilismo, em relação à qual os demais tipos tomam o aspecto de casos particulares. Os niilismos moral e político, por exemplo, podem claramente ser deduzidos do niilismo existencial — pois, se a própria existência não tem valor, isso implica que nada tem valor, inclusive valores morais, inclusive o progresso.
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O único modo de compreender o niilismo existencial é através da reflexão. O vazio da existência nunca poderia ser demonstrado através da prática, ou apreendido por meio da experiência imediata. Se, por exemplo, reduzíssemos nosso planeta a nada com bomba nuclear, isso não demonstraria coisa alguma. A visão desse planeta despedaçado também não provaria nada. Tal postura destrutiva prática faz pouco sentido, pois equivale a tentar refutar um livro queimando-o. O niilismo existencial se demonstra quando reduzimos o homem a nada, e para isso basta possuir algum talento intelectual aliado à honestidade, pois o esvaziamento da existência é a mera consequência de a entendermos. Não precisamos degolar a humanidade inteira para provar que a vida carece de sentido.
Para reduzir o homem a nada, e compreender que isso demonstra o niilismo existencial, temos de apreender o vazio objetivo da existência — sendo óbvio que, na condição de sujeitos, só podemos fazê-lo subjetivamente. O problema é que, no processo demonstrar que a existência é vazia, somos o próprio vazio que estamos tentando apontar — tentamos explicar que nós próprios não temos explicação. Parece paradoxal, mas não é. Bastará que consigamos entender nós próprios como um fato, e o niilismo se tornará praticamente uma obviedade. Só então perceberemos que o niilismo não é, como a princípio pode parecer, uma postura extremada, envolvendo algum tipo de revolta, mas apenas uma visão honesta e sensata da realidade — uma visão tornada possível em grande parte devido às descobertas científicas modernas. Com algumas definições e explicações simples, podemos chegar a uma noção razoável da ótica apresentada pelo niilismo existencial. Como o argumento é um pouco longo, vamos por partes. Façamos algumas observações preliminares sobre por que o niilismo nos parece algo tão incômodo.
Muitos, por preconceito, têm medo do “vazio da existência”, mas esse medo, em si mesmo, é algo completamente sem sentido, pois equivale a temer aquilo que não existe; o vazio não é uma ameaça positiva. Senão, vejamos: Não existe vida em Vênus. Alguém se sente aterrorizado diante dessa afirmação? Dificilmente. Não existem bancos em Marte. Alguém empalidece diante disso? Também não. Suponhamos, entretanto, que durante todas as nossas vidas houvéssemos trabalhado arduamente, acreditando que todo o nosso esforço seria convertido em dinheiro num banco em Marte. Agora sim nós nos sentiríamos ameaçados pela afirmação de que nesse planeta não há, nunca houve banco algum, pois vivíamos em função disso, acreditávamos nesse suposto dinheiro marciano como aquilo que dava sentido às nossas vidas. Portanto, o que nos aterroriza não é o vazio da existência, ou o vazio de bancos interplanetários — o que nos enche de medo é a possibilidade de descobrir que estávamos completamente equivocados em nossas crenças a respeito da realidade. Seria esmagadora a consciência de havermos dado grande importância, de havermos dedicado nossas vidas inteiras a algo que simplesmente não existe. É por isso que estremecemos diante da afirmação de que a existência não tem sentido, embora essa afirmação seja tão segura quanto a de que não há dinheiro noutros planetas do sistema solar.
Resistimos ao niilismo não porque ele seja falso, mas porque reorganizar nossa visão da realidade seria muito trabalhoso. Então, se colocarmos nossos interesses pessoais de lado, veremos que o que nos inquieta no niilismo é o fato de que ele nos confronta duramente com nossa própria ingenuidade, com o fato de termos nos deixado enganar tão grandiosamente que nossas vidas passaram a depender de mentiras, de suposições imaginárias. Portanto, percebamos que, quando o niilismo aponta essas mentiras, ele não está destruindo a realidade, e sim nossas ilusões. Nessa ótica, o niilismo nada mais é que um exercício de honestidade e imparcialidade, e apenas esvazia a realidade das ficções que nunca existiram de fato. Essa honestidade pode ser dolorosa, mas é um sinal de maturidade. Se a existência, despida de ilusões, nos parece vazia, saibamos ao menos admitir que a culpa é nossa por termos nos enchido delas. Se gostamos de nos enganar, tudo bem. Porém, se nosso interesse for nos tornarmos capazes de lidar com a realidade como adultos, sempre será preferível aceitar a existência tal qual é em si mesma, ainda que isso signifique abrir mão de muitas de nossas crenças mais arraigadas. É preferível viver num mundo sem sentido a acreditar num sentido falso para o mundo, que aponta para lugar nenhum.
Como vemos, a preocupação essencial do niilismo não é descobrir a verdade, mas apontar as mentiras e reconhecer as limitações. Descrever os fatos é o papel da ciência. O niilismo apenas consiste na disciplina de sermos honestos diante desses fatos que observamos, entender e aceitar suas implicações. Nesse sentido, uma das áreas mais afetadas pelo niilismo são as “grandes questões” da existência. Isso porque as respostas para tais questões são, em geral, muito mais óbvias do que pensamos — e muitas vezes inclusive sabemos quais são, mas preferimos continuar acusando a ciência de ser “cega e limitada” para justificar nossos preconceitos.
Afirmamos que tais assuntos são demasiado “profundos” apenas como pretexto para tratá-los superficialmente; dizemos que são “mistérios”, “impossíveis de responder”, apenas porque temos medo das respostas. Outras vezes deixamos essas questões de lado, não para proteger nossas ilusões, mas porque pensamos que investigá-las nos conduziria à loucura. Muito pelo contrário, isso nos conduziria apenas à lucidez, nos permitiria viver com os pés no chão. Mas o que é o chão? Ora, aquilo que está sob nossos pés. O que é o mundo? Ora, é aquilo que temos diante de nossos olhos. O que é o ser? Ora, é aquilo que existe. Em grande parte, o niilismo consiste na rara capacidade ver o óbvio.
Perguntemo-nos, por exemplo, que é o homem? Ora, somos aquilo que parecemos ser: máquinas. Basta consultar qualquer livro de anatomia básica. Não há nada “por detrás”. Esse “por detrás” não passa de uma fantasia. Foi inventado por nós numa tentativa infantil de humanizar a existência. Não obstante, apesar de sabermos perfeitamente bem o que é o homem, ainda assim acreditamos que há na equação um misterioso “algo mais”. Continuamos nos enganando com a noção de “profundidade” do saber, que nos faz querer buscar o “por detrás” do mundo. Ainda mais, que nos faz acreditar que a verdadeira realidade está nesse “por detrás” que, exatamente por ser uma ilusão, equivale a nada.
Quando estudamos o homem como se ele não fosse uma máquina, é claro que não poderíamos chegar a conclusão alguma, pois isso é um absurdo. Seria o mesmo que um rato investigando-se como se não fosse um roedor, julgando que a “razão de ser” de seu dente não pode ser apenas roer queijo. O suposto “sentido íntimo da realidade” que o homem busca a partir de sua subjetividade é o mesmo que esse rato buscaria se tivesse uma inteligência semelhante à nossa, supondo toda uma ordem metafísica “por detrás” do mundo que atribui ao seu dente um “sentido roedor transcendental” que remete ao Queijo Absoluto. Pouco surpreende que a ciência até hoje nunca tenha encontrado aquilo que não existe. A ciência só pode investigar o mundo natural pelo simples fato de que o resto são delírios metafísicos. Abandonar problemas sem sentido não é limitação intrínseca, é sensatez.
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Aquilo que se preocupa em buscar o que está “além” da realidade não é a ciência, mas a metafísica, que significa literalmente depois da física. Mas o que está além da física? Ora, a resposta é óbvia: nada. Muito menos razões. Num mundo onde tudo é físico, só aquilo que inventamos pode ser metafísico, ao menos se entendermos por metafísica a clássica investigação de “razões últimas”. Para além do âmbito do realismo científico, a metafísica não tem função; é absurdo que tenha função. Na busca pelo conhecimento objetivo, o bastão foi passado para a ciência. Está morta a metafísica que investiga o mundo “profundamente”, por meio da razão pura. Isso nunca levou a nada, pois tentamos descobrir a realidade não olhando para o mundo, mas para um espelho. As respostas metafísicas para a existência parecem-nos interessantes porque, obviamente, partem do conveniente pressuposto de que a razão humana é capaz de substituir a experimentação e acessar uma suposta “essência do ser” por meio de uma intuição mágica, como que descobrindo o mundo por controle remoto. Parece tentador que possamos explicar a realidade desse modo, mas a metafísica é um tiro no escuro, algo tão inútil quanto usar a imaginação para prever o futuro.
Vejamos a questão do seguinte modo: a metafísica nasceu numa época de ignorância, em que os homens sequer sabiam da existência de bactérias. Sequer lhes passava pela cabeça que nossos cérebros eram feitos de neurônios. Mesmo assim, queriam explicar racionalmente a decomposição e o pensamento. Como não tinham microscópios para ver a realidade com precisão, constatando assim a existência de micro-organismos decompositores, limitavam-se a devanear teorias metafísicas, especulando sobre “realidades ocultas” que nos apodreciam em segredo, e é claro que não tinham a menor ideia do que estavam falando. Ao ver um corpo em decomposição, por exemplo, imaginavam que isso talvez se devesse a alguma ordem natural das coisas que nos impunha a decomposição como um “sentido existencial”. Assim, por ignorar que o que nos apodrece são as bactérias, supuseram que isso seria devido à misteriosa “essência decompositora do ser”. Esse tipo de raciocínio delirante, constituído por uma rigorosa lógica tapa-buracos, é o cerne da metafísica. Ela aborda todas as questões da existência com esse mesmo grau de autismo.
Nessa abordagem, em vez de investigado, o mundo deve ser pensado. Em vez de observar fatos, devemos buscar explicações de razão pura, devaneando sobre alguma essência sobrenatural que determina fatos naturais. Claro que, se o ser fosse racional em si mesmo, algo como uma equação matemática, a verdade seria algo abstrato que transcende os próprios fatos, isto é, a “essência do ser” seria constituída de princípios lógicos. Mas de onde tiramos a ideia de que o ser é racional? E o que é isso de “essência”? Não se sabe. O fato é que essa metafísica delirante nunca teria nascido se houvéssemos dado aos gregos um microscópio e uma tabela periódica.
Vistas desse modo, as mais profundas investigações metafísicas são pura e simples perda de tempo, pois estão em busca de algo que simplesmente não está lá — e a grande maioria das questões da existência, das questões que consideramos mais importantes, são levantadas não pela física, mas pela metafísica, pelo mais vergonhoso blablablá inquisitivo. Se tais observações parecem fortes, isso ocorre porque, mesmo hoje, nossa visão moderna da realidade ainda esconde muitos preconceitos metafísicos.
Pensemos, por exemplo, na razão de ser da vida. De onde tiramos essa ideia maluca? Certamente não da experiência, certamente não do mundo que temos diante de nossos olhos. Essa é uma questão metafísica despropositada, pois se trata de algo que em nenhuma circunstância poderia ser solucionado pela observação do mundo físico, e isso pode ser ilustrado pelo simples fato de que a observação do mundo físico feita pela biologia moderna, apesar de explicar perfeitamente bem como a vida funciona, não é aceita como resposta para essa questão. Senão, vejamos: observamos um espermatozoide e um óvulo fundirem-se; vemos as células multiplicando-se; vemos todas as etapas envolvidas na formação de outro organismo; vemos a vida acontecer bem diante de nós; tudo está perfeitamente claro. Mesmo assim, continuamos insistindo na crença de que há algo “por detrás” dessa realidade, um algo que é mais importante que a própria realidade. Esse algo, obviamente, são nossas crendices metafísicas. A ciência não pode responder a questão da “razão de ser” da vida porque esse modo de conceber a vida não corresponde à realidade. Seria o mesmo que pedir que a ciência respondesse onde ficam os dragões alados que vimos após consumir alucinógenos.
Para ser no mínimo razoáveis, temos de admitir que nunca tivemos motivos legítimos para pensar que a vida tem uma “razão de ser”, pois nada em nossa experiência no mundo nos sugere essa pergunta. Que tipo de fenômeno físico poderia nos ter insinuado essa questão? Olhamos para uma flor e pensamos: ó, que curioso, há nesse vaso uma flor! Por que não há na flor um vaso? Por que a flor não tem dentes? Que mistério! Isso só pode ser porque ela tem uma “razão de ser” — a flor desabrochou para cumprir um sentido transcendental! Sementes e pólen nada têm a ver com isso: trata-se de algo mais profundo, muito superior ao mundo material! Então propomos a nós mesmos o desafio: vou descobrir que razão é essa! Passados alguns anos, voltamos da faculdade de teologia e respondemos que isso só Deus sabe.
Nesse tipo de investigação, saímos desesperadamente em busca da resposta para uma pergunta sem sentido, e ainda nos espantamos por nunca encontrá-la. Claro que essa pergunta só poderia ser respondida se o mundo fosse algo como um playground de humanos, feito à nossa imagem e semelhança por alguma divindade entediada. Porém, como o mundo não se comporta segundo nossas expectativas infantis, em vez de admitir o óbvio, de aceitar que real é aquilo que está bem diante de nossos olhos, achamos mais sensato inventar uma segunda existência misteriosa que carrega a “essência oculta” da nossa — um mundo que só podemos imaginar como uma imensa biblioteca cheia de pergaminhos empoeirados nos quais ficam anotadas as “razões de ser” de tudo o que há no mundo em que estamos.
Portanto, para transformar uma crença absurda qualquer numa gloriosa “investigação metafísica”, basta colocar no fim dela um ponto de interrogação: teremos diante de nós mais um “mistério insondável”, mais uma prova da profunda ignorância do homem em relação ao mundo em que vive. Contudo, sejamos francos: não fomos nós próprios que, sem nenhum motivo respeitável, inventamos que a flor tem uma “razão de ser”, que precisa ter uma razão? Transformamos esse raciocínio circular em algo tão grandioso que, ao investigá-lo, temos a ilusão de estar andando em linha reta. Perdemo-nos em devaneios, e chamamos isso de “meditações transcendentais”, de “busca pelo sentido íntimo do ser”, coisa que não passa do homem correndo em torno do próprio rabo em busca de razões que insuflem sua vaidade. Diante desse algo oculto que nos torna tão monstruosamente ingênuos, a questão do mistério do mundo parece um assunto de piolhos.
Recobremos a sensatez. Se prestarmos alguma atenção, veremos que a verdadeira razão de ser da flor não é realmente uma razão, mas um fato: o fato de ela ter germinado e desabrochado; isso é tudo. O resto são questões metafísicas sem sentido, meros disparates interrogativos que levam nossas investigações para um mundo imaginário que nada tem a ver com aquilo que estamos tentando entender.
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Já deve estar bastante claro por que a postura niilista é incômoda, então prossigamos ao próximo tópico. Como o niilismo está ligado a uma mudança em nossa concepção metafísica da existência, convém esboçarmos o que é a metafísica atualmente, e principalmente o que ela era. A metafísica que criticamos aqui é a chamada metafísica tradicional, a qual parte de pressupostos antropocêntricos, lança-se em investigações sem pé nem cabeça, buscando algo que não existe para explicar o que existe. A metafísica moderna, por outro lado, busca apenas delinear uma visão coerente do que é a realidade, deixando à ciência o papel de descobrir o que existe. Em vez de sonhar, ela pensa a partir dos fatos que conhecemos, mas sem fazer extrapolações aberrantes. O contraste entre ambas nos ajudará a entender melhor o contexto do niilismo.
A metafísica é uma área da filosofia que busca investigar os aspectos mais fundamentais da existência por meio da razão. Ela trata daquilo que não nos é imediatamente acessível através dos sentidos, que não pode ser investigado direta e experimentalmente, isto é, através da ciência. Faz perguntas como “que é existir?”, “que é a razão?”, “que é a realidade?” etc. A metafísica faz perguntas tão básicas que a ciência não pode respondê-las diretamente, e a própria prática da ciência pressupõe muitos assuntos que apenas a metafísica investiga. A ciência somente observa fatos e os registra metodicamente — ela investiga com os olhos; a metafísica, com a razão.
Quando afirmamos que “todos os seres vivos nascem, crescem, reproduzem-se e morrem”, fazemos uma afirmação científica, que pode ser observada. Quando afirmamos que “a vida não tem sentido”, fazemos uma afirmação metafísica, pois se trata de algo que concluímos a partir de um processo de abstração intelectual, e abstrações não podem ser observadas. Portanto, quando conceituamos a realidade a partir de fatos, estamos fazendo filosofia, não ciência. A ciência não pensa, mas precisamos pensar para fazer ciência coerentemente, e esse é o papel da reflexão metafísica no contexto moderno: orientar nossas investigações. Em grande parte, a metafísica moderna tornou-se um meio de evitar os erros ingênuos da metafísica tradicional.
Como vimos acima, a metafísica tradicional é essencialista, ou seja, supõe que tudo o que existe possui uma “essência” que faz com que seja aquilo que é. O papel da reflexão metafísica seria, nessa ótica, investigar racionalmente tal “essência”, já que os fatos observados não seriam mais que sua manifestação. Já foi dito que essa essência é fogo, água, números, razões, deuses etc.; hoje diz-se que essa essência é tolice. Tal metafísica não se preocupa em entender o mundo em que estamos: busca entender um mundo transcendental de essências imaginárias do qual o nosso seria o resultado. Suas investigações pressupõem uma ordem das coisas que é extrínseca ao ser, ou seja, sobrenatural. Ela busca descobrir uma essência que também é uma explicação: a razão pela qual o mundo existe. Esse tipo de questionamento, obviamente, só seria compatível com um mundo que tivesse uma “essência transcendente”, coisa que remete à ideia de uma “subjetividade por detrás do mundo”. Por isso dizemos que a metafísica tradicional possui uma orientação teológica, pois confere atributos divinos à existência. Assim, esse tipo de investigação metafísica parece filosofia, mas na verdade é teologia.
A metafísica moderna, por outro lado, investiga a realidade não numa ótica transcendente, mas imanente. Em vez de especular sobre o que há “por detrás” do horizonte da existência, ela busca entender o que é a existência que está sob nossos pés, não sobre nossos travesseiros. Ou seja, trata a questão da “essência do ser” não como algo que fica fora do próprio ser, remetendo a “razões últimas”, mas como uma ordem das coisas que é intrínseca ao ser, ou seja, natural. A partir dos fatos que conhecemos, buscamos entender o aqui em função do aqui, não de um suposto “além”.
A própria noção científica que temos da realidade está baseada em suposições metafísicas — basta pensarmos no objetivismo e no naturalismo. O objetivismo afirma que, fora de nossas cabeças, existe uma realidade comum a todos. O naturalismo afirma que o mundo funciona em seus próprios termos, que não possui qualquer essência sobrenatural que o determina de fora para dentro. Pode parecer estranho que a ciência moderna parta de suposições metafísicas, mas elas são necessárias para que não caiamos no relativismo, para que tenhamos um ponto de referência sensato sobre o que é o mundo. Para investigar o mundo cientificamente, temos de supor o que o mundo é, e isso é uma suposição metafísica. Ainda mais, temos de conceituar o que é conhecimento, diferenciar o conhecimento subjetivo do objetivo, definir o que é uma prova, e por que provas são válidas, assim como por quais critérios essa validade é estabelecida, o que é tarefa de outra área exterior à ciência, a epistemologia.
Sem investigar tais questões com seriedade, não saberíamos como interpretar os resultados de nossas observações ou como estruturar experimentos científicos a fim de conhecer a realidade. A função de metafísica moderna, nessa ótica, seria justamente estabelecer um fundamento teórico para nortear a investigação da realidade sensível feita pelas ciências.
Um ponto de vista que rejeitasse indistintamente a metafísica não nos permitiria fazer quaisquer suposições a respeito da realidade que estivessem além da experiência imediata. Não poderíamos, por exemplo, justificar a suposição de que existe de uma realidade objetiva, e com isso cairíamos no relativismo, talvez até no solipsismo. Não havendo nada objetivo, toda a realidade se resumiria a uma construção social — inclusive a matéria, a gravidade, a eletricidade. A criação de um mapa-múndi seria algo tão arbitrário quanto um romance, pois tudo não passaria de uma ficção subjetiva. O relativismo faz bem ao enfatizar nossas limitações, mas levá-lo a sério seria tão despropositado quanto afirmar que uma publicação científica é arbitrária como uma revista de quadrinhos.
Não há, portanto, qualquer sentido pejorativo em dizer que fazemos uma afirmação metafísica ao supor que o mundo é natural e objetivo. Trata-se de algo metafísico apenas porque falamos a respeito da constituição básica do mundo, de algo teórico de que precisamos para alicerçar as ciências. Claro que as descobertas da ciência respaldam perfeitamente tais suposições, mas nem por isso elas deixam de ser metafísicas, pois são algo que nunca poderá ser demonstrado diretamente através da realidade sensível, mas apenas conceituado, pensado.
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As suposições metafísicas a respeito da realidade são importantes para nos nortear, para nos dar uma visão global da realidade, mas, como se trata de um terreno especulativo, devemos ser muito cuidadosos quanto ao que supomos sobre o mundo em si mesmo. A metafísica pensa no escuro, e pode facilmente perder-se em devaneios. Se supusermos, por exemplo, que o mundo é “racional em si”, passaremos a pensar que nele tudo tem uma “razão de ser”, que há um motivo inteligível que explica, digamos, por que a gravidade atrai os corpos em vez de os repelir. Que tipo de razão seria essa? Não se sabe, mas corpos caindo a 9,8 m/s ao quadrado seriam o resultado dessa “razão”. Mas por que essa essência não faz com que os corpos caiam a 15 m/s ao cubo? Qual é o motivo disso? Não sabemos onde procurar tais razões, mas conforta-nos pensar que o mundo é racional, e isso é tudo de que precisamos para nos convencermos. O fato é que não há metafísica alguma na gravidade. Sabemos que a gravidade atrai os corpos porque vimos isso acontecer. Trata-se de uma afirmação científica, empírica, não de uma racionalização abstrata.
Argumentos puramente racionais, no fim das contas, só refletem o modo como usamos as palavras. Se não pudermos verificá-los, eles não dizem nada — assim como não diz nada o argumento da “causa primeira”. Quando perguntamos por que “motivo” a gravidade é assim, estamos pressupondo que ela poderia ser de outra forma, e que é como é por um motivo que pode ser entendido. Isso pressupõe que as leis naturais são racionais, implicando que a razão, de algum modo, está na essência da realidade. Mas a gravidade não foi pensada, foi observada. Não é uma teoria, mas um fato — e não precisamos pensar quando podemos ver. Portanto, aqui a metafísica não tem função.
Levantar questionamentos metafísicos sobre fatos naturais equivale a humanizar a existência, supondo que haja uma “intenção racional” por detrás do que existe, como se o mundo houvesse sido projetado por seres humanos ou supra-humanos. Mas de onde tiramos a ideia de que o ser é racional em si mesmo? A explicação mais plausível é esta: de nós mesmos, pois isso nunca foi demonstrado por qualquer observação da realidade. Novamente vemos que essa busca pelo “sentido oculto da realidade” é apenas teologia disfarçada. Para ilustrar, percebamos que perguntar o “porquê” do mundo natural seria o mesmo que perguntar o porquê de o Sol brilhar. Claro que, ao fazer esse tipo de pergunta, colocamo-nos no lugar do Sol, pensando nas razões pelas quais brilharíamos se fôssemos essa estrela. Partindo disso, respondemos, por exemplo, que o Sol brilha “para aquecer a Terra”, e é claro que essa suposição não pode ser demonstrada, tampouco condiz minimamente com as descobertas da Astronomia. Essa espécie de resposta é claramente antropocêntrica, pois busca fora do homem, na realidade em si mesma, algo que só existe em nosso universo subjetivo: intencionalidade.
As ciências, ao chegarem aos mesmos resultados a partir de observadores independentes, podem justificar a suposição de que existe uma realidade objetiva, independente de nós. Como nunca constatamos mudanças nas leis que regem os fenômenos, também podemos justificar a suposição de que o mundo é natural. Mas como podemos sustentar que a razão existe fora do homem? Só estaríamos autorizados a pensar na existência como possuidora de uma “razão de ser” se esta houvesse sido criada por uma força sobrenatural inteligente, se houvesse muitos indícios disso nos fatos que observamos, mas não há nenhum.
Esse tipo de raciocínio reverso, que procura intencionalidade nas coisas, só é admissível em questões subjetivas. Por exemplo, assim como prédios possuem alicerces, colunas de concreto, reforços de aço, elevadores, janelas, andares, portas, e assim como cada um desses elementos possui uma estrutura e uma finalidade, se o universo houvesse sido projetado, também nele haveria uma “razão de ser” inteligível que constitui sua essência e que explica por que cada coisa é como é, e não de outro modo. A essência do mundo em si mesmo, no caso, seria equivalente à intenção do engenheiro que o projetou — e só nessa ótica esse tipo de investigação metafísica faria sentido, mas precisaríamos pressupor que ele teve um criador. Isso nos permite entender melhor por que a metafísica tradicional possui uma orientação teológica: ela faz questionamentos que só são admissíveis partindo-se do pressuposto de que o mundo foi criado inteligentemente para cumprir uma finalidade. Por isso, no fim das contas, a metafísica tradicional resume-se à tentativa de fazer engenharia reversa no projeto divino.
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Quando colocamos a razão antes da observação, em vez de investigar o mundo, investigamos nossa própria razão, nosso próprio universo subjetivo. Fechamo-nos para o mundo sensível e passamos a buscar não fatos observáveis, mas “razões últimas”, “intenções por detrás do mundo”, e essa postura investigativa nunca chegou a lugar algum. Investigar o mundo natural com uma postura metafísica equivaleria, digamos, a tentar descobrir a geografia dos continentes não navegando ao seu redor e anotando aquilo que se observa, mas trancando-nos num quarto e meditando sobre a razão de ser, sobre a essência e a finalidade das voltinhas caprichosas de cada continente. Com essa abordagem não apenas ficamos sem saber como o mundo é, mas ainda gastamos todas as nossas energias em investigações inúteis sobre coisa nenhuma.
Percebemos o erro de inquirir o mundo racionalmente, através da razão pura, e passamos a investigá-lo com os olhos, por meio de procedimentos empíricos. Investigamos a realidade através da experimentação científica, e chamamos de leis naturais os padrões que conseguimos descobrir a respeito de como o mundo funciona. Como tais padrões independem da ótica de um sujeito, dizemos que são objetivos. Assim, quando colocamos a observação antes da razão, passamos a investigar aquilo que queremos descobrir. Em vez de devanear, saímos pelo mundo afora, contornamos os continentes e anotamos aquilo que observamos, e só usamos a razão para saber como estruturar nossas investigações, não para dispensar a necessidade de barcos. Essa postura nos proporcionou mapas úteis, que servem para orientar quaisquer navegadores, em vez de apenas grossos livros com especulações metafísicas sobre a essência transcendente da areia fina. Terminada a observação empírica, tudo o que a metafísica pode fazer é afirmar que há um mundo ao qual o mapa corresponde.
Como o objetivo das ciências é conhecer o mundo, e não entender os porquês de seu suposto criador, tivemos de reajustar nossa concepção metafísica do mundo, reduzindo-a àquilo que tínhamos diante de nós e que era passível de investigação. Nosso conhecimento tornou-se então a descrição objetiva dos fatos — em vez de uma tentativa de explicá-los como resultado da subjetividade de um ser superior. A partir de então demos à ciência o papel de investigar os fatos, de explorar o mundo, e à metafísica restou apenas o papel de conceituar o mundo a partir desses fatos que observamos, ajustando um ao outro para permitir um conhecimento cada vez mais preciso e coerente. Passamos a usar a razão não para entender ou explicar o mundo, mas para tornar o conhecimento possível, para justificar a validade das ciências como um saber objetivo.
Como se percebe, hoje o campo da metafísica é muito mais modesto, e busca apenas entender o que é a realidade e como se dá a nossa relação com ela. Busca explicar como é possível entender o mundo objetivamente, não a partir da ótica subjetiva do “ser absoluto”, mas da ótica subjetiva do homem, que está contida na própria realidade natural, e não acima dela. Assim sendo, o que hoje denominamos metafísica não é a tentativa de investigar o que existe “além” da física, mas além da experiência imediata. Ela busca distinguir aquilo que existe em si mesmo — e que existiria mesmo se não existíssemos — daquilo que existe apenas em nossas mentes. Com essa abordagem, já não tentamos justificar o mundo, mas o conhecimento. Em vez de distinguir entre ser e essência, entre dentro e fora da física, passamos a distinguir entre subjetivo e objetivo, entre dentro e fora do homem. Abandonamos a ideia de que haveria uma “essência transcendental” inefável, pois percebemos que essa essência era apenas nossa subjetividade projetada no mundo exterior.
Esse movimento de naturalização tem profundas implicações a respeito de como pensamos o mundo e o lugar do homem na existência — e, como essa mudança de ótica é relativamente recente, ainda carregamos muitos preconceitos metafísicos herdados da metafísica tradicional essencialista. A relação do niilismo com a metafísica, no caso, seria justamente a tentativa de entender as implicações de reduzir o homem ao natural. O niilismo existencial nega que haja sentido em buscar um sentido subjetivo no mundo objetivo, exterior ao homem. Ou seja, a investigação da realidade natural nunca poderá envolver questões subjetivas, pois não podemos investigá-las por meio da observação de fatos naturais.
Para levar tais questões subjetivas adiante, investigando, por exemplo, a “razão de ser do homem”, precisaremos naturalizar essa questão, isto é, abordá-la dentro do contexto de um mundo natural regido por leis físicas impessoais. O problema é que, ao naturalizar a subjetividade, a questão mostra-se algo tão despropositado quanto procurar uma fundamentação física para o Natal ser em dezembro. Entender nossa subjetividade como resultado de um processo natural torna ilegítima a maioria das questões que levantamos sobre o mundo em si mesmo. Assim, quando o âmbito da reflexão metafísica fica amarrado à ciência, à experimentação, aos fatos naturais, o resultado é que deixam de ser admissíveis as investigações metafísicas que não digam respeito àquilo que foi observado no mundo natural. Afirmar que o homem não pode procurar para si mesmo um sentido que não seja baseado em fatos naturais equivale, é claro, a destruir a ideia de sentido pela raiz — ficando as investigações sobre o sentido da vida restritas a fatos naturais, como sobrevivência da espécie e perpetuação genética, por exemplo.
Como se nota, o niilismo faz o incômodo papel de “carrasco das investigações sem sentido”. Não se trata realmente de uma ideologia, de uma ótica com qualquer objetivo “positivo”, mas de uma postura de reflexão analítica e retificadora. O niilismo não busca explicar ou guiar o homem, mas situá-lo imparcialmente dentro daquilo que se conhece por meio da ciência. Nessa ótica, como o fim da metafísica tradicional equivale a uma ruptura radical com a teologia, podemos dizer que o niilismo faz o papel de coveiro do sentido: busca sepultar todas as questões levantadas com base na suposição de que haveria uma “razão” para tudo o que existe. O além desaparece, restando apenas o aqui.
Nessa abordagem, aquilo que denominamos vazio da existência seria precisamente o vácuo criado por essa drástica redução de nossa concepção metafísica do mundo. Pensávamos que o que existia dentro de nós, nossa subjetividade, também existia fora de nós, refletindo os “princípios últimos” da realidade, algo como um “espírito do mundo”. Agora, reduzindo o mundo à física, aos fenômenos naturais, essa essência passou a equivaler às leis físicas — algo que julgávamos ser apenas uma pequena parcela da realidade. Quando passamos a ver o mundo como algo natural e objetivo, tornamo-nos também algo natural e objetivo, e isso nos decepcionou grandemente — sendo o papel do niilismo manter o homem decepcionado até que decida abandonar suas criancices existenciais.
Entendendo que as leis físicas são, por assim dizer, a “essência” da realidade, a observação mais interessante a ser feita é a seguinte. A existência do homem é uma lei física? Não. Há algo no mundo natural que torne a existência do homem necessária como a gravidade? Não. Segue-se que não fazemos parte do mundo natural enquanto homens, mas enquanto matéria. Como não há leis naturais subjetivas, nossa subjetividade não tem essência. Em vez de necessária, a existência do homem é contingente: somos um acidente. A naturalização da realidade implodiu a subjetividade, e o homem foi reduzido a nada.
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Feitas essas observações, vemos que o niilismo nos coloca numa situação bastante estranha, como se fôssemos visitantes no mundo, hóspedes temporários da matéria — e é exatamente esse o caso. Somos um fenômeno natural, e nossa ideia aqui é nos revisarmos por completo enquanto tais, passando a limpo nossa compreensão da realidade.
Até este ponto, ocupamo-nos em explicar que o vazio da existência decorre de reconhecermos o caráter não-humano do mundo em si. Daqui em diante, nos dedicaremos a delinear com maior clareza o que seria esse mundo não-humano, distinguindo-o de nosso universo subjetivo. Nossa primeira observação será a respeito da busca pelo conhecimento. Isso foge um ponto do assunto, mas é importante. Depois começaremos a delinear a distinção entre objetivo e subjetivo em detalhes, e daremos alguns exemplos de “aplicação” do niilismo enquanto procedimento analítico.
Não há dúvida de que compreender o mundo sempre foi nossa maior ambição filosófica. Porém, exceto pela curiosidade, no processo de entendê-lo não há qualquer ponto de partida seguro, e isso sempre nos incomodou. Foram propostas muitas soluções para o problema da incerteza em nosso conhecimento, mas todas elas se mostraram inconclusivas — ainda hoje não temos qualquer certeza. O que dificilmente nos ocorre, entretanto, é questionar o ponto de chegada: as certezas. Se não temos qualquer ponto de partida seguro, por que achamos seguro dizer que a certeza é o ponto de chegada? Ora, certezas são o objetivo de quem busca segurança, não conhecimento. O problema da incerteza nasce simplesmente de nossa angústia — não se trata de algo a ser solucionado por meio da investigação, mas por meio de calmantes.
Perceba-se, então, que não faz sentido procurar certezas no mundo, pois o próprio conceito de certeza foi inventado por nós mesmos — e não com o fim de melhor conhecer o mundo, mas de nos sentirmos mais seguros. Repudiamos certezas porque queremos entender o mundo, não justificar nossos rodeios ansiolíticos. A crença na necessidade de certezas desvirtua nossa compreensão porque, o aceitarmos a noção de certeza, passamos a investigar a realidade física em busca dessas mesmas certezas, num processo obviamente circular. Esse objetivo de alcançar “verdades absolutas” nunca foi demonstrado como válido, apenas suposto como desejável por filósofos medievais inspirados pela matemática.
Nessas circunstâncias, se não podemos partir do pressuposto de que devemos buscar certezas, já não temos ponto de partida nem de chegada, o que é ótimo. Livres desses preconceitos, podemos começar a construir uma visão imparcial, que não está comprometida com a “paz na alma” como critério da verdade.
Apenas agora, saindo desse círculo, abandonando todas as expectativas, nosso ponto de partida passa ser observar o que temos diante de nós. Abrimos os olhos, vemos que há um mundo, e que estamos nele — mais nada. Essa é a postura mais básica e neutra que podemos adotar. Partir de posturas complicadas e confusas torna tudo complexo e confuso, então partimos de nossa existência no mundo, que é a coisa mais elementar e imediata à qual temos acesso. Claro, não temos “fé” nisso, não pensamos que se trate de uma verdade incontestável. Talvez estejamos errados ao pensar que existimos. Talvez existir seja uma ilusão. Há infinitos talvezes teóricos, mas queremos que também nossos motivos para a dúvida sejam baseados em fatos, não em suposições metafísicas inócuas.
Sendo que não possuímos motivos razoáveis para duvidar de nossa existência, não duvidamos. Pensamos que existimos porque estamos aqui, e só. Essa não é uma questão que possamos resolver por meio de meditações metafísicas — não temos como investigá-la. O que nos leva a aceitar a existência do mundo como um fato é o fato de o termos diante de nós. Isso é tudo o que podemos dizer. Sabemos que existir é um absurdo, mas é um fato absurdo, não apenas uma especulação.
Desse modo, existir não se trata de uma crença metafísica: trata-se simplesmente de abrirmos os olhos e nos vermos acontecer neste algo que chamamos mundo. Nossa postura seria metafísica apenas se abríssemos os olhos acreditando que devemos buscar certezas ou razões últimas. Em vez disso, abrimo-los tão somente, e é isso o que vemos. Se existir é uma ilusão, é diante da ilusão que estamos, e queremos conhecê-la, seja ela o que for. Essa incerteza básica sobre o existir é algo que simplesmente temos de aceitar, do contrário viciaremos nossa investigação logo de início, passando a andar em círculos à moda dos teólogos.
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Esclarecido esse ponto, voltemo-nos agora à distinção entre objetivo e subjetivo. Para nossos fins, definiremos a realidade objetiva como aquilo que existe por si mesmo incondicionalmente. A atividade dessa realidade, no caso, seria aquilo que denominamos fenômenos, ou seja, aquilo que acontece. Se a existência, por exemplo, fosse um relógio, a realidade objetiva seriam suas engrenagens, seus ponteiros, sua estrutura como um todo. O movimento dessas engrenagens seriam os fenômenos. Mas, na ótica niilista, isso tudo careceria de significado, ou seja, as horas não existiriam — esses ponteiros girariam sem razão e apontariam para coisa nenhuma.
Para entendermos com mais clareza, utilizemos outro exemplo mais próximo de nosso dia a dia: uma festa. Passamos por um local e vemos que nele está sendo realizado um evento festivo qualquer. No dia seguinte, passamos pelo mesmo local, mas não encontramos sequer vestígios do evento. O lugar existe. As pessoas existem. A festa não: ela estava apenas acontecendo. A ideia é essa. Agora basta ampliar o tempo envolvido para percebermos que as pessoas também não existem: todas elas têm uma duração, ou seja, também estão acontecendo. Quanto mais avançamos nesse raciocínio, mais as implicações se tornam extremas, até percebermos que eventualmente tudo se perderá nessa eterna reciclagem — e a única coisa que permanece é a forma como isso tudo acontece, ou seja, a física, a matéria da qual isso tudo é feito.
Até aqui, tudo está bastante claro: o mundo existe, e nós acontecemos por meio dele. Porém, agora, para demonstrar por que a humanização da realidade é um erro, e também para explicar como esse erro ocorre, precisamos distinguir entre a realidade objetiva e a subjetiva, entre o mundo em si mesmo e a nossa consciência desse mundo. Temos alguma dificuldade em perceber essa distinção através da intuição, mas podemos explicá-la, ao menos preliminarmente, da seguinte forma: aquilo que existe independentemente de nós, e que continuará existindo mesmo depois que estivermos mortos, é a realidade objetiva, o ser propriamente dito. Por outro lado, aquilo que existe apenas dentro de nossas mentes é a realidade subjetiva. Esse mundo subjetivo é criado por nós próprios, algo que, depois de nossa morte, cessará de existir sem deixar quaisquer vestígios.
Prossigamos questão adentro. Somos máquinas, e nossa consciência faz parte de um sistema de reconhecimento da realidade que tem a função de guiar nossos corpos. A realidade que temos diante de nossos olhos é uma construção mental subjetiva, uma representação parcial da realidade objetiva. Sons, cheiros, cores: isso tudo é construído por nossos cérebros a partir do que captam por meio de um aparato sensorial. Não há um eu por detrás disso tudo. Somos nosso cérebro. E em volta desse cérebro há um corpo que o permite andar pelo mundo, e ligados a ele há órgãos sensoriais que o permitem perceber o mundo.
Cada espécie tem um tipo diferente de cérebro, e cada tipo interpreta a realidade de uma maneira particular — havendo, claro, espécies que não têm cérebro algum. Sendo humanos, temos um cérebro com cinco sentidos, e ainda a capacidade de reflexão abstrata. É por meio disso, e apenas disso, que podemos saber o que é a realidade. Note-se também que nossa razão, apesar de magnificamente versátil, não tem acesso à realidade exterior — sendo esse o motivo pelo qual a razão pura é tão inútil para investigar a realidade quanto olhos fechados para vê-la.
Nossa consciência do mundo é, então, uma representação do mundo, um ponto de vista particular de um cérebro de um organismo particular. Nossa percepção do mundo não é o próprio mundo: é apenas o modo como nosso cérebro nos apresenta esse mundo. Essa realidade, portanto, em vez de imediata, é mediata: está para o mundo assim como um mapa rodoviário está para as estradas. Trata-se de uma reprodução aproximada, de uma tradução mais ou menos equivalente, não de uma transposição direta.
Claro que nossos corpos, nossos cérebros, nossos processos mentais existem e acontecem objetivamente. Entretanto, o mundo que se apresenta diante de nós através da consciência, através dos sentidos, é uma realidade apenas subjetiva, que depende de nós para existir. Por isso ela varia de sujeito para sujeito. Aquilo que vemos como uma cor azul, outro indivíduo pode ver como uma cor verde. Aquilo que para nós tem cheiro podre, para abutres presumivelmente tem cheiro maravilhoso. Há infinitos modos de interpretar as mesmas informações sensoriais, e isso depende de como nosso cérebro funciona, de como ele está programado para traduzir as informações que recebe por meio dos sentidos. Assim, a realidade em si mesma não nos é acessível: só podemos apreendê-la de modo indireto, na forma de representação.
Isso nos dá uma ideia razoável do que queremos dizer ao afirmar que em nossas cabeças há apenas uma representação da realidade, uma construção limitada feita a partir de informações que não esgotam tudo aquilo que existe. Nossos sentidos estão programados para captar apenas uma amplitude específica de informações. Nossos olhos captam um espectro específico de ondas eletromagnéticas, representando-as como cores. Nossos ouvidos captam um espectro específico de vibrações sonoras, representando-as como sons, e assim por diante. Assim, a princípio, nada impediria que sentíssemos gosto com os olhos ou que cheirássemos com os ouvidos — bastaria que nossos cérebros estivessem arquitetados para traduzir a realidade dessa maneira.
Então, a partir de processos físicos materiais, nosso cérebro cria uma espécie de “realidade virtual” que só existe dentro de nossas mentes, assim como uma televisão cria imagens a partir de componentes eletrônicos. A atividade de nossos circuitos cerebrais cria nossa consciência e, dentro dela, um mundo subjetivo. Esse é o nosso modo de existir. Nosso cérebro, através dos sentidos, recebe continuamente informações do ambiente e, a partir dessas informações, ele elabora uma representação subjetiva da realidade objetiva.
Assim, em vez de acessar a realidade diretamente, nosso cérebro lê os dados brutos que chegam por meio dos sentidos e apresenta à nossa consciência um resumo de seus aspectos mais relevantes. É isso o que cérebros fazem, essa é a sua função. Através dos sentidos, eles se informam sobre a realidade para saber como guiar os corpos nos quais estão instalados. Naturalmente, quanto melhor for nossa capacidade de representar a realidade, melhores serão nossas chances de sobreviver, de evitar inimigos, de encontrar alimento, parceiros sexuais e coisas do gênero, sendo nossa capacidade de raciocinar apenas um refinamento dentro disso tudo, permitindo-nos distinguir sutilezas. Tais coisas, por sua vez, estão arquitetadas em função da perpetuação genética. É por isso que sentimos prazer ao fazer sexo, por isso sentimos dor ao ser agredidos etc., mas esse assunto não nos ocupará no momento.
Assim, nós somos reais, mas não vemos a realidade em si. A vida consciente, entretanto, não é uma ilusão. Enquanto máquinas, somos seres tão materiais e objetivos quanto o mundo que nos circunda. Nós existimos objetivamente, nossa consciência é um fenômeno real. Porém, apesar de sermos reais, nossa consciência não tem acesso imediato à realidade em si mesma. Esse contato é mediado pelos sentidos. Com isso, vemo-nos limitados à representação subjetiva criada por nossos cérebros, sendo nossos sentidos o único ponto de contato com o mundo exterior. Disso resulta a impressão de que existir é estar vivo, embora a vida seja apenas uma espécie rara de acaso.
Como nosso contato com a realidade acontece por meio dessa ótica parcial, criada por nós mesmos, surgem dois problemas. Primeiro, nossa representação da realidade está comprometida não com a ciência, mas com a sobrevivência. Segundo, como ter consciência disso tudo não é biologicamente relevante, não distinguimos entre uma coisa e outra, e o subjetivo nos parece algo objetivo, como se nossa consciência, nossa representação mental do mundo, fosse o próprio mundo, algo que nos leva a humanizar o que observamos, transpondo nossa representação da realidade, que é interior, para o mundo exterior.
Parece-nos, por exemplo, que as cores existem por si mesmas. Cores parecem-nos uma propriedade intrínseca dos objetos que observamos, parecem algo exterior, independente de nós. Ao observar um objeto vermelho, parece-nos indubitável que aquela cor está no objeto, e não em nossas cabeças. Mas todas as cores são criadas por nosso cérebro a partir da captação de ondas eletromagnéticas. Por isso vemos cores num mundo no qual não há cor alguma. O fato é que não há objetos verdes ou azuis em si mesmos. É nosso cérebro que cria as cores no processo de transformar em imagens mentais a energia luminosa refletida por tais objetos. Ver cores é apenas um modo como representamos a realidade, e elas só existem porque há um cérebro que as cria. Se quisermos uma prova disso, bastará fecharmos os olhos.
As ondas eletromagnéticas, por outro lado, são objetivas, pois sua existência é incondicional. Elas existem por si mesmas, havendo ou não um cérebro para captá-las e traduzi-las em imagens mentais. O mesmo vale para coisas como amor, alegria, prazer, dor, angústia etc.: são algo que só existe no contexto biológico de nossos corpos.
Assim, tudo o que acontece em nossas consciências tem seu começo e seu fim na própria consciência. Fora da consciência, tudo é inconsciência; fora da vida, tudo está morto. Naturalmente, como somos seres vivos, temos a impressão de que a vida tem um “valor intrínseco”, mas isso é tão ilusório quanto pensar que átomos têm sentimentos.
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Como definimos, a realidade objetiva é aquilo que existe por si mesmo incondicionalmente. Porém, como nossa existência subjetiva, o conteúdo de nossas consciências, é puramente condicional, o niilismo, quando aplicado a nós mesmos enquanto seres subjetivos, reduz-nos a nada. Não só as cores, mas todo o nosso universo subjetivo passa ser encarado como uma “ficção”, como uma realidade virtual criada pelo sujeito. Nessa ótica, quando afirmamos que “tudo é nada”, com isso queremos dizer que nossa ótica subjetiva da existência é condicional. Queremos dizer que nossa consciência acontece dentro de nossos cérebros como resultado de um processo material, de modo que a realidade objetiva não está na própria consciência, mas na atividade neural, no cérebro material que cria essa consciência. Se explodirmos nossos cérebros, apenas nossa consciência do mundo desaparecerá: o mundo continuará existindo.
Pelo fato de o mundo em si mesmo não possuir nenhuma das características da subjetividade humana e, ao mesmo tempo, sermos seres que existem encerrados num mundo virtual criado por eles próprios, podemos dizer que nossa subjetividade se assemelha a uma espécie de surto psicótico da matéria.
Feita a distinção entre objetivo e subjetivo, o niilismo começa a se situar com mais clareza em nossas mentes, permitindo-nos relativizar nosso antropocentrismo. Desse modo, ao afirmar que tudo é nada, que a existência é vazia, referimo-nos à ausência de significado que inere a essa existência objetiva — pois significados, intenções e objetivos são algo que só faz sentido no contexto de nossas máquinas biológicas. Não devemos, portanto, entender o niilismo como uma “negação da realidade” ou como um “pessimismo existencial”. Devemos entendê-lo como a ótica segundo a qual a realidade objetiva é algo que apenas existe, estando isenta de quaisquer traços subjetivos. O subjetivo, por outro lado, deve ser entendido como algo que existe apenas dentro de nossas cabeças. Assim, objetivamente, o ser existe, e nada mais. Mas e quanto ao que acontece? O que acontece, acontece, e nada mais. Se acontece dentro ou fora de nossas cabeças, é indiferente.
Isso justifica a afirmação de que, fora de nosso universo subjetivo, nada tem sentido, tudo carece de significado, pois tais coisas são criadas pelo próprio sujeito. É por isso que o problema do “sentido da existência” não tem solução, pois não é sequer um problema, apenas um fato.
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De início, não fica muito claro para que serve compreender isso tudo. O niilismo, enquanto postura teórica, não tem sequer vestígio de utilidade prática. Porém, intelectualmente, é uma ferramenta analítica bastante interessante, desde que empregada em quantidades moderadas. Uma overdose de relativismo não fará mais que nos deixar ansiosos por não termos certeza de nada e por havermos rejeitado todos os pontos de referência a partir dos quais poderíamos deduzir alguma coisa útil. Ficaríamos paralisados pelo simples fato de que “talvez possamos estar errados”, de que “não podemos ter certeza de nada”. Mas, obviamente, por tal postura consistir na certeza de que não temos certeza alguma, ela refuta a si própria, sem nos oferecer qualquer perspectiva promissora sobre como chegar a saber algo.
O ceticismo radical é apenas um modo inteligente de afirmar, em termos filosóficos, que somos limitados e estúpidos, no qual quem faz a afirmação se coloca como um exemplo ilustrativo ao atirar no próprio pé. Ao que tudo indica, essa espécie de ceticismo é apenas ansiedade disfarçada de filosofia. Claro, podemos estar errados. Porém, se estivermos, corrigiremos o erro assim que o descobrirmos: não nos interessa devanear terríveis erros hipotéticos, pois isso é apenas paranoia.
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Sendo um agente destrutivo, o niilismo não nos permitirá descobertas grandiosas, apenas limpará o terreno para que consigamos construir uma visão mais coerente da realidade. Assim, ao aplicá-lo num assunto qualquer, não devemos esperar mais que a aniquilação do objeto que analisamos, ou seja, sua redução a nada. O niilismo opera uma espécie de “esterilização do ser”, eliminando todos os seus elementos subjetivos: tira do ser toda a vida, todo o movimento, todo o significado, todo o sentido, ou seja, desumaniza-o, descaracteriza-o a tal ponto que se torna indistinguível de qualquer outra coisa. Isso permite que tenhamos uma visão crua daquilo que analisamos, vendo-o despido de antropomorfismos, reduzido à sua crua existência objetiva, o que equivale a dizer reduzido a nada, isto é, a nada além dele próprio.
O niilismo, como se percebe, procura nos remover da equação para que consigamos conceber algo próximo do que seria a realidade objetivamente — sendo a finalidade disso é evitar que nosso conhecimento se torne uma humanização da existência. Assim, ao adotar uma ótica niilista em relação a um assunto qualquer, é como se estivéssemos desumanizando esse assunto, dissecando-o. Uma vez tenhamos apagado suas qualidades subjetivas, deixará de existir qualquer distinção entre uma coisa e outra coisa, seja qual for o nível em que tivermos estabelecido tais distinções — como valor, sentido, significado, identidade etc. —, e teremos de reconstruir nossa compreensão do assunto sob essa ótica bastante severa. No processo, morrem as ilusões, ficam os fatos.
Como essa ideia é um pouco abstrata, pensemos numa forma mais palpável de colocá-la. Por exemplo, que é um homem? Podemos defini-lo, grosso modo, como um mamífero com cérebro volumoso que anda em posição ereta. Essa definição distingue o homem de todo o resto, especialmente o resto dos animais. Dá ao ser humano um caráter distintivo frente à existência. Logo, nessa perspectiva subjetiva, temos uma definição a partir da qual podemos afirmar que o homem é alguma coisa, que o homem existe. Todavia, o que aconteceria se agora adotássemos uma postura niilista em relação ao homem? Haveria uma série de questionamentos que acabaria por desconstruir toda essa noção, negando a distinção entre o homem e as demais coisas. Vejamos algo simples que ilustra essa ideia.
O homem é composto por aproximadamente 70% de água. Enquanto essa água estiver, digamos, em seu cérebro como componente das reações químicas que o mantêm vivo, ou em qualquer outra parte de seu corpo, será também um homem. Então a água é homem na medida em que compuser o sistema biológico que desempenha esse papel previamente definido. O mesmo vale para os 30% restantes, que são proteínas, gorduras, açúcares, ácidos nucleicos etc. Sabemos que o homem só permanece vivo na condição em que a matéria que constitui seu corpo seja trocada permanentemente. Então em algum momento a água que estava em seu cérebro, e que o permitiu pensar que precisava cortar as unhas, será expelida de seu corpo. A água deixará de ser um homem para ser precisamente o quê? Exatamente o que era antes de ser ingerida: nada; só um conjunto de moléculas de oxigênio e hidrogênio, como sempre foi, como nunca deixou de ser.
A não ser que pensemos que os átomos adquirem alguma aura mágica após a absorção e a perdem após a excreção, temos de admitir que o conceito subjetivo de homem, que nós próprios inventamos, é algo que cria uma distinção subjetiva e qualitativa entre esse homem, que é um arranjo específico de matéria, e as demais coisas, que são arranjos de matéria dispostos de modo diverso. Ambas as coisas, no fundo, são exatamente a mesma coisa: matéria. Tudo o que fizemos foi classificar, dar nomes aos bocados de átomos que nos parecem importantes, e as distinções que criamos com isso são apenas convenções. Essa distinção que vemos entre homem e não-homem nunca poderia ser objetiva porque, por exemplo, as moléculas de água no rio, na chuva ou no cérebro têm, objetivamente, a mesma natureza. Sejam quais forem as situações em que se encontrem, não exibem qualquer diferença discernível em seu comportamento físico.
Se isso se aplica não somente à água, mas também a tudo o que compõe o homem, e se o homem é composto pela mesma matéria que constitui todo o resto do universo, onde exatamente poderíamos encontrar uma fundamentação objetiva para a distinção entre o homem e o mundo? Entre a água em seu sangue e a na torneira? Entre o oxigênio em seu sangue e o na atmosfera? Não podemos — ou os rios já estariam humanizados pela nossa urina cheia de essências e realidades maiores. Tudo o que fazemos é criar definições subjetivas de caráter convencional, nas quais o que levamos em consideração é a utilidade prática de se designar esse arranjo específico de matéria pelo termo homem.
Portanto, analisar o homem com uma ótica niilista equivale a negar sua existência objetiva — mas apenas enquanto um ser dotado de uma suposta “subjetividade objetiva”. Isso não significa que não existimos, que não estamos aqui, mas que não se pode dizer que o homem existe objetivamente, no mesmo sentido em que a água existe. Isso porque, diferentemente das cores, dos sons, dos sentimentos, a água não é criada por nossa representação da realidade. Claro que a água surge devido a reações químicas. Sabemos que seus elementos podem ser decompostos, mas isso tudo independe da ótica de um sujeito. Se decompuséssemos a água utilizando eletricidade, a eletrólise não ocorreria em nossos cérebros.
Assim, ao aceitarmos que o homem é composto pela mesma matéria que compõe todo o resto do universo, e que esta se comporta da mesma forma, estando ou não em seu corpo, isso implica rejeitar a distinção entre homem e não-homem. Nessa ótica, se houvesse um homem sentado em uma cadeira, seu corpo e a cadeira não poderiam ser encarados como coisas distintas, objetivamente diferentes. Tudo passa a ser visto como uma sopa indistinta de átomos. A distinção entre homem e cadeira só surge após delinearmos critérios subjetivos de classificação, que são completamente arbitrários. Não que tais critérios sejam inúteis, pois não são. O fato de algo ser subjetivo não é uma objeção à sua significância, só uma condição de existência: a condição de existir como um fenômeno subjetivo, como uma ótica de um sujeito, não como uma “essência do ser”. Em nenhum sentido isso poderia ser usado como justificativa para remover o valor da cadeira ou do homem, visto que coisas como valor, significado, sentido só existem dentro da esfera subjetiva, nunca no mundo objetivo.
Diante disso, alguém poderia dizer: como se poder afirmar que, ao olhar este objeto, não exista uma pessoa vendo este objeto! Naturalmente que, para todos os efeitos, existe uma pessoa vendo esse objeto. Só que a pessoa, enquanto um sistema biológico maquinal, assim como sua notável capacidade de converter energia luminosa em imagens mentais, é um fenômeno, e como tal deixará de existir — ou, melhor dizendo, de acontecer — assim que o encadeamento material que deu origem ao fenômeno cessar, resultando num velório. Com a morte do indivíduo, deixa de existir esse universo subjetivo no qual havia uma pessoa que via objetos — e, quando um universo subjetivo desaparece, não sobram disso quaisquer vestígios, assim como não sobram vestígios de filmes quando uma televisão é desligada.
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Pode-se dizer que, no exemplo acima, nós “niilificamos” o homem, isto é, o desconstruímos, esvaziando-o de quaisquer qualidades subjetivas. Quando suprimimos o aspecto subjetivo do homem, passamos a ver nós próprios como um fato, como algo indistinto, que não se separa do restante da realidade. Vemo-nos, então, reduzidos a um bocado de átomos — e vemos que nosso próprio pensamento não passa da atividade desses átomos. Por meio desse processo intelectual, pudemos vislumbrar o que é um homem em si mesmo, num sentido objetivo. Se fizéssemos a mesma pergunta — que é o homem? —, responderíamos, agora, o homem não é nada. Como a redução a nada é um processo intelectual, não algo prático, não foi necessária uma bala para realizar essa ação — embora ela sirva para ilustrar que depois de morte nada restará de nosso subjetivo.
A utilidade fundamental de analisarmos algo sob a ótica niilista, como se vê, consiste em verificar sua consistência, ou seja, sua relação com a realidade, sua vida — e, para testar a vitalidade de uma ideia, nada mais confiável que destruí-la e, depois, verificar se tem forças para renascer de suas próprias cinzas.
Mesmo que tenhamos desconstruído o homem no exemplo acima, essa ideia não deixou de ter vida, pois podemos reconstruí-la por completo a partir da realidade subjetiva, e não nos incomoda em nada que tenhamos de fazê-lo nós próprios, sem qualquer autoridade externa. Como somos homens, esse é um conceito que simplesmente fazemos questão de cultivar, e está completamente contido na esfera humana da realidade.
É importante também lembrar que essa desconstrução não nos causou angústia somente porque, desde o início, não tínhamos quaisquer fantasias metafísicas sobre o homem ser “especial” ou “algo além” de matéria. Assim, mesmo descontruída em nível conceitual, nossa existência não deixou de ser um fato. E o mesmo poderia ser dito das cores: mesmo sabendo que cores são apenas uma ficção subjetiva, continuamos a cultivar esse conceito, pois ele é útil para a decoração das paredes de nossas casas. Se cores não perdem seu valor por não possuírem uma “essência transcendental”, por que o homem perderia?
Julgamos tais observações óbvias porque sabemos que somos apenas um modelo específico de máquina biológica ao qual damos o nome homem. Se a espécie humana não existisse, o conceito de homem também não existiria — nossa essência não continuaria existindo num cantinho oculto do cosmos. Assim, os niilistas podem desconstruir o conceito de homem o quanto quiserem. Isso apenas apaga uma definição, mas não muda o fato de que somos máquinas que gostam de dar nomes às coisas. O niilismo apenas nos impede de perder de vista que, em última instância, é apenas gramática o que nos distingue do resto da existência.
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O homem, como vemos, sobreviveu à crítica. Porém, se reduzirmos a nada um conceito que não tenha realidade por detrás, não haverá como reconstruí-lo. Quando, depois de sofrer tal processo de crítica, o conceito não é capaz de levantar-se novamente, isso indica que já estava se tornando um fantasma, que já havia deixado de corresponder a uma realidade explicitamente humana para refugiar-se no nada na forma de um dogma metafísico impessoal, sustentado somente pela tradição ou pela fé. Então, por exemplo, se reduzirmos a moral a nada, o que restará de realidade nesse conceito? Ou seja, a partir de que poderemos reconstituí-la, devolver-lhe a vida? Apenas de nós próprios, pois não haveria qualquer outro referencial. Então, se não pudermos explicar de onde tiramos nossos valores, eles não poderão continuar a ser sustentados. Não poderemos alegar que existem “por si mesmos” se não pudermos demonstrá-los como um fato natural — e, não havendo um além, só nos restará defendê-los como um valor subjetivo, inventado por nós.
Suponhamos que houvesse existido uma tribo que acreditava em duas leis morais: que é errado comer fezes e que é errado comer alface. Numa escavação arqueológica, encontramos essas duas leis inscritas em algum artefato. Nessa situação, apenas a primeira lei nos seria algo inteligível, um valor moral ainda passível de ser reconstruído como algo relacionado ao mundo. A outra lei seria vista como uma superstição sem sentido, baseada em alguma suposição fantasiosa desse povo a respeito do caráter funesto de folhas de alface. Nenhuma pessoa em sã consciência pensaria que devemos parar de comer alface, tampouco acharia sensato comer fezes para zombar dos valores dessa tribo. Entretanto, se descobríssemos que a alface que essa tribo cultivava era uma variante que, por alguma mutação genética, tornou-se venenosa, então julgaríamos perfeitamente razoável a proibição que defendia.
Noutro exemplo, reduzindo a nada as leis criminais e os dez mandamentos, só as primeiras poderiam ser reconstruídas com nossas próprias mãos. Poderíamos reinventar as leis criminais a partir do zero, pois sabemos de onde vieram e para que servem. São valores morais humanos, e sabemos como justificá-los: interesses comuns e polícia. Isso, obviamente, não se aplicaria aos dez mandamentos, já que ninguém poderia demonstrar a realidade do legislador metafísico que os criou.
Nessa situação, todos os valores morais que tenham deixado de possuir raízes na realidade, que tenham se convertido em abstrações puras e idealismos caducos, morrem ao serem demolidos pelo niilismo, e isso pelo simples fato de que não havia nenhuma realidade ainda viva que os sustentasse. Esses valores, agora sem contexto, já não nos defendem, não nos representam. Não se sustentam porque não há ninguém para sustentá-los, sendo que sua morte só poderá ser adiada por apelos à autoridade.
Com se percebe, o processo de crítica niilista seria equivalente a reunir todo o papel-moeda que possuímos e todo o ouro que sustenta seu valor. Destruir todas as notas de papel-moeda e, então, verificando a quantidade de ouro que possuímos, emitir novamente as notas, sabendo que, agora, há uma realidade sustentando seu valor. Dogmas, ou seja, ideias sem valor nem conteúdo, fazem mal à nossa compreensão da realidade assim como cheques sem fundo fazem mal à economia. Essa analogia deixa claro que o niilismo, longe de representar uma medida drástica, não passa de um procedimento de fiscalização da realidade, enfatizando não a destruição, mas a transparência de nosso conhecimento. Assim, quem possui confiança de que suas ideias têm fundamentação sólida, não terá nada a temer. Entretanto, quem emite juízos ocos, fraudulentos, não terá como protegê-los.
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A moral é um assunto bastante controverso, mas é evidente que somos nós próprios que inventamos todas as noções morais. Recheamo-las com ideias, depois as esvaziamos com críticas, e assim caminhamos. Um conjunto de noções morais cumpre o papel de orientar nosso comportamento na vida em sociedade. Como somos seres em constante mudança, as criações que originalmente surgiram como nosso reflexo deveriam nos acompanhar nessas mudanças, mas é bastante comum acabarem cristalizadas em noções aparentemente suficientes em si mesmas. Ou seja, perdem seu sentido, sua origem, sua função, e agora não dizem nada, não passam do eco de uma voz esquecida. Porém, em vez de morrerem, é comum permanecerem vivas anonimamente em função da tradição e da autoridade. É como se um elemento subjetivo houvesse “pegado a tangente” e transposto a própria subjetividade, situando-se agora na esfera objetiva que nós, meros mortais, não podemos alcançar. Tornam-se valores de anjos. Isso, logicamente, é impossível, mas é assim que se estabelece a autoridade absoluta de certos valores, ao menos em nossas cabeças. Um ótimo exemplo disso é o culto aos antepassados — porque, obviamente, se tais valores fossem justificáveis, não seria preciso defendê-los recorrendo ao histórico de defuntos.
O que temos aqui? Valores incompreensíveis, que apontam para lugar nenhum, e cujos fundamentos, em vez de serem alguma coisa, não são nada. No além, são tudo. No aqui, não são nada. São razões cuja razão ninguém entende, mas mesmo assim segui-las é “absolutamente necessário” — por motivos que ninguém sabe explicar. Se admitíssemos que isso tudo não passa de uma inércia cega e irracional, tudo bem. Porém, quando tentamos justificar racionalmente a preservação desses defuntos teóricos, temos novamente a metafísica tentando enxertar razão no que não tem razão alguma. São coisas desse gênero que o niilismo destrói, e não vemos como isso poderia ser algo ruim.
Apesar de estabelecer referenciais aparentemente seguros que nos livram do relativismo e da incerteza, a moral metafísica apenas utiliza um artifício circular para calar o assunto e permitir que sigamos com nossas vidas como se a questão estivesse resolvida. Essa moral metafísica, em grande parte, se ocupa da solução de problemas imaginários, como o sexo dos anjos ou o umbigo de Adão. Porém, quando ela se ocupa da solução de problemas reais, o resultado pode ser, e muitas vezes é, prejudicial, pois ela tranca nossa compreensão da realidade dentro de dogmas e joga a chave fora. Tudo permanece explicado por uma razão intocável e incompreensível, que temos de obedecer sem hesitar. A mesma sensatez que, noutros assuntos, é normal, passa a ser um crime quando direcionada a essas questões. É assim que um assunto torna-se “profundo”, e tão mais profundo quanto mais palpável for sua incoerência.
O que poderia ser mais ridículo que subordinar toda a nossa compreensão da realidade à crença em valores e conceitos absolutos que todos respeitam, mas ninguém sabe explicar, e que habitam uma realidade na qual não estamos? E o que poderia ser mais inconsequente que considerar tal postura submissa como algo razoável? Simplesmente tiramos da cartola, num passe de mágica, uma explicação fantástica para algo que muitas vezes sequer existe. Depois tentamos justificar esse salto de fé chamando-o de “mistério”, de “sentido íntimo das coisas”, de “ordem moral do mundo”, e coisas do gênero. Guiamo-nos em função disso como se fosse uma realidade última, coisa que, no fim, equivale a andar a esmo, desprezando o próprio chão.
Permitir que a metafísica se infiltre na moral pode parecer uma infantilidade inofensiva, deixando-a proclamar seus imperativos morais irrelevantes com uma solenidade palerma, mas é perceptível o quanto ela atrapalha uma compreensão clara dos valores que efetivamente nos guiam enquanto seres humanos. Essa atmosfera metafísica faz com que passemos a ver tudo sob uma ótica constantemente falsa, e como somos proibidos de questionar essa ótica, perdemos cada vez mais o contato com a realidade. Em pouco tempo, perdemos a capacidade de emitir juízos morais em primeira pessoa, pois demos à metafísica o papel de sonhá-los por nós, recebendo em troca uma moralidade que se perdeu dos fatos. É certo que o niilismo é uma presença fria e incômoda, mas nunca chegamos a nada tentando superá-lo com baboseiras metafísicas — se isso não resultar num dogma transcendental delirante, será no melhor dos casos uma tábua de mandamentos que nos obrigam a ser ainda mais incoerentes.
A metafísica não se justifica sequer como uma medida preventiva contra as implicações supostamente “perniciosas” do niilismo, pois o nada não pode ser posto em prática. O niilismo destrói só ilusões, e isso apenas intelectualmente. Não há quaisquer implicações práticas diretas. Para esclarecer esse ponto, pensemos da seguinte forma: alguém já ouviu a respeito de algum holocausto cometido em nome da incerteza? De mártires que deram suas vidas pela descrença? Ora, ninguém mata em nome da dúvida, ninguém se sacrifica pela realidade. Todas as guerras que travamos repousam em alguma certeza, e todas as certezas são crenças metafísicas para justificar nossos absurdos. Apenas convicções são perigosas. Por isso mesmo, o niilismo não representa perigo algum. Aqueles que dizem o contrário são os que estão tentando proteger suas ilusões dos fatos mais elementares. Tais indivíduos nunca receariam o niilismo se suas crenças fossem fatos justificáveis — afinal, ninguém tenta proteger a gravidade do niilismo, receando a desintegração do universo; ninguém invoca imperativos universais para defender que é errado fazer transfusões de sangue entre tipos incompatíveis; ninguém precisa ter fé para afirmar que é errado gritar em bibliotecas. Nenhuma moral saudável precisa ser defendida pela anemia metafísica.
Muitos também alegam que o niilismo busca destruir a “ordem social”, mas isso é outro equívoco. O que o niilismo busca destruir são nossas mentiras. Porém, se nossa ordem social repousa em mentiras, é claro que ela será refutada pelo niilismo, mas isso é apenas uma consequência indireta de sermos honestos. Mesmo assim, o objetivo nunca foi explicitamente esse. Tudo o que fizemos foi refutar — e não alvejar — aquilo que não se sustenta. No mais, como o niilismo não tem a pretensão de apontar qualquer caminho, ele também nunca poderá servir como pretexto para a militância social, pois niilistas não têm qualquer certeza, ideal ou verdade a defender. Sendo o niilismo uma postura negativa, ao adotarmos uma postura positiva, abraçando uma causa qualquer, deixamos de ser niilistas e nos tornamos defensores dessa causa.
O caráter inofensivo da postura niilista ficará ainda mais claro se tivermos o cuidado de observar que um niilista prático não seria uma pessoa ensandecida, envolvida na promoção de algum apocalipse social, mas uma pessoa em coma, em estado vegetativo. A ideia de tentarmos “viver” o vazio da existência se assemelha a um distúrbio mental, pois esse vazio só pode ser pensado. O niilismo, no máximo, pode fazer com que nos sintamos angustiados pela morte de nossas ilusões, mas não significa nada, exceto que não gostamos de estar errados.
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As observações feitas até aqui serviram para termos uma ideia mais clara do que exatamente estamos falando quando afirmamos que algo é “nada”, pois, de início, parece contraditória a ideia de que o nada possa efetivamente existir e, conscientemente, negar a sua própria existência. Quando falamos de coisas como “nada”, “vazio”, na verdade não é no mesmo sentido de “aquilo que não existe”, de “não-ser”. Tampouco isso tem a ver com pessimismo, ou seja, com distorcer a realidade negativamente somente porque não gostamos dela. Os termos “nada” e “vazio” são usados somente para designar aquilo que desaparece quando o ser é despido daquilo que não lhe é objetivamente próprio. As confusões iniciais desaparecem quando entendemos em que acepção esses termos são empregados.
Logo, dizer que a existência é “vazia em si mesma” não significa que nada nela exista, que seja o mais puro vácuo, mas apenas que, removendo-se desta todas as qualidades que somente dizem respeito ao nosso mundo subjetivo, não sobramos nem nós próprios. Tudo o que sobra é aquela situação na qual tudo é indistinto, e assim perde o sentido alegar que este ou aquele bocado de matéria é “especial” porque constitui um homem cheio de vida, pois, nessa ótica, a matéria constituir um homem vivo, um morto ou a terra que já teve a forma de homem e que agora alimenta flores no jardim é completamente irrelevante para nossos propósitos.
Então, quando falamos de niilismo, isso nos remete a essa realidade uniformemente estéril, ao contraste da existência objetiva em relação à existência subjetiva. Naturalmente, deve estar claro por que motivo o niilismo só pode ser teórico, nunca prático. O mais próximo que podemos chegar da compreensão do niilismo existencial é a apreensão desse vazio enquanto condição de existência; ou seja, compreender que o mesmo ser que constitui tudo o que somos e tudo o que pensamos é o mesmo que constitui as pedras, as estrelas, os cigarros, as paredes etc., e que o fato de estarmos pensando nisso, de isso talvez nos angustiar, não muda coisa alguma, pois essa angústia está acontecendo em nossos cérebros com a mesma necessidade com que elétrons acendem uma lâmpada.
Sempre que ultrapassamos o círculo em que fica circunscrita a subjetividade humana, caímos nesse vazio da realidade objetiva, no qual não conseguimos sequer nos reconhecer. Pois conceber o homem objetivamente é, em essência, imaginá-lo como uma porção de matéria delimitada por linhas pontilhadas. Aqui não há cores, não há sons, não há sensações, não há pensamento, não há vida, não há nada: temos só mais um fenômeno indistinto no emaranhado da falta de sentido da existência.
Podemos tentar conceber uma imagem da existência a partir de uma perspectiva fora da própria vida, mas em geral não chegamos a algo muito além de uma versão do mundo em que tudo é composto por nuvens semitransparentes de átomos de diferentes densidades. Uma perspectiva mais fidedigna talvez seja aquela que tínhamos quando ainda não havíamos nascido, apesar de ser difícil conceber esse tipo de coisa. Talvez apenas imaginar o universo sem que nele houvesse surgido qualquer forma de vida seja o modo mais fácil de conceber a ótica do niilismo inicialmente. Depois precisaremos apenas acrescentar a vida como algo que apareceu nesse universo e que provavelmente desaparecerá em algum momento futuro sem deixar quaisquer vestígios.
Como o ser não comporta os adjetivos que adoramos dar a ele, a função do niilismo é, digamos, apenas antiaderente: evitar que nossa compreensão da realidade seja poluída por nosso antropocentrismo. Ao reduzir algo a nada, a destruição ocorre apenas na esfera subjetiva da existência, reduzindo-a a uma “realidade virtual” dentro do mundo material. A partir dessa ótica, passamos a entender nossas consciências como se fossem “filmes passando dentro de nossos cérebros”, não como a existência em si mesma. Fica claro que tal compreensão não muda nada na prática, apenas nos ajuda a discernir os fatos com maior clareza.
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Como não podemos mudar o comportamento básico da realidade em que estamos, nossa única opção é compreendê-la — e, sendo esse o caso, refugiar-se do niilismo nada mais é que entrincheirar-se em convicções risíveis. Se nos perguntarmos honestamente por que o niilismo nos incomoda tanto, veremos que os motivos nunca são mais que mesquinharias pessoais e preconceitos aprendidos na infância. Já é grande coisa que possamos entender como o mundo funciona: negá-lo porque seu funcionamento não corresponde às nossas expectativas pessoais é simplesmente condenar-se à ignorância.
Assim, depois de desmantelar nossos numerosos pretextos para a “dúvida”, geralmente percebemos que temos uma ideia bastante boa de como as coisas são, e que de fato não há mais nenhum mistério grandioso na existência — já respondemos a grande questão. Sabemos o que é a vida, e como ela funciona. Sabemos o que é nosso planeta, e como ele se formou. Sabemos o que é o sol, e por que ele nasce. Hoje sabemos tudo o que os filósofos sempre quiseram saber, ou quase tudo. O mundo em si mesmo é algo físico e impessoal. Em termos humanos, a realidade é o mais completo vazio, e é ótimo que saibamos disso.
Como é de se supor, o niilismo existencial adota esse “vazio” como ponto de partida e, como não há nada a se fazer quanto a isso, também como ponto de chegada. É o tipo de coisa da qual sabemos que não há como escapar, embora também não consigamos conviver muito bem com a consciência disso. Seja como for, temos ao menos de aprender a lidar com os fatos, agradáveis ou não, pois a outra opção é delirar. O niilismo, obviamente, não tem grande importância prática. Porém, enquanto insistirmos em pensar que há algo muito espetacular a ser encontrado “por detrás” do mundo, o niilismo continuará sendo necessário para nos mostrar que isso é apenas uma fantasia.
Mesmo sendo o niilismo perfeitamente defensável em termos intelectuais, não faz muito sentido tentar “viver” em função disso, pois esse é um tipo de perspectiva que simplesmente nos sufoca. A consciência da nulidade da vida nos chega como uma vertigem paralisante — e a própria constituição biológica do homem não favorece esse tipo de abordagem da realidade. Como ignorância não é impedimento, mexilhões passam pela existência sem compreender filosoficamente sua condição, e seria difícil imaginar razões pelas quais essa compreensão lhes traria algum benefício. E o mesmo se aplica à maioria dos homens: sequer lhes passa pela cabeça que seus umbigos não são o centro do universo. Se querem permanecer ignorantes, tudo bem. Sabemos reconhecer que não nos diz respeito o modo como cada qual governa sua vida. Mas nós escolhemos pautá-la numa ótica esclarecida, que leva em consideração o modo como a realidade funciona.
Então se nos perguntam como niilistas vivem, o que poderíamos responder? Ora, vivem como bem entenderem, porém de olhos abertos. Niilistas enfatizam a objetividade, mas isso não significa que desprezem a subjetividade. Apenas têm a prudência de relativizá-la o suficiente para perceber que ela não é tudo o que existe. De qualquer modo, somos seres subjetivos, e só podemos viver enquanto tais. Só devemos ter em mente que nossos pés pisam numa realidade objetiva, sendo ela o que realmente determina nossas vidas. Nessa ótica, se a vida é um sonho, o niilismo seria apenas a tentativa de torná-lo um sonho lúcido.
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Pelo que foi dito, apesar de não haver esperança quanto à possibilidade de vislumbrarmos uma esfera prática e construtiva no niilismo — além de sua utilidade teórica como chave de fenda da realidade —, isso não nos conduz à conclusão de que ser um niilista paralise a vida prática, já que ambas as coisas se situam em esferas completamente distintas. É bastante superficial a acusação de hipocrisia comumente lançada contra o niilista, na qual se supõe que a verdadeira honra consistiria em estourar os miolos em nome da coerência — e a própria verdade dessa afirmação pode ser encontrada no fato de que o tiro não produziria honra, mas apenas uma lambança que algum infeliz teria de limpar. Não se pode colocar como objeção teórica o fato prático de que niilistas continuam vivos apesar de considerarem que a vida, como todo o resto, equivale a nada, pois o suicídio não é um argumento, assim como o sangue não é honra. Diante de uma objeção dessa natureza, só podemos supor que indivíduos desse gênero, por algum motivo tortuoso, pensam em si mesmos como uma “empresa”, um “investimento” do ser: como se os átomos que compõem seus corpos fossem ações cujo valor oscila na bolsa de valores da existência em função do quanto acreditam valer. Ao que tudo indica, recusar essa ideia é apenas indício de bom senso. Crenças não mudam os fatos.
Em si mesmo, o niilismo não vale nada. Seu único valor possível é relativo, e consiste no fato de que essa ótica nos permite identificar ilusões previsivelmente desastrosas. A utilidade dessa lucidez pode ser ilustrada pela diferença entre um homem bêbado e um homem sóbrio. Nesse sentido, sua natureza é semelhante à do ateísmo, que também possui um caráter negativo frente a uma ilusão claramente prejudicial à nossa compreensão da realidade. A descrença ateísta explícita poderia, nesse sentido, ser entendida como um caso particular do niilismo.
Assim, não há por que nos “orgulharmos” de ser niilistas, senão por isso ser indício de sensatez. Um niilista esclarecido, com a garantia de estar pisando no chão sólido do fundo do poço, tem consciência de que seus valores, objetivos e ele próprio são coisas que não existem efetivamente, mas apenas de modo condicional, e não encontra problema algum em suspender qualquer esforço no sentido de situar-se na “essência” do mundo objetivo. Mesmo porque, ao tentarmos fazer isso, não estaríamos fazendo mais que criar um mundo imaginário no qual os átomos sorriem ao nos ver — ou coisa pior.
APÊNDICE
Há outro modo de entrarmos em contato com o niilismo, apesar de não ser o mais agradável. Trata-se não de tentarmos entender o vazio da existência racionalmente, através da reflexão, mas de sentirmos esse vazio afetivamente. O próprio fato de haver um ponto de contato tão inesperado entre uma visão puramente teórica e uma faceta da subjetividade humana de abrangência universal torna o assunto se não mais interessante, ao menos mais digno de consideração.
Trata-se da situação em que a visão cotidiana da vida, imersa em fantasias e fechada em si mesma, se esfacela pelo confronto com uma situação desconcertante, fazendo com que o mundo se reduza a algo pobre e vazio. Estamos falando do luto, ou seja, a reação natural de todo ser humano ante a perda de algo afetivamente importante, como um ente querido, uma relação amorosa, amigos próximos, inclusive ideais ou qualquer outra coisa com a qual se tinha um vínculo afetivo estreito.
Não nos referimos, obviamente, ao ritual de usar roupas pretas nem a minutos de silêncio, tampouco a gemidos histéricos ou a rios de lágrimas, mas ao que ocorre subjetivamente na visão de mundo do indivíduo, ao estado de espírito acarretado pela perda. Os sintomas comuns do luto são tristeza, depressão, abatimento, falta de interesse pelo mundo exterior e, o que é especialmente interessante em nosso caso, uma lucidez penetrante. Esse estado em geral pode ser descrito como a sensação de que tudo “perde o sentido” ou de que “nada tem valor”. Em nenhuma outra situação compreende-se melhor o significado do termo “em vão”.
Quando buscamos algo que, em termos práticos, corresponda ao niilismo, vemos que o luto é um forte candidato. Isso porque a impressão que se tem é que o indivíduo enlutado torna-se provisoriamente niilista por uma espécie de “emergência emocional”. Em emergências nas quais nossa integridade física está em jogo, a reação automática do corpo é disparar o comando de luta-ou-fuga. Igualmente, quando a integridade de nosso mundo psicológico está em jogo, temos o luto como uma reação de parar-e-pensar, como se o cérebro, ao “reduzir a nada” nossa subjetividade, estivesse nos preparando fisiologicamente para uma revisão fria e calculada da realidade.
Como, nesse caso, o indivíduo não está apenas devaneando sobre o vazio da existência, mas sentindo-o intimamente, a vida prática é seriamente prejudicada pela angústia e pela depressão, fazendo com que a vida pareça algo completamente sem sentido — e não é, no fim das contas, justamente esse o caso? Não é estranho que a maioria dos indivíduos precise chegar a tal extremo para apreender esse tipo de verdade? Pois todas as vezes em que tentamos encontrar “razões” que justifiquem ou deem sentido à vida, sempre chegamos à conclusão de que não há nenhuma. Como não há saída, ninguém insiste muito nesse ponto. Cedo ou tarde, reconhecemos o caráter nulo desse tipo de empreitada e, sem protestos, limitamo-nos a nos deixar guiar pela vontade, empregando a razão como um acessório que fica a seu serviço.
O problema é que, quando transposto à prática, o niilismo tem o aspecto de uma enfermidade mental, de algo que nos paralisa, sendo que até já foi caracterizado pela psiquiatria como uma forma de delírio em que o sujeito nega a existência da realidade, no todo ou em parte. A ideia de que a realidade cotidiana que nos rodeia não tem valor algum, de que ela sequer existe objetivamente, é perfeitamente lógica e justificável. Contudo, quando o niilismo contamina nosso mundo afetivo, ele nos força a admitir que nós próprios somos nada, faz com que nos sintamos esse nada — e, quando ambas as coisas coincidem, convergem em uma lógica incrivelmente sólida. A única saída parece ser o suicídio prático que resolverá um problema teórico.
Claro que a maioria das pessoas não é tão dominada pela racionalidade a ponto de cometer suicídio motivada por silogismos. Contudo, temos de admitir que sentir-se vazio é algo bastante perturbador, ainda mais quando temos o completo entendimento de que isso não é um delírio, mas um estado mental em que conseguimos apreender com clareza uma das verdades mais elementares às quais temos acesso. Apenas caso não nos contentássemos somente com apreender esse nada intelectualmente, mas também quiséssemos orquestrar toda a nossa vida prática em função dele, vivendo como múmias paralíticas, então teríamos nos tornado seres perfeitamente delirantes. Isso é fisicamente impossível, e com razão constitui um transtorno mental.
Assim, não podendo agir de acordo com tal verdade, a saída escapatória mais razoável seria admitir que compreender a realidade e viver nela são coisas regidas por regras distintas. Apesar de que, em essência, aquilo que se faz em ambos os casos não difere muito: num caso estaremos fantasiando em um mundo particular e, no outro, em um mundo público. As duas soluções surgem em legítima defesa, mas só uma delas não faz com que percamos o contato com a realidade que nos cerca, isto é, com a sociedade.
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Todos fantasiam o mundo para poder suportá-lo, inclusive niilistas. Fugimos do vazio para conseguirmos viver, mas devemos ter em mente que o abismo não deixa de existir apenas porque desviamos o olhar e a vertigem passa. De qualquer modo, intelectualmente, tal fato não nos incomoda, pois há uma grande diferença entre saber que há um abismo e estar nesse abismo, assim como é diferente apenas sabermos que leões são perigosos e estarmos cara a cara com um. Portanto, precisamos apenas procurar meios de desviar o olhar afetivo da perspectiva niilista, pois nosso olhar lógico, enquanto permanecer são, nunca será capaz de fazê-lo — já que isso equivaleria a negar a realidade. Não que isso não seja feito, mas é realmente lamentável dar com a porta na cara da verdade no único lugar no qual podemos recebê-la.
Nessa ótica, o luto poderia ser entendido como uma espécie de niilismo psicológico, no qual apreendemos o vazio da existência não diretamente, por meio da reflexão, mas indiretamente, por meio da afetividade. O estado depressivo nos proporciona uma intuição seca e direta a respeito da realidade objetiva, reduzindo o subjetivo a nada — e podemos perceber que isso equivale a um procedimento de fiscalização da realidade de nosso mundo psicológico feito involuntariamente, pelo próprio cérebro. Nessas situações convulsivas, somos forçados a encarar a realidade nua e crua, e até os indivíduos mais otimistas veem-se sequestrados pela lucidez. Enquanto o indivíduo estiver enlutado, perde a capacidade de enganar-se. Por isso nada do que dissermos será capaz de consolá-lo; por isso também os religiosos choram em velórios, coisa que a princípio não faz muito sentido. O fato é que, ao ver seu ente querido ser abraçado pelos vermes, todo religioso percebe que sua crença em espíritos e reencarnações é, no fundo, uma piada que tenta negar o óbvio. Suas crenças só voltarão a consolá-lo depois que tiver superado a perda.
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Há apenas duas situações nas quais conseguimos ser imparciais: quando nossos interesses não estão envolvidos, e quando nosso interesse é a própria verdade — ou seja, quando nossa parcialidade, por motivos pessoais, coincide com a imparcialidade. Dentro disso, a depressão, em si mesma, não tem nada de relevante. O interessante é apenas o fato de que, em fases depressivas, nós como que “damos as costas” à vida, passando a ver a realidade com desinteresse. Assim, a perspectiva da depressão, por ser desapaixonada, nos permite ser imparciais, representando uma rara oportunidade de vermos as coisas como realmente são.
Isso explica por que, durante fases depressivas, o niilismo nos parece uma visão visceralmente coerente, com a qual conseguimos nos identificar tanto em termos intelectuais quanto afetivos. Por outro lado, quando estamos numa fase normal, perseguindo nossos sonhos do dia a dia, essa mesma ótica nos parece um tanto distante de nosso modo de sentir a realidade, de nossa vivência — ainda que, intelectualmente, o niilismo continue possuindo a mesma vitalidade. Considerando que afazeres cotidianos nos tornam superficiais e que a depressão, em regra, nos torna realistas, parece bastante lógico que assim seja. Sabemos que a existência sempre foi, sempre será vazia. O fato de isso nos angustiar depende não da filosofia, mas de nossa disposição afetiva, de nossa química cerebral — em última instância, de estarmos ou não aptos a lidar com a realidade.
Tendo tais detalhes em mente, podemos compreender mais claramente por que se costuma pensar que niilistas são suicidas. Isso acontece porque nossa própria visão de mundo é tão carregada de valores afetivos que, se destruída, ainda que parcialmente, isso nos conduziria ao luto, que é dor. E praticamente nenhuma visão de mundo continuaria intacta depois de sofrer uma bela revisão que levasse em conta um critério tão fundamental quanto a distinção entre as esferas subjetiva e objetiva da realidade. Mas, logicamente, todo indivíduo que se denomina niilista já superou essa fase de reorganização mental e, portanto, não se sente mais ameaçado pelo fato de tudo ser vazio. Entretanto, se nos colocarmos na posição daquele que afirma que niilistas são suicidas, não teremos dificuldade em perceber a razão pela qual pensa desse modo. A ideia de perdermos intencionalmente algo pelo qual temos profundo afeto soa tão absurda, tão autodestrutiva, que seria semelhante à ideia de matarmos nossos próprios amigos apenas para aprendermos a lidar com a perda de entes queridos. Ou seja, um grande sacrifício na esfera afetiva que não é de modo algum compensado pelo ganho na esfera intelectual. Mais que natural, é inevitável que qualquer indivíduo se proteja de uma ideia capaz de causar um prejuízo dessa magnitude à sua vida afetiva. Diante de uma ameaça dessa natureza, sua profunda consideração pela verdade reduz-se a esta máxima: a verdade que se lasque!
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Então, para que alguém com uma visão algo florida da realidade veja seu notável jardim murchar, basta um confronto com o niilismo filosófico que, nessa perspectiva, já não pode ser considerado algo tão inofensivo. Pois é possível que, por meio do pensamento, ao compreendermos nossa condição, venhamos a entrar num estado de luto pela “morte da realidade”, por assim dizer, já que para nós a realidade é nossa compreensão da realidade, e a destruição dos alicerces de nossa cosmovisão pode ser algo bastante difícil de administrar, sendo comum que haja episódios de ansiedade e angústia nesse processo indigesto.
Em nível emocional, quando passamos a entender o mundo como um sistema físico impessoal, é como se o tivéssemos “matado”. Para exemplificar, imaginemos a seguinte situação: estávamos pesquisando em uma biblioteca e, por acaso, encontramos um documento com nosso nome. Ao lê-lo, descobrimos que todos os nossos familiares na verdade não são seres humanos: são máquinas pré-programadas para conviver conosco. Elas gostam de nós automaticamente, desde o princípio. Até mesmo seus sentimentos são cálculos de seus processadores centrais. Foi isso o que lemos no documento. Pois bem, mesmo que tal compreensão não mudasse nada na prática, sabê-lo não seria emocionalmente devastador? O sentimento de que tudo nunca passou de uma fantasia nos esmaga. Agora basta perceber que não se trata de ficção alguma: eles realmente são máquinas, e nós também. Todos são. A vida é um sonho dentro de uma máquina. Diante disso, ficamos atônitos, perplexos, e “luto” é a melhor palavra que nos ocorre para descrever esse sentimento de que algo morreu, embora não saibamos dizer muito bem o quê.
Seja a razão desse estado afetivo a perda de um ente querido ou a desestruturação de nossa visão de mundo, a dificuldade central consiste em nos adaptarmos a uma perda profundamente dolorosa, em percorrer uma fase de transição carente de referenciais, em que precisamos realizar uma mudança radical em nós próprios. Nesse estado transitório, o modo como pensamos e encaramos o mundo corresponde exatamente ao niilismo, no qual tudo perde o sentido e a vida fica, por assim dizer, “suspensa no nada”, perfeitamente consciente de si mesma e de sua condição precária. Repudia-se a realidade subjetiva por diferentes motivos, mas chega-se à mesma perspectiva: o abismo niilista, o óbvio.
Claro que encarar a realidade objetiva exige muita coragem, e a maioria dos indivíduos só se torna capaz disso em situações extremas, em que a lucidez é imprescindível. Nas demais situações, vivemos numa espécie de estado de torpor. Isso não é algo necessariamente ruim. A realidade subjetiva pode nos causar sofrimento, mas fugir dela não nos trará consolo algum. Apenas nos fará perceber a verdade com ainda mais dureza. Como não há nada por detrás de nossas ilusões, a lucidez se torna rapidamente insuportável. A consciência da indiferença da realidade nos chega como algo corrosivo, como um silêncio que escarnece todos os nossos sonhos.
Não há, portanto, para onde fugir: temos de encarar nossa condição de existência em nosso elemento, a subjetividade. Seria tolo pensar que fugir do planeta Terra e lançarmo-nos no vazio do espaço seria um grande alívio aos problemas terrenos que nos afligem. Ficaríamos apenas flutuando no nada. Esse distanciamento talvez nos permita ver as coisas com alguma imparcialidade, mas não conseguimos permanecer nessa situação por muito tempo. Asfixiados pelo tédio, oprimidos pela consciência da nulidade da vida, logo retornamos à nossa bolha subjetiva, certos de que não há nada muito interessante fora dela.
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Também seria útil entendermos por que há tanto sofrimento envolvido em tais mudanças em nossa visão de mundo. Para nossa infelicidade, nada há de especial nessa adaptação, apesar de ser comum ouvirmos o contrário. O fato de tal processo ser penoso, por vezes esmagador, é uma infelicidade natural à qual todos estamos sujeitos, tanto na esfera mental como na física. Um dano grave causado a um membro, por exemplo, além de ser extremamente doloroso, também requer um grande tempo de recuperação, pois os tecidos lesionados precisão ser literalmente reconstruídos pelo organismo, célula por célula. Do mesmo modo, uma mudança drástica em nossa visão de mundo ou nas circunstâncias em que estamos acostumados a viver acarreta uma mudança física em nossos cérebros. Muitas ligações importantes entre neurônios terão de ser feitas e outras desfeitas para que nosso sistema nervoso se adapte e seja capaz de lidar com a nova situação, e o sofrimento não é mais que um indício do quanto isso é fisiologicamente inconveniente, isto é, da quantidade de recursos necessária para que seja feita tal “atualização”.
Sendo que durante esse processo de adaptação encontramo-nos algo perdidos e desorientados, a depressão e a lucidez decorrentes podem ser vistas como medidas preventivas para que não partamos à ação antes que nosso cérebro esteja familiarizado com a nova situação, evitando assim ações inadequadas e possivelmente perigosas ao nosso bem-estar imediato. Seria como se estivéssemos, desde sempre, acostumados a dirigir apenas carros, mas, numa guinada do destino, fôssemos colocados diante de um veículo que não temos nenhuma preparação para pilotar, como um avião, por exemplo. Nessa situação, nossa reação primária não seria pisar no acelerador e esperar que tudo fosse como antes, pois sabemos que isso seria suicídio. Lúcidos, debruçamo-nos demoradamente sobre o manual de instruções, remoemos sobre todas as questões relevantes e, assim que nos sentimos preparados para tomar o controle do veículo, partimos à ação, voltando a viver normalmente. Sem dúvida, trata-se de algo que requer tempo, e nisso também há grande semelhança com os danos aos tecidos.
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Como, em longo prazo, o niilismo é incompatível com a manutenção da vida, é bastante comum ouvirmos que ele é apenas um “estado provisório”, algo a ser “superado”. E isso está correto. Porém, não devemos confundir superar o niilismo prático com refutar o niilismo teórico — flertando com aquele relativismo otimista que parece um elogio à demência. A questão é somente o que se pode fazer apesar de a existência ser oca, apesar de todo o nada, sem fugir da questão como covardes. E superar o niilismo nada mais é que pensar em nós próprios como a fonte última de valor e sentido de todas as coisas. Acostumarmo-nos a lidar com tais assuntos sem extrapolar a esfera de nossa própria subjetividade.
Na prática, temos de superar o niilismo porque a realidade não se importa conosco — ela nunca se compadecerá de nossa miséria. Quer estejamos certos ou errados, ainda será preciso mantermos nossas barrigas cheias e nossos corpos aquecidos, e isso significa que superá-lo é uma questão biológica, não um problema filosófico. Se o niilismo a princípio nos paralisa, é apenas porque, em grande parte, são ilusões nos movem, e é inevitável que fiquemos temporariamente atordoados ao nos darmos conta disso. Contudo, voltar a caminhar não equivale a superar o niilismo, e sim à aquisição da capacidade de separar melhor nosso conhecimento de nossas necessidades práticas, até que ambas as coisas voltem a funcionar normalmente, porém de forma mais independente.
Desse modo, a superação do niilismo diz respeito ao seu efeito paralisante prático que torna a vida mórbida, não à sua incoerência lógica; diz respeito ao fato de que é impossível justificar uma vida subjetiva por meio do nada objetivo. E isso, digamo-lo de uma vez, é realizado através da loucura, o único modo por meio do qual podemos viver racionalmente num mundo absurdo. Contudo, não devemos esperar nada muito extraordinário disso, já que a vida, em si mesma, é um sistema completamente maluco. Essa “loucura” não é o mesmo que direito irrestrito à estupidez, não é o mesmo que perder a razão. A loucura à qual nos referimos é algo que atravessa a vida de ponta a ponta: nossa natureza. Ou seja, trata-se de algo que conhecemos muito bem. São nossas pequenas fantasias humanas que, apesar de todo o nada, nos permitem levar a vida adiante, ainda que isso não faça sentido algum.




"É preferível viver num mundo sem sentido a acreditar num sentido falso para o mundo, que aponta para lugar nenhum."
Quando estamos buscando um sentido grandioso (e fantasioso) para vida acabamos dando pouco valor para a própria vida. O ato de viver é o sentido da vida. E depois, quando morrermos? A vida cumpriu sua finalidade.
Não me lembro de quando foi a última vez que li algo tão interessante.
Sou sua admiradora!
Quando não há capacidade reflexiva e mínima compreensão para todas as existências, então existe um fenômeno ainda mais complexo, a fé. E, na ausência de ambos... o ateísmo. Se os universos são obras do acaso, chamo Deus de acaso.
O princípio do Niilismo é Deus. Ops,mas não há princípio nele, então ele não existe, ok, e porque estou a pronunciá-lo? O Niilismo é uma tentativa de explicar nossa limitação..
Trabalho numa tese que tem como base a eliminação do princípio e do fim. A linha do tempo. O. futuro é infinito e o passado também. logo não há princípio nem fim. Nessa ótica . tudo é eterno, nada nasceu e nada morre. Assim, princípio e fim são apenas mudanças de fases. deixei de ser pedra pra ser vegetal, deixei de ser vegetal para ser humano, deixei de ser humano pra ser uma partícula de energia solar... e a este processo chamo de Deus. Logo a simples e antiga ideia do senso comum de que Deus está em tudo, é absolutamente correta. (fragmentos DEUS, O PROCESSO DO INFINITO - Lídia Radke)
Abraços,
Lídia
a negação do absoluto diz respeito, como a Francieli se referiu, a subjetividade humana, a esfera humana. Posicionamentos humanos, as formas de conceber o existente e sua posterior reinvindicação (valorativa, moral, estética etc). Quanto ao existente, conclui-se que o mesmo é incondicional, nesse sentido, absoluto, irrestrito, expressão de tudo o que é efetivamente possível.
Para ficar mais claro (espero), a esfera do niilismo, centralizado como ponto de negação da subjetividade no existente (como se essa expressa, interpreta e representa-o), conclui-se que não há um o que se conceber como absoluto dentro da esfera subjetiva (isso é, nossa percepção do existente, nossos sentimentos, nossas regras morais, nossa comunicação etc... sendo que tudo isso pode ser interpretado como produtos da subjetividade e que só se subordina a mesma, nunca ao existente em sí).
Embora o texto do André esteja bem claro, há um material interessante que trata isoladamente desse ponto do absoluto na visão de Nietzsche, porém, de início, o texto pode não parecer muito claro.
Abraços.
"A objetividade é consequência da subjetividade. A subjetividade é a energia responsável pelos processos dos princípios e finitudes da matéria. Não há universo objetivo sem a subjetividade. A matéria não existe por si mesma, mas ela é o resultado de um processo subjetivo."
O ponto seria inverso. A subjetividade que é consequência da objetividade. O existente (objetividade) é a condição base para tudo, ele é a própria existência. Em nada a objetividade depende da subjetividade. Na inexistência de humanos não há, absolutamente, nenhum motivo para pensarmos que o existente deixe de existir. O que certamente não pode existir sem humanos (ou interpretadores do existente) é a própria subjetividade.
"Logo, a existência humana por exemplo, só ocorre na subjetividade, um morto não existe, ele só existe porque teve uma energia (espírito) que o animou (vida) do contrário não haveria um morto. Assim, o que existe sem princípio e sem fim é o espírito, o corpo (matéria) é um resultado momentâneo de um processo ."
Espírito, energia, são elementos que não se possuem existência concreta, não sendo mais do que simbolismos ontológicos para nomear fenômenos que, obviamente, precisam existir. Não se mostra haver nenhum motivo racional e justificável pensar que a nossa existência não seja apenas biológica e que tudo o que nos mantem vivos são fenômenos naturais. Se não se sabe como algo em específico possa funcionar, retroceder a metafísica não é a decisão mais adequada.
"É complexo, somente o vocabulário não é suficiente para explicar .As vezes é preciso mais que uma limitada compreensão humana. A física quântica me deu algumas respostas. As novas pesquisas sobre a antimatéria também ... vamos continuar estudando, só não podemos nos fechar e nos satisfazer com teorias de cunho absoluto."
Racionalmente, desde que tenhamos claro o que queremos compreender e, principalmente, nos limitarmos ao que temos acesso, não há motivos (nem parâmetros, nem definições e nem critérios) para buscarmos enquadrar espectativas metafísicas ou sobrenaturais a respostas que uma descrição do natural não possa suprir. Se fizermos isso, já teriamos em mente algo que está sendo buscado, mas que não está lá. O Niilismo, como posição, só descartará sempre o que tiver intenções irracionais de exceder qualquer posicionamento mensurável que e evada qualquer tentativa de extrapolação. Nesse sentido, não há motivos para temer qualquer travamento racional diante de tal posição, pois isso é apenas reflexo da consciência de não extrapolarmos o que de fato podemos compreender do existente com elementos adicionais que nada tem a ver com ele, apenas com nossas crenças a seu respeito.
"Precisamos ter sempre uma porta para ir adiante e o Niilismo, com todo respeito aos seus seguidores... para mim... me fechou em quatro paredes."
Não há o que se seguir, visto que, concebivelmente, o niilismo é apenas um raciocínio, não um conjunto de princípios a serem cumpridos e mantidos. De fato, o niilismo pode ter um efeito paralisante, mas apenas porque, como o André conclue, grande parte, são visões (incluindo como fator nossa natureza) constantemente irracionais que nos movem e nos fazem pensar. Se, como conclusão, não temos como, ou meios de exceder o limite efetivo de nossa existência em se tratando de racionalização, não há problemas em nos livrarmos delas, afinal, para que elas nos serviriam? Livrar-se de princípios ou posicionamento inúteis ou inaplicáveis é excelente, no entanto, a questão seria a radicalidade do niilismo, enquanto pensamento, retirando inclusive elementos que podem ser completamente úteis a existência, mas que, mesmo assim, nada significam. No entanto, de uma perspectiva ativa e positiva, isso torna-se um aliado no que se refere apenas a varrer o lixo metafísico de uma realidade física. Inclusive, para Nietzsche, ao que li, Niilistas seriam os legítimos adoradores da metafísica, pois esses sim relacionam-se efetivamente com o nada, louvam o inexistente. Ao meu ver, o posicionamento apenas tem um efetivo lógico como um filtro, retirando o desnecessário e focando-se no que de fato existe e podemos ter acesso, positivamente. Filtrando o desnecessário, só o efetivo prevalece, só ele funciona, e só ele é que de fato é relevante, subjetivamente, a existência.
a "teoria" das cordas por exemplo me agrada muito ! mas com certeza você não deve estar referindo-se à ela.
pois justamente o que ela tem feito é demonstrar os menores constituintes da matéria,filamentos vibrantes, que compõem o universo que vemos à olho nú.
conforme a vibração e oscilação destes filamentos (cordas) se forma as diferentes formas de matéria
existentes.
vale lembrar que estes filamentos são a própia matéria em sua menor escala, e não uma espécie energia-espírito universal.
e as 10 dimensões de espaço encontradas nos cálculos quânticos não acrescentam subjetividade alguma no cosmo.
e mesno se acresenta-se, esta subjetividade só seria possível com a existência de seres materiais com capacidades biológicas ( assim como o ser humano). logo, esta subjetividade seria consequência da objetividade, e só poderia continuar à existir enquanto a objetividade (matéria) apresentar as devidas condições biológicas para isto. caso contr´rio a subjetividade não existiria.
não pode !
o significado--sentido não existe,
o que existe são fatos: o "nada" não significa "nada", pois não possui nenhum sentido ! possui apenas o "fato" de ser "nada".
Mas procure "sentir" menos e "refletir" mais, quem sabe assim você percebe que essas supostas falhas da teoria são apenas ilusão de seus sentimentos.
Bom, eu tambem gostaria que você fosse mais claro em relação à estas falhas, se puder, é claro !
Metafísica, aliás, significa estudar a existência-pela-existência e não pela sua forma ou manifestação. Ou seja, a metafísica significa a busca pela verdade eterna e não a sua ilustração. Exemplo: não se pode compreender o que é um carro observando o seu movimento pela rua, calculando a velocidade, a distância e período ocorrido, quem dirigia, como fazia, etc; Isto é um carro? Não. E o carro se presta a um outro fundamento: o transporte. O movimento do humano pelo mundo, portanto, a sua transcendência.
Fazendo o movimento contrário, é o mesmo que dizer: o que fez o homem sair da caverna? A sobrevivência, a caça, o instinto (a transcendência). Mas o que fez exatamente o homem sair da caverna e movimentar-se orientadamente pelo globo até culminar num tipo de civilização? Novamente a transcendência, mas agora entre os sujeitos ocupantes de um tempo-espaço.
O texto é lindo. O artigo é maravilhoso, parabéns! Alguém ainda pensa neste mundo. Mas o erro da tese ocorre em crer que da razão se chega a razão. Da razão só se chega a desrazão, o que é filosoficamente autoapoiado uma vez que a razão é a certeza e a certeza é uma negação filosófica, pois a filosofia é a essência da dúvida, conseguinte da dialética e da racionalização, culminando na desracionalização. Isto é apenas um movimento de consciência.
Portanto, o niilismo é uma forma opacizada da realidade. É o ponto crítico da desrazão em que o sujeito vê o mundo de forma míope, sob os olhares de uma visão já viciada da objetividade real como uma pseudo-concretude há muito vazia de significados e valores reais, portanto, irracional. É a total equivocação em relação às crenças a respeito da realidade e nada se pode fazer quanto a isto dentro de um contexto racional, exceto aceitá-la, ou iludir-se, pois toda razão aqui é miope. O niilismo, contudo, é totalmente verdadeiro e honesto, embora perturbador, pois é o encontro do indivíduo com a mentira e não com a verdade, ao mesmo tempo em que não se pode dizer que a mentira é uma verdade. A verdade no contexto niilista é aquilo que não foi ainda descoberto, ou está ainda por ser, portanto o que de fato existe, enquanto que a desrazão da razão é a materialização da mentira e esta, ao mesmo tempo, a desmaterialização da certeza. O niilismo, portanto, é o desmascaramento da mentira, mas não o encontro com a verdade.
No niilismo, tudo se torna nada. Nada se torna tudo e tudo o que é, é simplesmente nada. O niilismo contemporâneo é a disrupção com a modernidade, porquanto que não se sabe exatamente o que é. O niilismo pode ser assim considerado a fonte de caos e desespero, mas também da transformação e busca pela verdade deste tempo.
Uma reflexão sobre o pensamento: cada vez mais os neurocientistas concluem que o cérebro é "plástico", respondendo principalmente aos estímulos externos do mundo. O cérebro é o "centro da razão", principalmente pela grande departamentalização do conhecimento apreendido, porém, já não é mais possível e suficiemente explicar o pensamento como essência metarracional do humano apenas através da racionalidade cerebral. Não existe "metafísica" do neurônio, mas apenas do pensamento, coisa que só acontece com os humanos. Alguns tipos de macacos, por exemplo, assim como os humanos, têm sistemas complexos de comunicação linguística cerebral mas não verbalizam, o que é empírico: macacos não falam (pelo menos por enquanto).
O mesmo acontece com o DNA. Já não se pode crer em muitas coisas do DNA, pois a maior parte da carga genética não tem representação formal no mundo. Piorou, se for relacionar traços entre tipos e perfis de pessoas: amorosas, violentas, psicopatas, etc; Não existe aqui relação, embora existam genes que determinam estes sinais. Existem inúmeras teorias, mas é muito paradoxal.
No fim caímos na mesma teoria: o niilismo. A materialização da dúvida. O alimento da filosofia!
Portanto, não somos máquinas, nem cérebros. Não somos nada. E é desse nada que Fernando Pessoa começa o seu poema pós-moderno, Tabacaria:
"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo."
Portanto, para o autor, é do nada que nasce a transcendência, o que é empírico. Novamente, belo trabalho! (Estou verdadeiramente impressionado).
Logo, o niilismo foi inventado por Sócrates: "Só sei que nada sei".
Afinal, nada se cria, tudo se copia. Nada é nada.
- Qual é a prova que possuis de que existe um sapo aí dentro? - perguntou o homem, apontando o dedo para uma caixa preta, lacrada.
- Pois aproxime sua orelha e ouça. - e, sacudindo a caixa, puderam ouvir um coaxo bem alto, típico grito dos sapos.
Vc efetivamente não tem uma prova de que é um sapo.
Claro, um conjunto de evidências suficientes que se enquadrem naquilo que é conhecido como sapo pode levar a conclusão de que há um sapo na caixa. Mas efetivamente o som não é uma "prova".
Quero mostrar com isso, que sempre, sempre haverá um desconhecido. Um desconhecidamente certo. Um crer para ver.
A ver pelo exemplo grego do rio. Observando o rio objetivamente é um fluxo de água que caminha por um determinado e certo destino da camada geológica mais superficial da terra. O que é óbvio, pois o rio não pode ir contra a gravidade.
No entanto, com uma atenção mais cuidadosa, é possível perceber que não é possível molhar-se duas vezes no mesmo rio, uma vez que a água flui, portanto, a cada segundo é um rio diferente, e que a natureza desse rio está no fluxo constante da água pela atmosfera e nos processos geológicos da terra.
A aerodinâmica existe por si mesmo, muito antes do homem começar a voar, ao passo que não é possível duvidar da ação aerodinâmica das coisas, pois olhe pela janela: pássaros e aviões voam.
Mas a aerodinâmica, para além da engenharia, da matemática, e todas as ciências disciplinares, é um movimento e uma forma de inércia, o que é um fundamento físico-químico e quântico, existente desde que a terra se formou e formaram-se também a gravidade, os campos eletromagnéticos e gravitacionais e a atmosfera, e nisto foram nada menos que quatro bilhões de anos.
E veja que até mesmo sua divisão do conhecimento baseada na criação arbitrária de entes, como vc supõe que a aerodinâmica seja, possui falhas. A aerodinâmica depende da física, não existe sem a mesma, depende da mecânica de fluídos (no caso do comportamento de fluxo de gases, da natureza do gás e de uma outra grande gama de variáveis). Ela é essencialmente uma divisão produzida por nosso conhecimento e pelas evidências envolvidas.
Nota de correção a sua alegação de que a mesma seria um fundamento quântico : como as análises de aerodinâmica são macroscópicas, o condicionamento de massas de gases obedece o comportamento estocástico dessas partículas e vai ser estudo pelo comportamento do gás e não pelas características quânticas das subpartículas que formam tais gases (até mesmo as partículas do gás não se comportam no frenesi quântico, formam um fenômeno discreto). Recomendo que não tente enfeitar o discurso com sustentação falsa mas eloquente. Isso prejudica seu argumento.
Outra coisa, não posso dizer o que há na caixa, mas posso dizer que certamente há alguma coisa lá. Dizer que não há nada é o mesmo que negar a existência. Foi esse desconhecido que sempre impulsinou a filosofia a existir: a dúvida, e negar isto é também negar a própria filosofia. O que, aliás, tem sido feito sistematicamente por esta secularidade que vivemos.
É só um outro ponto de vista de ver a mesma coisa. Você pode negar que há algo na caixa, assim como você pode negar a aerodinâmica (e o que veio antes dela). Ou você pode restringir a aerodinâmica apenas ao período do conhecimento racional humano, o que também nega a sua existência.
Entenda, a aerodinâmica não é um ente - é uma divisão de conhecimento de nossa espécie - ela não está dissociada do resto da física, Thiago. Corpos obedeciam a dinâmica de fluídos gasosos antes dos humanos começarem a compreender a tal parte da física. E mesmo hoje, nós ainda implementamos tal conhecimento. Ele não é um ente separado do universo.
Da mesma forma, elucubrações sobre o que há na caixa precisam das evidências que podemos obter para que possamos responder o que há efetivamente lá dentro. Se não temos evidências, nada podemos dizer. Esse é o problema das alegações metafísicas - a ausência total de evidências para as alegações.
Não é o desconhecido que impulsiona - é o poder ter evidências daquilo que é desconhecido. A diferença é sutil mas é tremendamente significativa.
Ao final da vida Kant negou boa parte de seus estudos, bem como negou ter "inventado" a antropologia. Infelizmente as pessoas fazem da dialética dele um mundo de mentiras, que tem hoje culminado neste maravilhoso niilismo. Vale também lembrar que Heidegger chamou Kant de "metarracional", ou filosófo da razão metafísica.
(Desculpem os três posts... pois é difícil sistematizar isto. Mas espero ter sido claro no meu humilde ponto de vista... sem grandiloquência).
"Não é o desconhecido que impulsiona - é o poder ter evidências daquilo que é desconhecido."
Mas este deconhecido não pode ser descoberto sem uma desmedida. E a desmedida, nesse caso, é a dúvida. Sempre haverá a dúvida, mesmo que nós possamos negá-la.
Outra coisa, eu não enxergo nada separado do universo, apenas quis ilustrar. Para mim é a mesma coisa. Só não enxergo o niilismo como um fundamento racional e sim metarracional.
E vejo aqui um grande problema, relendo tudo que foi escrito: é impressionante como, da forma, com tal violência que estamos apregoados a esta secularidade utilitarista. Já há muito perdemos a perspectiva. Ricos mais ricos, pobres mais pobres, ignorantes mais ignorantes, alienados mais alienados.
E isto com certeza não era o sonho (perspectiva) Kantiano...
Sei que Davidson não gosta de exemplos, mas darei outro. Não podemos "tocar" no sol, mas podemos saber muitas informações do astro através de observações e análises de suas manifestações. Isso procede? (os físicos aí me corrijam!)
HFC - quanto ao fato de som se encaixar ou não em uma possível definição de "prova", respondo que não é esse o cerne da questão por mim colocada. Vou te põr a par, quem sabe tu consegues responder. A questão é:
- o texto coloca que além do físico nada existe;
- então eu questionei como o niilismo define o pensamento;
- fui respondido que o pensamento "se reduz a impulsos químicos e elétricos do seu cérebro. Assim como o software de plataforma web que possibilitou você de postar esse texto";
- questionei então como se explicaria então a transmissão de pensamento ou telepatia;
- fui respondido por "Telepatia? Isso não existe."
Então questionei: "Nesse sentido, você concorda que só podemos afirmar algo se temos prova sobre o que afirmamos?"
Foi aí que paramos nessa questão do que seja "prova" que, a meu ver, foge do assunto....
Só por uma lógica racional, mas o caminho de toda razão é a irracionalidade.
Não se pode afirmar que algo "não existe" simplesmente porque não se conhece. Veja as teorias do emaranhamento quântico. A física quântica está a um passo de provar a telepatia e a telecinese de forma inclusive simétrica.
Outra coisa, existem coisas objetivas que podem simplesmente não existir. Um bom exemplo é o tempo. A física quântica através da mecânica quântica cada vez mais considera a inexistência do tempo para o universo. O tempo, portanto, só existe do nosso ponto de vista. O que é sustentado, pois o tempo é o deslocamento de um corpo, ou o desdobramento do espaço, portanto, não existe tempo sem objeto.
Digo aqui apenas para reiterar: Nada é nada.
Nada não é verdade, nem mentira, nem prova, nem razão, nem nada. Não é nada.
Não afirmei com propriedade, apenas não há nada que validade sua existência.
"Não se pode afirmar que algo "não existe" simplesmente porque não se conhece."
Concordo, mas não estou baseando minha descrença unicamente com base no eu mesmo sei, mas de estudos que a invalidam.
"Veja as teorias do emaranhamento quântico. A física quântica está a um passo de provar a telepatia e a telecinese de forma inclusive simétrica."
Isso é charlatanismo quântico.
"Outra coisa, existem coisas objetivas que podem simplesmente não existir. Um bom exemplo é o tempo."
Tempo é uma ferramenta de demarcação de períodos, grosso modo, não uma condição.
"O tempo, portanto, só existe do nosso ponto de vista."
Se o tempo só existe, em sua próprias palavras, do nosso ponto de vista, como pode ser objetivo?
"O que é sustentado, pois o tempo é o deslocamento de um corpo, ou o desdobramento do espaço, portanto, não existe tempo sem objeto."
Podemos dizer que não existe tempo sem deslocamento, ou com alternância de estados de um referêncial. Consequentemente, a caracterização do tempo não é outra se não, justamente, a de uma ferramenta, não de uma condição.
Nada disso eu disse diretamente para você, mas só estou questionando o objeto que se usa este termo "prova". Prova de prova não prova nada.
Ai vem outra questão que deve ser perguntada: qual é a prova da sua prova? Quando se diz "isto não existe". Baseaddo em que se diz que não existe? Onisciência? Como se pode dizer que é "charlatanismo quântico", ai daqui a pouco vem o cientificismo e diz assim: "Está provado". Dois mais dois é quatro e quatro mais quatro é oito. Pronto! No outro dia todos estarão falando na rua o mesmo assunto. Na outra semana todos estão comprando os produtos e gastando seus dinheiro com a tal "telepatia quântica". No outro mês especuladores de Wall Street enchem o mercado de "derivativos". No outro ano: bum. Bolha. A tal "telepatia" nunca existiu.
Não estou defendendo nada.
Só quero dizer: duvide de tudo.
Volto a repetir: é impressionante como, da forma, com tal violência que estamos apregoados a esta secularidade utilitarista. Já há muito perdemos a perspectiva. Ricos mais ricos, pobres mais pobres, ignorantes mais ignorantes, alienados mais alienados.
Tudo começou com o Iluminismo. Nada não é julgamento nenhum, nem juízo de nada. Se tirássemos essa tal de "razão" da cabeça, já seria o começo do nada.
Quem vê um relógio apenas se depara com um artefato humano apontando para algum tipo de padrão numérico divido em escalas. Um relógio não é o tempo, assim como nossos pés não são sapatos.
"Fábricas, expediente, hora, serviço, trabalho, chicote, encarregado, escravidão. O tempo é objetivo sim."
O que apenas demonstra que o tempo é uma ferramenta humana e significativamente necessária. Anterior a isso, o tempo é uma percepção psicológica, não a constatação de uma entidade.
"Ai vem outra questão que deve ser perguntada: qual é a prova da sua prova? Quando se diz "isto não existe"."
Podemos entender "prova" como uma confirmação de averiguação restritiva sobre um algo ou condição. A não existência, dentro do que se alega sobre telepatia, é algo pode ser constatado pela sua falibilidade e falta de comprovações positivas a seu respeito. Quer alegar que a telepatia existe, simples, demonstre!
Eu quis falar da objetividade apenas porque isso depende do ponto de vista de quem vê, assim como tempo. Não existe tempo sem objeto. É claro que eu não acredito nisto. Não acredito em nada. Só estou querendo demonstrar isso.
"Prova" de quê? Com "comprovações positivas a seu respeito". Isto depende do interesse de quem quer provar. Não existe "prova irrefutável", pois o que é irrefutável não precisa de prova. Sempre há uma verdade por trás de tudo, inclusive do niilismo.
A razão é do tamanho do egoismo de quem quer vender a ideia.
É isso que eu quero falar, nada mais.
Duvide de tudo, inclusive dessas tais provas. Este mundo é uma mentira. Vocês querem entender o niilismo a partir de tais "crenças" na razão, das "provas" e no cientificismo tecnicista e isto, como falei, é uma questão de temporalidade pois é impressionante como, da forma, com tal violência que estamos apregoados a esta secularidade utilitarista.
Volto à minha referência socrática: "Só sei que nada sei". A maior filosofia do mundo.
O que é Licitação? Ora, isto é um modelo de compra de produtos, de bens e de serviços por parte da administração pública. É a lei. O Estado Democrático. LIMPE: Legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência. É tornar lícito. Etc. Etc. Etc.
Todo o discurso das tais "comprovações positivas a seu respeito".
Mas veja como funciona no dia-a-dia, partindo da presmissa que "Tornar lícito" aquilo que é legitimamente "ilícito", pois se fosse "lícito" não precisa de "licitação", já seria lícito por si mesmo.
Na verdade, alguém ganha muito com isso: enganar o povo, partindo das tais premissas "comprobatórias". Todas foram racionalmente vendidas e racionalmente compradas. Alguém enriquece muito com isso.
Tirar a tal "razão" da cabeça é o começo para entender o niilismo.
Não foi bem o que você disse acima.
"Prova" de quê? Com "comprovações positivas a seu respeito". Isto depende do interesse de quem quer provar."
Interesses não são, unicamente, os fatores atuantes em qualquer tipo de estudo. Em primeiro lugar, para qualquer tipo de esclarecimento que estejamos a fazer, é necessário termos evidências que sustentem e justiquem uma determinada asserção, falando, é claro, de elementos exteriores, e não justificativas aximáticas como a matemática, que nada mais é do que uma ferramenta e não necessita de explicações de sua própria existência. No máximo, de seus alcances e limitações.
"Sempre há uma verdade por trás de tudo, inclusive do niilismo."
Sinceramente? Eu acho que você está distorcendo o niilismo.
"Volto à minha referência socrática: "Só sei que nada sei". A maior filosofia do mundo."
Sua referência Socrática está a séculos de distância de Nietzsche e de movimentos Russos que, de início, emergiram como sendo identificados como niilistas.
"Tirar a tal "razão" da cabeça é o começo para entender o niilismo."
A razão não é um raciocínio. Quer anular a razão pela razão? Não irá conseguir. O máximo que podemos fazer é apenas entender o que é a razão e sua função como capacidade e sua falta de justificativas em sí mesmo. Em outras palavras, não há razão para usarmos a razão. Mas isso em nada, logicamente, a invalida. Um raciocínio continuará a ser um raciocínio. Não razão não distingue o que é efetivo do que é fictício.
Sua referência Socrática está a [b]séculos[b/] de distância de Nietzsche e de movimentos Russos que, de início, emergiram como sendo identificados como niilistas.
Sua referência Socrática está a mais de um [b]milênio[b/] de distância de Nietzsche e de movimentos Russos que, de início, emergiram como sendo identificados como niilistas.
O princípio é o mesmo. A filosofia é uma só: a filosofia humana.
Eu faço outra questão: Como algumas pessoas podem levar trabalhos tão a sério como Descartes e Kant, sendo que ambos negaram suas próprias teses?
Formas, formalidades, formalismos, meios, meios-de-meios... a menoridade do homem. Não se consegue pensar por si mesmo e tem sempre de haver um subterfúgio. Uma justificativa para o injustificável.
Outra correção do que eu falei: lá em cima eu disse que kant havia escrito a "Crítica da Razão Dialética", na verdade é "Crítica da Razão Prática". Os trabalhos de kant anteviram todos, pois é considerado o último filosofo moderno. Desculpem pelo erro. Compreender a filosofia que se estuda hoje nas escolas, separada em períodos racionalistas, é compreender o trabalho Kantiano inspirado no Cartesiano.
Você diz:
- "A razão não é um raciocínio. Quer anular a razão pela razão? Não irá conseguir."
A razão é uma negação filosófica por si mesmo. Ela mesma se anula. Você mesmo está se apregoando a esta secularidade e está partindo de um princípio de verdade que só existe para si mesmo. Para auto-satisfazê-lo. Se eu não posso anular a razão então o niilismo não existe. A razão como a "verdade máxima" do universo. Será? Os teóricos Kantistas são praticamente unânimes: trocou-se um absoluto (erudito-religioso) por outro, o científico (racional). Nenhum dos dois é questionável. Por que será?
Não sei se você tem conhecimento disto, mas eu indico que veja o filme "Pequena Jerusalém", onde isto fica muito bem claro. Também tem o livro "Eclipse da Razão" de Max Hokheimer, onde a conclusão é a mesma.
Não posso me beneficiar do direito de duvidar? Do benefício da dúvida? Toda razão é uma negação filosófica e isso eu já escrevi lá em cima, está provado e comprovado. Estão matando a filosofia, já esquartejaram a pobre coitada, cortaram seu rabo, castraram sua projeção, abaixaram sua orelha e agora também querem calar a tua boca.
Mas eu ainda ouço "a voz de Deus num poço tapado". A voz de Deus aqui não como entidade, mas como sinônimo de verdade, pois sou ateísta.
Por fim, toda razão, como o próprio nome já diz, é a medida de alguma coisa. Só isso. Sem tirar nem pôr. Sejamos honestos. Vamos colocar essa maldita razão no lugar dela, só isso. Desde o início do movimento secular esta razão tem sido colocada num pedestal. E onde chegamos? A razão é hoje inquestionável? Então temos uma nova religião: a religião secular, cuja bíblia é o capitalismo e os santos são as bolsas de valores.
Se vamos falar de ateismo e niilismo, então vamos falar de ausência. Nada é nada, nem mesmo razão. Não estou distorcendo o Niilismo, mas estou defendendo que ele seja apenas o que é.
Eu disse lá em cima: - "Não existe tempo sem objeto."
Não existe nenhuma objetividade sem objeto. E este objeto depende do ponto de vista de quem vê, nesse caso eu dei o exemplo do capitalismo. O capitalismo é bem objetivo, pois tem um objeto. Não se pode negar o capitalismo, pois é um sistema econonômico-produtivo bem conhecido. Inventado? Não importa. É racionalmente apoiado.
Honestamente, por que diabos simplesmente não se consegue pensar em outra coisa que não seja essa maldita razão? Parece-se, como disse anteriormente, "cachorros correndo atrás do próprio rabo", ou seja, para a própria dimensão de si, para a própria medida.
Então o homem em sí diz ser uma criatura racional que tem valores morais e éticos, que da qual nada valem.
"Moral sem esperança, sem projeção, não é moral."
A moralidade e seus alicerces emocionais apenas promovem comportamentos úteis mutuamente. O erro é apenas atribuir sua existência a uma realidade que ultrapasse a esfera humana, isso é, divinizá-la. A moralidade, dependendo de emoções, de convenções, sempre será falha e relativamente ineficaz como convivência, visto que somos seres que frequentemente possuímos condutas que nem sempre estão de acordo com nosso meio. Mas a moral não precisa de elogios, precisa de atitudes, de volições, unicamente para sua própria sobrevivência dentro de um sistema.
Existe na língua portuguesa um problema sério de construção epistemológica da sistematização do conhecimento e da manifestação arquetípica. Mas vou tentar explicar esse problema da razão de forma bem estrutural.
humm... Vou partir da fenomenologia, parte que eu mais me identifico na filosofia moderna.
Pressuposto:
A Razão: Um triângulo pode ter dois lados iguais e um diferente, ou dois diferentes e um igual, ou três iguais. Pode ser também de diversos tamanhos e formas angulares. Bem como pode fazer parte de uma figura muito maior, que pode ainda ou não ser outro triângulo. O objeto e a objetividade.
A Metarrazão: Só se cabe saber que é um triângulo uma figura geométrica de três lados e tendo isto em mente, a qualquer momento um sujeito poderia fazer um triângulo, pela sua racionalidade, e torná-lo tão complexo o quanto fosse possível, pois sabe-se a forma deste. Se a humanidade vivesse apenas de produzir triângulos, todos estariam salvos! Isto é uma simbologia.
A transcendência: Um arquétipo. Se o quadrado (quadrilátero) não fosse conhecido, como de um triângulo de três lados se conceber um quadrado? E como deste quadrado retomar o triângulo. Um caminho de ida e volta.
Conclusão: A razão do triângulo é a negação da formação arquetípica do quadrado. Através do triângulo é impossível compreender o quadrado, bem como dizer se ele existe ou não. Do quadrado é possível compreender o triângulo de forma epistemológica, pois é a compreensão do detalhe.
Esta não é uma fórmula infalível, mas é uma tentativa de demonstrar ista objetividade.
Filosoficamente:
- Só não é possível duvidar da dúvida. Logo, toda certeza é uma negação. Bem como, toda certeza é uma medida e uma negação do todo. Toda medida é uma razão, pois a natureza da razão é a compreensão do detalhe, assim como o triângulo e não o todo complexo.
Empiricamente:
- Qual é a razão de usarmos carros com motores a combustão?
- Qual é a razão de usarmos lâmpadas (elétricas)?
- Qual é a razão de existirem exércitos?
- Qual é a razão de termos polícias?
- Qual é a razão de termos hospitais?
- Qual é a razão de vivermos?
Pense um pouco fora da sua razão para compreender que todas as respostas são as negativas filosóficas.
Difícil compreender isto... sistematizar isso é pior ainda. Um dia eu chego lá.
No niilismo, tudo se torna nada. Nada se torna tudo e tudo o que é, é simplesmente nada. O niilismo contemporâneo é a disrupção com a modernidade, porquanto que não se sabe exatamente o que é. O niilismo pode ser assim considerado a fonte de caos e desespero, mas também da transformação e busca pela verdade deste tempo."
Thiago, não haveria como você descrever esse sentimento melhor. Vamos em busca pela verdade deste tempo! Obrigada.
Bem, não sou, como vc também parece não ser adepto de linhas de pensamento niilista - sou um evidencialista ( vc confundiu minha linha de pensamento com o que vc chama de cientificismo moderno).
"- o texto coloca que além do físico nada existe;"
Essa é uma ideia da qual não partilho, assim como vc. O que posso afirmar sobre o que está absolutamente fora daquilo que pode ser cognoscível (evidenciável) ? Só posso afirmar que não sei. Não posso fazer julgamentos quanto ao externo ao cognoscível.
"- então eu questionei como o niilismo define o pensamento;"
Não define. A ideia do nada existe, mas fora a ideia. que tem matiz lógico matemática, essa ideia de nada não corresponde a ente que possa ser investigado. A ideia do nada pode ser definida no pensamento, mas não corresponde a algo que possamos efetivamente tratar - o nada quântico, aliás é definível e é diferente do nada metafísico.
"- fui respondido que o pensamento "se reduz a impulsos químicos e elétricos do seu cérebro. Assim como o software de plataforma web que possibilitou você de postar esse texto";"
De forma resumida é o que é o pensamento, o mesmo que eu e vc utilizamos. Mas não gosto da comparação com software - acho-a imprópria.
"- questionei então como se explicaria então a transmissão de pensamento ou telepatia;"
Esse é o detalhe: a ideia de telepatia e de transmissão de pensamentos é uma alegação sobre o mundo físico. A questão é verificar se a mesma é real, se ela efetivamente existe. E aí caímos na maldita ciência.
"- fui respondido por "Telepatia? Isso não existe.""
Tudo indica que responderam certo para vc. :¬D Todas as evidências tem mostrado que este é só um desejo humano, não uma realidade.
"Então questionei: "Nesse sentido, você concorda que só podemos afirmar algo e temos prova sobre o que afirmamos?""
Tenho a bela impressão que fomos pegos numa armadilha, por ambos não sermos partidários do niilismo. Acho que nossa discussão se daria mais acertadamente num artigo sobre evidencialismo. Que infelizmente ainda não existe no ateus.net e ainda causa uma série de mal-entendidos
1)uma coisa só pode ser verdade for uma verdade por definição. por exemplo: todo triangulo tem três lados. não é necessário provar isto, pois, isso é uma verdade por si só.
2) ela só pode ser encontrada por verificação empírica. por exemplo, a gravidade é verdade, pois ela foi verificada empiricamente.
o problema da segunda premissa, é que ela não é uma verdade por definição, e ela não pode ser verificada empiricamente. logo, ela não faz sentido.
os ateus dizem , usando o niilismo, que a verdade é relativa e que os padroes morais são, na verdade, frutos dos seres humanos. mas eu pergunto:"se toda a verdade é relativa, então o niilismo é relativo?". com isso os ateus abraçam o que mais criticam, a verdade absoluta.
voce pode dizer:"voce não pode derrubar um texto como este usando algumas palavras!!"
então eu respondo:"quando se comete um erro simples numa equação matemática(como trocar um sinal positivo por um negativo, sem querer), não é preciso usar uma explicação complicada, basta uma explicação simples."
sua interpretação está incorreta. Não há quaisquer dessas premissas assumidas ou implicitas em uma cosmovisão niilista. Primeiramente, sequer existe o que se entender por verdade, e não é "uma coisa só pode ser verdade for uma verdade por definição". O fato é que raciocínios claros requerem definições, nada mais, nada menos. Como sequer existe, no mais "baixo nível", como um o que se enteder que seja unicamente objetivo (não incluso em nossa poluição subjetiva), sequer há um o que se entender como "verdade" como algo externo. Claro que essa pode ser caracterizada, mas isso seria apenas uma questão de semântica, de seu significado. Temos diversas interpretações filosóficas de verdade para ilustrar isso (correspondentista, pragmática, propriedade etc...). Se quisermos caracterizar a verdade como a realidade, nada nos impede, por exemplo. Ao mais baixo nível, a questão apenas orbita em torno da linguística, não de algo efetivo a ser encontrado.
Quanto ao empiricismo, isso nada tem a ver com o niilismo, e sim com a ciência. O empirismo nada mais é do que um método baseado na filosofia de que as experiências são as principais fontes, se não as unicas, que, são passíveis de, logicamente, entender o que necessita-se de experiência, tal como é nossa relação com o mundo externo para obtenção do que chamamos de conhecimento.
O niilismo diz claramente que os valores éticos e morais são, na verdade, produtos do ser humano, e que não existe uma "verdade superior" para justificar a moral.o cristianismo, por exemplo, diz que o que é certo e errado, e caracteriza o errado como pecado.
o niilismo nega qualquer realidade que não seja material, e o único mundo que existe é este, e não o mundo metafísico ou espiritual.
as duas premissas acima mencionadas, são do filosofo ateu David Humer, que muito criticou a metafisica e a espiritualidade. dizendo até que os livros que falam sobre Deus deveriam ser queimados na fogueira.
certa vez William Lane participou de um debate com um ateu sobre a existencia de Deus, e a metafisica. perguntaram a ele se acreditava que a ciencia podia explicar tudo, e ele disse:"Existem muitas coisas que a ciencia não pode explicar, mas elas são verdadeiras mesmo assim, e posso lhe dar 5 exemplos:
1)a logica e a matematica não podem ser provadas cientificamente, pois a ciencia usa a logica como pressuposto, e usar a logica para provar a logica seria arumentar em circulos.
2)as verdades metafisicas, como por exemplo, que existem outras mentes como a minha, e que o mundo real está lá fora, e o mundo não foi criado á 5 dias atráz.
3) valores como o certo e o errado, voce não pode provar cientificamente que os nazistas eram maus por matar judeus, pois os valores não podem ser submetidos ao metodo cientifico.
4)julgamentos esteticos como o belo e o bom não podem ser submetidos pelo método cientifico.
5) e por ultimo(ironicamente), a propria ciencia não poder ser avaliada pelo proprio metodo cientifico, pois isso seria usar a ciencia para provar ela mesma, e, com isso, seria argumentar em circulos. por exemplo, a teoria da relatividade usa como premissa que a velociade da luz é constante para qualquer ponto A e B. mas nem mesmo Einstein provou isso, mas somos racionais para crer que isto é verdade."
explicado?
O ponto mais básico que diria a você seria apenas uma pergunta óbvia, diante do texto, ridícula: Todos esses pontos destacados por você, referem-se a objetividade ou a subjetividade? Dada a sua resposta (que é bem dedutiva), leia o texto.
premita-me citar um trecho do texto(a proposito, eu li todo o texto):
"a metafísica nasceu numa época de ignorância, em que os homens sequer sabiam da existência de bactérias. Sequer lhes passava pela cabeça que nossos cérebros eram feitos de neurônios. Mesmo assim, queriam explicar racionalmente a decomposição e o pensamento. Como não tinham microscópios para ver a realidade com precisão, constatando assim a existência de micro-organismos decompositores, limitavam-se a devanear teorias metafísicas, especulando sobre “realidades ocultas” que nos apodreciam em segredo, e é claro que não tinham a menor ideia do que estavam falando. Ao ver um corpo em decomposição, por exemplo, imaginavam que isso talvez se devesse a alguma ordem natural das coisas que nos impunha a decomposição como um “sentido existencial”. Assim, por ignorar que o que nos apodrece são as bactérias, supuseram que isso seria devido à misteriosa “essência decompositora do ser”. Esse tipo de raciocínio delirante, constituído por uma rigorosa lógica tapa-buracos, é o cerne da metafísica. Ela aborda todas as questões da existência com esse mesmo grau de autismo".
a minha critica no ultimo post foi a respeito de um do pilares do niilismo, que nega a existencia da metafisica, e que, implicitamente, o niilismo diz que a realidade só pode ser verificado empiricamente, como diz o trecho que destaquei:
"(...)Como não tinham microscópios para ver a realidade com precisão, constatando assim a existência de micro-organismos decompositores, limitavam-se a devanear teorias metafísicas, especulando sobre “realidades ocultas(...)”
e respondendo a sua pergunta: os meus argumentos mostram que existe uma verdade absoluta no mundo moral, e que ela pode ser descoberta pela filosofia, e que a verdade não é relativa. alguns costumes podem até mudar, mas conceitos sobre o certo e errado( como matar uma pessoa, ou traí-la) não mudaram. elas ainda sao consideradas erradas.
procure ler- humano,demasiado humano; a gaia ciência;assim falava zaratustra; além do beme do mal; genealogia da moral; crepúsculo dos ídolos; ecce homo; e se sobrar tempo leia também a vontade de poder.Quem sabe se você ler estas obras de nietzsche poderá em algum aspecto críticar o que até agora você está mostrando que não entende.
A metafísica tradicional procura mostrar uma pseudorealidade transcendental.
A metafísica moderna procura justamente interpretar os fatos ciêntificos de maneira mais racional, de acordo com a realidade.
Todas as teorias filosoficas, para serem confiáveis elas devem obedecer uma regra basica: a lei da não contradição. isso é logico pois uma teoria não ser usada contra ela mesma.
isso me faz lembrar uma situação em que meu professor de filosofia da minha faculdade disse veementemente que não existia uma verdade absoluta, e todas as leis morais eram relativos ao tempo e ao lugar. e um colega de classe, querendo fazer uma pegadinha com o professor, fez a seguinte pergunta:"professor, isso que o senhor acabou de falar é verdade?"
O professor ficou calado. se ele respondesse que sim, ele estaria se contradizendo, pois ele mesmo falou que não existe verdade absoluta. se ele respondesse que não, ele estaria pondo em cheque o que ele disse.
mesmo sendo uma pegadinha, vale a pena parar para refletir. o niilismo nega a verdade absoluta, mas, em contrapartida, afirma uma verdade absoluta de que "não existe verdade absoluta". logo o proprio niilismo nega a si mesmo.
o canibalismo que foi usado como exemplo, se explica pois as tribos africanas e indigenas acreditavam que os membros da outra tribo, que adovama deuses diferentes, eram como "filhos do demonio", e que podeam absorver o conhecimento deles comendo sua carne. se voce cresse piamente que isso era verdade , não seria "certo" comer a carne de seu inimigo?
os padroes de certo e errado existem em todas as culturas, mas elas acabam tendo efeitos diferentes, dependendo do lugar. outro exemplo, os americanos queimaram na fogueira, no seculo XVIII, varias mulheres sob acusação de bruxaria. mas, se voce vivesse naquela epoca e cresse piamente que aquelas mulheres eram filhas do demonio, não seria justificável mata-la? vendo por esse contexto, persebemos que não.
pode estudar todas as culturam(desde os euporeus ate os indios sul-americanos, passndo pelos chineses e indianos), vai os mesmos jestos de caridade, bondade, e ajudar os mais necessitados,e dar esmolas aos podres como atitudes certas.
Negar que exista verdade, não é produzir outra. Nega-se é o que não há um o que se conceber por verdade. O que há são raciocínios e pensamentos humanos, e deles não se chega a fim absoluto algum e trascendental algum.
"o niilismo nega a verdade absoluta, mas, em contrapartida, afirma uma verdade absoluta de que "não existe verdade absoluta". logo o proprio niilismo nega a si mesmo."
Definitivamente, você não leu bem o texto. O niilismo nega a sí mesmo, justamente por não ser nada mais do que um racíocínio e cosmovisão humana, igualmente, como qualquer outro ("a baixo nível") sem qualquer contato objetivo com o existente.
Não existe contradição nenhuma em identificar mentiras (valores sem base no real) sem contudo afirmar uma verdade.
Beleza, ai você diz que estes padrões revelam uma verdade moral absoluta de seres que existem por mízeros milhares de anos ( ou seja,seres que não são absolutos ), apesar de me parecer ingênua essa sua interpretação, gostaria que você me explicase:
como algo que não é absoluto pode possuir uma verdade absoluta?
e outra coisa, voce só pode dizer que uma coisa está errada quando se sabe que outra coisa está certa. como posso dizer que 2+2=5 está errado se não sei a resposta certa? como posso dizer que uma linha está torta se não seu o que é uma linha reta? quando se nega uma afirmação(ou seja, dizer que está errada) é por que esta dizendo, em contrapartida, que outra coisa está certa.
a segunda objeção: voce disse que o comportamente "bom" é benéfico e vem apenas por necessidades que tenhamos. e essas necessidades são padroes psicologicos e emocionais. Mas, o que influencia uma pessoa a arriscar a vida para salvar um estranho? ou uma mãe se atirar no mar para salvar seu filho, mesmo não sabendo nadar? essas atitudes não são nem um pouco benéficas para nós, podemos até perder a vida por algo qua não vai nos traz beneficio algum. e os psicopatas e sociopata? existem diversos estudos que apontam que estas pessoas sofrem, muitas vezes, de disturbios mentais. a palavra "psicopata" significa "insensivel", ou seja uma pessoa que, por fatores mentais e até genéticos, não conseguem sentir amor, compaixão ou remorso. são pessoas doentes me suma.
e a outra pergunta:"Beleza, ai você diz que estes padrões revelam uma verdade moral absoluta de seres que existem por mízeros milhares de anos ( ou seja,seres que não são absolutos ), apesar de me parecer ingênua essa sua interpretação, gostaria que você me explicase:
como algo que não é absoluto pode possuir uma verdade absoluta?"
nós, humanos, realmente não somos absolutos e nem perfeitos, mas construímos grandes coisas e descobrimes conhecimentos sobre o universo e a natureza, e descobrimos verdades absolutas na matemática, física, química, astronomia, etc.Até mesmo o físico astrônomo Stephen Hawkins disse isso no final do livro "uma breve Historia do tempo" em que o "homem poderia descobrir não apenas as verdades do universo, como devendar o como e por que existimos. isso seria o triunfo definitivo do intelecto humano, pois descobriríamos a mente de Deus"
se meus argumentos ainda não convencem, eu sugiro que leiam os livros "não tenho fé suficiente para de ateu" escrito pelos ex-ateus Norman Geisler e Frank Turek, e o livro "a linguagem de Deus" escrito pelo genecicista e tambem ex-ateu francis collins. estes livros abordam todos os questinamentos que voces apresentaram, desde se seria possivel conhecer uma verdade absoluta até a existencia de Deus, usando a cosmologia, filosofia e decobertas científicas, e mostram fatos cientificos e lógicos para mostrar isso. não precisam estar receosos, eles apredentam uma linguagem lógica e cientifica, e não deixam fios soltos.
até logo
Algo só pode ser realmente conhecimento ou verdade quando é absoluto ( em todos os aspectos), nosso cérebro não possui capacidade para o conhecimento, se possuise não estariamos em dúvida do que existiu antes do big bang.
" ... como posso dizer que 2+2=5 está errado se não sei a resposta certa?"
A resposta certa não é uma verdade- conhecimento, é apenas informação.Informação esta baseada em observação e lógica e não no conhecimento da verdade.
uma professora em uma questão da prova pede para uma aluna demonstrar 10 exemplos sobre determinado conteudo, a aluna responde apenas 9 e a professora da um meio certo.(ha,ha,ha) como se pudesse existir meio certo.
P rofessores fazem graduação em determinada matéria, chegam na sala e dizem:
tenho conhecimento sobre isso: ai um aluno pergunta conhecimento sobre o que mesmo profe?
e a resposta pode ser: sobre a gramática ( como se a gramática fosse uma verdade e não um conjunto de informações pré estabelecidas)
Se existe uma verdade em absoluto (como propôs Hegel - e que eu honestamente acredito), o humano ainda não é capaz de capturá-la, nem se tivesse totais condições e instrumentos para tal. Isto ocorre... bem; Não sei, parece-me um problema de consciência. Uma consciência ainda pouco equivalente com o que é o esplendoroso Universo. Uma consciência às vezes desvanecida em alguns sujeitos, mas latente em outros. Talvez um problema de "evolução" para além da teoria Darwiniana, algo que se estuda hoje em pontos reservados das universidades e pouco acessível à maiorias dos "estúpidos" e dos "alienados" pela própria ciência (e bem querem que assim permaneça).
Conclusão: o humano não é absoluto (nem deveria ser, pois se não, não seria por si mesmo, visto que é racional).
Vejo, para além dessa discussão, dois problemas:
1 - Só se pode dizer que algo está certo ou errado sob determinadas premissas. As certezas e a filosofia andam na contramão e colidem frontalmente. Assim, a única certeza é tornar-se a dúvida e é dessa dúvida que começam todas as certezas. O problema que existe em se ter tantas certezas e razões de tudo é o individualismo filosófico, que nada mais é uma tensão vigorosa entre as partes e muitas vezes degradante e desnecessária entre o indivíduo e o meio, ou entre o meio e o indivíduo.
2 - O problema da abstração. A teoria do conhecimento mostra bem isso. Parece-me esse o problema da verdade (posto dessa forma), um caminho só de ida, o que é historicamente problemático (vide as revoluções). Quero dizer com isso que o humano consciente está pelo conhecimento de si separado do meio abstracto e é essa consciência o interesse maior do humano e não o seu meio (embora isto esteja um pouco confuso hoje, mas assim nasceu a filosofia).
Acho que algumas verdades o humano encontrou, em sua maior parte de forma empírica, graças a uma consciência desse conhecimento, nem uma abstração, nem uma certeza, mas algumas (poucas) verdades universais e eternas. Até porque, se não, não estariamos aqui, não é?
Também antevejo dois outros problemas:
a) - Não se admite que a existência de psicopatas e sociopatas esteja conectada a muitos fatores além dos sociais. Isto ocorre porque o positivismo tentou explicar muita coisa isto posto racionalmente, mas falhou em quase tudo.
b) - A Francieli pôs aqui a questão do conhecimento e da gramática, de forma muito contextual. É isso mesmo que ocorre, concordo plenamente. Aproveito ainda para expor mais coisas, parece-se que o tal conhecimento acomoda as pessoas ao ponto delas não mais entenderem que este conhecimento foi por elas mesmas disciplinado. Ou seja, entender que não é o conhecimento que disciplina o sujeito e sim o sujeito quem disciplina o conhecimento.
Sobre a questão das certezas:
Se levarmos isso à frente, teremos a questão da cultura e da tradição e de todas as verdades (certezas) históricas, sob essas premissas historicamente desenvolvidas, caindo novamente no problema da abstração.
Um dos filósofos que mais questionou isto, acreditem, foi Michel Foucault. Não aceitando estas certezas e disciplinas o arqueólogo do conhecimento quis (e conseguiu em grande parte) resgatar algumas verdades eternas. Isto é tão incômodo para este período racional, que Foucault ainda não é bem entendido e nem sequer estudado em algumas (muitas) Universidades, inclusive por motivos de preconceitos e estereotipos.
Fica a dica... estudem-o, desde a escola de Frankfurt. Pelo menos é isso que estou tentando fazer.
Estive a pouco tempo com um médico bem orientado no campo da neurociência, e ele disse para mim algo que me deixou pasmo. Que a neurociência cada vez mais prova que a razão e a lógica humana é limitada e que isto que chamamos "cérebro" é totalmente cerceado, tanto quanto um computador (ou menos, talvez em alguns poucos anos).
Mas que a percepção do humano é infinita, bem como a simbologia que o humano utiliza para resgatar certas memórias e razões. O que faz o conhecimento se tornar, de certa forma, mais empírico e menos racional.
Portanto, acreditam cada vez mais que a resposta para esse "absoluto" está mais na contra-razão do que na razão. O que por isso não poderia ser explicado de forma linguística. (Complicado demais isso).
Se existe realmente a verdade ela tem que ser completa, não pode existir meias verdades :
tiago- "acho que algumas verdades o humano encontrou".
-não tem como um grupo de verdades, formar uma maior. Neste caso a palavra adequada seria -informações-.
a verdade dentro deste contexto seria o conjunto de todas as informações existentes no cosmo, e apenas isso seria a minha visão de suposta verdade.
Para mim, palavras como verdade , conhecimento e nada só podem ser usadas no sentido absoluto, caso contrário elas se falsificam e não cumprem mais a função original. Logo só poderia existir conhecimento da verdade (unica) , e não de uma porção de informações.
persista. Como disse Carl Sagan: nesse mundo assombrado pelos demônios,
é preciso usar a ciência como defesa, não adianta reclamar da escuridão é melhor acender uma vela. Fiat lux!
O que é necessário para que exista conhecimento?
1- que exista uma verdade a ser conhecida.
2- que exista algo a adquirir o conhecimento.
3- que este algo tenha a capacidade de conhecer a verdade por completa, tal como ela é.
O que é necessário para que exista verdade?
- que algo seja real, ou seja, que exista em si.
Como sabemos, a subjetividade não existe em si, portanto não existe uma verdade a ser conhecida nela.
Já a matéria (objetividade), existe em si (é real), portanto possui verdade.
Até ai parece que o conhecimento não é impossível, pois existe uma verdade a ser conhecida (objetivo), e existe algo a conhecé-la (subjetivo).
Mas o problema é justamente que a subjetividade não tem nenhuma capacidade de conhecer o real. A subjetividade fecha-se nela mesma, bloqueia qualquer entendimento da objetividade, tudo o que é externo esta necessariamente sujeito a interpretação imaginária, ou seja, irreal,utópica, jamais pode corresponder com o que é de fato.
A negação da verdade apenas produz uma consequência lógica negativa de um fator a se (re)conhecer como tal. Ou seja, nega-se a base de uma consequência positiva em favor da existência de uma "verdade".
"e outra coisa, voce só pode dizer que uma coisa está errada quando se sabe que outra coisa está certa. como posso dizer que 2+2=5 está errado se não sei a resposta certa?"
Não necessariamente. Se uma pessoa me diz que possue o carro mais eficiente do mundo, eu posso não saber exatamente qual seja, mas posso apontar outros comparativos que apenas anulam a afirmativa dela como procedente, o que logicamente apenas elimina a possibilidade do seu carro ser o mais eficiente.
O que ocorre é que a negação de uma alegação não produz isoladamente uma hipótese positiva para explicá-la, apenas a elimina logicamente da equação.
"a segunda objeção: voce disse que o comportamente "bom" é benéfico e vem apenas por necessidades que tenhamos. e essas necessidades são padroes psicologicos e emocionais. Mas, o que influencia uma pessoa a arriscar a vida para salvar um estranho? ou uma mãe se atirar no mar para salvar seu filho, mesmo não sabendo nadar?"
Procure ler artigos sobre a inexistência do chamado altruísmo e a real motivação por detraz desses comportamentos.
"e os psicopatas e sociopata? existem diversos estudos que apontam que estas pessoas sofrem, muitas vezes, de disturbios mentais. a palavra "psicopata" significa "insensivel", ou seja uma pessoa que, por fatores mentais e até genéticos, não conseguem sentir amor, compaixão ou remorso. são pessoas doentes me suma."
Grosseiramente falando, sim. O fato é com isso apenas deixei claro que nem a natureza coopera para o estabelecimento de uma moralidade.
"como algo que não é absoluto pode possuir uma verdade absoluta?"
Não produz.
"nós, humanos, realmente não somos absolutos e nem perfeitos, mas construímos grandes coisas e descobrimes conhecimentos sobre o universo e a natureza, e descobrimos verdades absolutas na matemática, física, química, astronomia, etc."
São apenas tentativas de compreenção humanas, e em nada a ciência tem de "absoluta".
"se meus argumentos ainda não convencem, eu sugiro que leiam os livros "não tenho fé suficiente para de ateu" escrito pelos ex-ateus Norman Geisler e Frank Turek, e o livro "a linguagem de Deus" escrito pelo genecicista e tambem ex-ateu francis collins. estes livros abordam todos os questinamentos que voces apresentaram, desde se seria possivel conhecer uma verdade absoluta até a existencia de Deus, usando a cosmologia, filosofia e decobertas científicas, e mostram fatos cientificos e lógicos para mostrar isso. não precisam estar receosos, eles apredentam uma linguagem lógica e cientifica, e não deixam fios soltos."
Ninguém nunca conseguiu demonstrar qualquer evidência para a existência de algo a se entender como Deus, para começarmos.
"Como sabemos, a subjetividade não existe em si, portanto não existe uma verdade a ser conhecida nela."
Possamos deixar isso mais claro dizendo que não há elementos subjetivos como partes efetivas do existente, enquanto e tão somente como um tipo de atribuição.
"Já a matéria (objetividade), existe em si (é real), portanto possui verdade."
Positivamente, percebo que problema estaria no que se entender por "verdade" (coisa tão inefável que não há um o que se entender dela). O existente/realidade/objetividade é o efetivo, portanto, ele é que interessa a qualquer tipo de conhecimento que possamos ter. Não há necessidade de apelidar afirmarções correspondentes como "verdades" (salvo com significado semântico, mas não com valor filosófico/metafísico por detrás). No fim das contas, isso é apenas uma caracterização. A verdade, mesmo podendo ser um parâmetro útil de entendimento, pode assumir outros sentidos e, dentro de pensamentos filosóficos, elas podem não ser significados intercambiáveis.
"Mas o problema é justamente que a subjetividade não tem nenhuma capacidade de conhecer o real. A subjetividade fecha-se nela mesma, bloqueia qualquer entendimento da objetividade, tudo o que é externo esta necessariamente sujeito a interpretação imaginária, ou seja, irreal,utópica, jamais pode corresponder com o que é de fato."
Sim. Com uma perctiva correspondentita da verdade, se partirmos do princípio que o que é verdade é o que se corresponde com o que pensamos, falamos, fazemos, então a verdade é completamente subjetiva, visto que todos esses conteúdos são abstrações para possibilitar um arranjo de um todo indistinto ou com entendimentos ou interpretações distintas, quando isolados. Mesmo que tivessemos acesso a sistemas isolados, eles, por sí sos, também não explicariam os seus efeitos subsequentes diretamente, sendo necessários abstrair para ter um significado. Outro ponto é que, simplesmente, não "há um o que se conhecer". O que queremos saber do existente? Seu funcionamento? seu funcionamento que é direcionado para qual efeito? Sempre iremos fazer "recortes" de abstração para explicar efeitos isolados, mas, o existente em sí, já é um algo indistinto, sendo que, qualquer conhecimento que tenhamos atribue um tipo de sentido arbitrário ao fundamento daquele conhecimento, mas que, efetivamente, nada o fundamenta. Por exemplo, para que fazer pesquisas de DNA? Os motivos são várias, desde os benefícios para a biologia até para a medicina, e até mesmo para a ciência da computação. No entanto, todos esses fins são atribuídos por nós, sendo que a única parte objetiva e efetiva é apenas as propriedades de um dado sistema e seu funcionamento como uma possibilidade, nada mais. Pesquisas, estudos, são sustentadas por interesses (dos mais diversos), mas todos os interesses apontam para nós ou algo que seja útil a humanos, de alguma forma, como proveito. Se a iniciativa e o fator para estudarmos algo é algum interesse (subjetivo), então é lógico que estamos fazendo porque algo nos interessa, não é devemos fazê-lo.
Outro ponto bem pertinente é o que o Arakelian disse. Nossa natureza nos torna limitados e quase inaptos para termos acesso a uma gama muito ampla de informações, além de fatores de deterioração entre outros elementos neurais e psicológicos que são arbitrários e sempre atuam de forma representativa com as informações que lidamos.
"O existente/realidade/objetividade é o efetivo,portanto, ele é o que interessa a qualquer tipo de conhecimento que possamos ter."
" Outro ponto é o que, simplesmente, não há um o que se conhecer."
Afinal, você acha possivel ou não, algum tipo de conhecimento?
Outra coisa, agora falando de minhas afirmações:
Como deixei claro no outro post, se por algum raciocinio for preciso usar a palavra verdade, eu só a uso em sentido completo e objetivo. Neste caso a verdade corresponderia para mim ao conjunto de todas as informações objetivas existentes, ela não tem nenhum sentido metafisico.
é exatamente por isso que fiz questão de colocar a seguinte frase antes de minhas afirmações :
MINHA interpretação da imposibilidade do conhecimento
a palavra verdade ali esta empregada em sentido diferente da maioria das interpretações, e só a usei porque acho que ela é usada de forma errada ( diferente da minha interpretação, olha só que egoismo!)
Efetivamente, não. Mas, na vivência, interpretamos diversas informações que apenas se correspondem com uma abstração correspondente, mas que não temos acesso a todos os fatores que a possibilitaram.
"Como deixei claro no outro post, se por algum raciocinio for preciso usar a palavra verdade, eu só a uso em sentido completo e objetivo. Neste caso a verdade corresponderia para mim ao conjunto de todas as informações objetivas existentes, ela não tem nenhum sentido metafisico."
Sim. Se interpretarmos verdade nesse sentido, definitivamente qualquer conhecimento é impossível. Além de não haver o que se entender por "completo" (visto que isso sempre será uma abstração de um tudo sem significado e sem sentido).
na minha interpretação queria demonstrar que não existe 2 verdades, 5 verdades,algumas verdades. Verdade seria apenas 1 = total de informações reais existentes, o que é impossível sabermos.
Apesar de eu não gostar de usar a palavra conhecimento ,pois é muito mau interpretada, concordo com a sua afirmação.
vovê parece ser um niilista ativo e positivo (completo), isso corresponde?
Outro ponto da negação do conhecimento não colocado estaria no uso da lógica e da razão como ferramentas do saber. Uma referência de um tópico antigo sobre uma abordagem superficial dos problemas da epísteme:
Adentrando nos níveis mais básicos e fundamentais abaixo da ciência e de início com
a filosofia, reconhecendo, inclusive, como nosso cérebro funciona para buscar explicações, podemos
perceber que, mesmo que possua princípios, fundamentos, funcionalidade, método, lógica, racionalidade,
coerência, útilidade, esteja sustentada por interesses, disposição etc... todos esses elementos simplesmente
derivam, como simples consequência do processo, toda a atividade intelectual humana produzida até então.
No entanto, longe de buscarmos pressupostos a algo, podemos simplesmente denotá-los, não como algo a
se justificar e se fundamentar, mas como simples formas injustificáveis que o ser humano desenvolveu para
interagir com um ambiente que, em sua existência, não possue qualquer fundamentação em nenhum
desses elementos, pois são todos de origem subjetiva e, essencialmente, arbitrária, que não apontam para
fim nenhum.
Não é coerente esperarmos que a realidade nos comunicasse algo, naturalmente, sendo que todo
enunciado proferido só poderia ter vindo de nós. Não há fundamentos para compreendermos a realidade
pois ela é simplesmente incognoscível, impessoal, amoral, irracional, ilógica, incoerente, indiferente em sua
Ideologia, Discurso Lacunar Ou Conhecimento? - fórum.ateus.network... http://ateus.net/forum/topic/7070-ideologia-discurso-lacunar-ou-conhe...
6 de 11 27/11/2011 17:44
própria condição de ser, sendo exatamente o oposto subjetivo intransponível da atividade intelectual
humana, enquanto existência. Essa última, como é lógico, nada é se não mais uma ocorrência sem qualquer
sentido ou fundamento dentro de sua própria condição. Faz parte da constituição do absurdo. Dentro desse
cenário, parece muito claro compreendermos a falta de fundamento para toda e qualquer asserção já
balbuciada pelo ser humano, que, por sua vez, faz parte da mesma condição existencial e em nada é
representante do existente enquanto "ser racional". A existência em tais condições é algo claramente
incompatível com o que se propós todo o fundamento inicial do homem. É exatamente o ponto de partida e o
de chegada, de onde nunca pode se mover racionalmente. Não há princípios, pois não há por onde
começar. Não há razão, pois não há o que se comparar. Não há lógica, pois não existe a possibilidade de
uma abstração de um todo indistinto. Não há coerência pois não há necessidade de se estruturar uma
incondicionalidade.
Quanto a ciência e a filosofia, ambas são produtos, reflexos e tentativas, em suas próprias consequências,
que o ser humano utiliza para interagir com o que existe. Dentro desse cenário, só é possível, como
consequência, interagir com a realidade dentro de nossa própria condição e limitações, tanto biológicas
quanto metodológicas. Nessas condições, parece muito claro perceber que, tudo o que já foi produzido em
termos intelectuais, sequer já esbarrou na realidade no sentido de "sequer haver o que se compreender".
Sendo que se algo é lógico, racional, coerente, útil, de interesse etc... eles o são dentro de um sistema de
valores. Respeitando esse escopo, isso não os torna todos "válidos", mas simplesmente funcionais dentro
do que se proporam a fazer em termos de possibilidade. Já enclausurados nesse sistema, e, dados seus
respectivos efeitos enquanto consequência, interpretar tudo como "verdade" ou tudo como "válido", reflete
apenas outra arbitrariedade, visto que, objetivamente, não há um o que ser "válido" e um o que se conceber
como "verdade", interpretar negativamente todo enunciado é o mais condizente com a questão já que não
há fundamentos diretos e objetivos que os sustentem, e muito menos ainda o conhecimento do que esses
seriam e o que serviriam. Como consequência direta, percebemos o desabamento de todos os sistemas,
pois nada seria objetivamente sustentável enquanto elemento subjetivo. Dentro de uma análise impessoal,
me parece mais condizente apenas entendê-los como consequências, enquanto constituição existencial.
Nesse sentido, nada já produzido pelo ser humano corresponde intelectualmente com suas próprias
tentativas, não sendo motivos de fracasso, nem de derrota, mas apenas como uma tarefa vergonhosa a qual
se deu o trabalho de fazer.
Enquanto sujeitos, só o que estamos limitados a fazer (desde que tenhamos intenções honestas) é
descrever os fatos tais como se apresentam e podemos perceber, dentro do acessível. Antes de sermos
seres autointitulados racionais, somos animais sencientes que existimos tão somente para sobrevivência e
proliferação, ao menos assim sempre mostrou-se no decorrer da história natural da vida. Desenvolvidos
através de mecanismos irracionais e ilógicos não tautologicamente diferecionados a produção de coisa
alguma. Emoções, sentimentos e sentidos são mecanismos de sobrevivência esculpidos através de outros
mecanismos seletivos como mera consequência de todo um processo, cabe dizer, algoritmico
intrinsecamente irracional. Em suma, existimos para sobreviver, não para filosofar. Ora, em tais condições,
parece óbvio o motivo pelo qual todo e qualquer pronunciamento feito por quaisquer princípios ou métodos
forem são todos, a esse nível, arbitrários. Não há fundamento sequer para existir, quanto mais para
compreender, (exercendo aqui um juízo de valor arbitrário). Como poderiamos lançar qualquer coisa
entendida como "verdade" sobre o mundo nessas condições existenciais? O que é, o que se faz, para que
serve, qual importância tem, o que se fundamenta, ou mesmo, para que discutir algo declaradamente
infundado e inefável como "verdade"? O que são fundamentos? Não se fazem entender e nem deveriam.
Sua relativização, a nível ponderado ou não, é um esforço humano, igualmente infundado, para nada que se
faça juz. O "ser-em-sí" é simplesmente inefável. Mas não é algo a se superar, nem um mistério a se
esclarecer, é simplesmente uma incondicionalidade absurda por excelência, o nada de nossa subjetividade.
Quanto a meu grau de niilismo, diria que oscila entre o "niilismo passivo" e o niilismo ativo (completo). Mas, não procuro me enquadrar nem em um, nem em outro de fora restrita.
E em relação a "verdade" , se uma pessoa que quer debater em algum aspecto algo sobre filosofia com outras pessoas que já possuem uma suposta verdade pré estabelecida, seria bem adequado que tenha alguma interpretação sobre a suposta verdade e que deixe clara essa interpretação a esta outra pessoa, caso contrário a conversa é completamente desastrosa e desentendida, não tem futuro ( visto que não se pode estabelecer de fato uma verdade)
é apenas essa a função de estabelecer a suposta verdade, e isso não tem nada de arbitrário ( seria uma forma de levar o debate adiante, englobando outras questões, sem deter-se sobre algo que não pode ser esclarecido).
dizer para alguem que já possui um conceito de verdade veemente estabelecido que não existe um o que se conhecer como verdade, é matar o futuro debate de interpretações, então neste caso o melhor a se fazer é estabelecer uma suposta verdade baseada ao maximo no real,na objetividade(claro desde que a pessoa realmente queira continuar o debate)
Caso a conversa for apenas entre niilistas, ai sim é completamente ridículo procurar algo para se estabelecer como verdade
Nem penso nisso no dia-a-dia. Mas, geralmente, me enquadro mais no "niilismo passivo", mas outras vezes, em "niilista ativo". Para não usar esses entendimentos filosóficos em algo que não possue qualquer função de explicação, o máximo que posso caracterizar é uma constância de humor, não de postura filosófica.
"E em relação a "verdade" , se uma pessoa que quer debater em algum aspecto algo sobre filosofia com outras pessoas que já possuem uma suposta verdade pré estabelecida, seria bem adequado que tenha alguma interpretação sobre a suposta verdade e que deixe clara essa interpretação a esta outra pessoa, caso contrário a conversa é completamente desastrosa e desentendida, não tem futuro ( visto que não se pode estabelecer de fato uma verdade)"
E o ponto é exatamente esse (não há, subjetivamente, o que se caracterizar como verdade). Mesmo se caracterizarmos a "verdade" como a objetividade/existente/realidade, isso também é uma parametrização. O fato é que não há essa necessidade de caracterização, visto que o existente se mantêm por sí mesmo, e se a intenção é entendê-lo em algum aspecto, iriamos parametrizar esse "recorte" dos eventos e deles entender algo. Ou, como fazem os cientistas, unificam elementos e disso abstraem uma teoria que o explicaria.
"dizer para alguem que já possui um conceito de verdade veemente estabelecido que não existe um o que se conhecer como verdade, é matar o futuro debate de interpretações, então neste caso o melhor a se fazer é estabelecer uma suposta verdade baseada ao maximo no real,na objetividade(claro desde que a pessoa realmente queira continuar o debate)"
Seria. Mas, o fato ainda persiste, debater o que se não há algo efetivo a se entender no mais baixo nível possível?
Como destruidora de valores quero não somente destruir os meus como também outros.Claro que destruir um valor para colocar outro tão falso quanto no lugar é uma babaquise,além de uma perda de forças completamente em vão assim como qualquer outro propósito que tenhamos.
mas inventar um pseudo-valor que aparente estar mais próximo com a realidade com a intenção de derrubar muitos outros relacionados puramente com a subjetividade, além de me parecer bem divertido, e um bom passatempo para esperar a morte, também me parece mais nobre ( claro, que isso é muito relativo), pois a intenção final é que outras pessoas perguntem para si mesmas o que você perguntou para mim.
Agora, se essa minha atitude vai levar a algum lugar? é claro que não, é apenas uma das opções para perder meu tempo.
No meu caso, eu simplesmente não ligo mais para valores alheios ou como outras pessoas possam viver. Tomo a liberdade de fazer o que tenho vontade quando posso exercê-la. Na prática, a questão de "valores" fica praticamente despercebida, visto que, no ponto de vista da utilidade, coaduno muito bem com o que é de meu interesse, e os interesses dos demais. Só basta pensar, não se ver como cumpridor de algo ou querendo enquadrar as pessoas dentro de estereótipos ideológicos ou valorativos. Meu comportamento, com o passar do tempo, tornou-se apenas mais útil, direto, econômico e confortável do que era, nada mais.
parabéns,pois você (aparentemente) consegue se satisfazer passivamente.
já em relação a mim não, só consigo fiapos de satisfação se me manter ativa de certa forma.
agora realmente não é preciso enquadrar pessoas dentro de estereótipos ideológicos ou valorativos pois isso são elas mesmas que fazem questão de fazer.
Pelo jeito você não tá nem ai para o super homem. Ou você acha que não é possível, ou você acha isso muito idiota.
Não é que consigo me satisfazer "passivamente" (sem piadas!), apenas disse que, dentro dos entendimentos entre "niilista passivo" e "niilista ativo", coatunaria mais com o passivo do que com o ativo, muito embora, também, dependendo do meu estado de humor e as pessoas com que estão, se assemelharia ao ativo. Por fim, não vejo precisão alguma em enquadrar meus comportamentos em nenhuma das duas formas.
"agora realmente não é preciso enquadrar pessoas dentro de estereótipos ideológicos ou valorativos pois isso são elas mesmas que fazem questão de fazer."
Também, mas digo no sentido de tentar entender as pessoas por perspectivas ideológicas. Eu apenas procuro analisar padrões de comportamento e psicológico (quanto o faço), se o mesmo coaduna com uma visão religiosa, por exemplo, ou ateia, ou uma outra aparentemente controversa (Personalidade VS ideologia/crença), simplesmente não ligo.
"Pelo jeito você não tá nem ai para o super homem. Ou você acha que não é possível, ou você acha isso muito idiota."
O Super-Homem Nietzschiano, seria, pelo que entendi, apenas uma superação individual dos valores cridos pela maioria, grosseiramente. No caso, não vejo sentido em colocar isso em prática significativamente, por causa de nossa natureza e da forma como vivemos no século XXI.
o super homem seria a raça humana depois da superção, enquanto que um individuo que supera estes valores mas que vive no meio de pessoas que ainda não superaram seria o espirito livre.
("quero apenas deixar mais clara a minha visão:
Se existe realmente a verdade ela tem que ser completa, não pode existir meias verdades :
tiago- "acho que algumas verdades o humano encontrou".")
Bom, como disse anteriormente, do meu ponto de vista os problemas das verdades são dois: A abstração e o individualismo filosófico.
O que você chamou de "imposibilidade do conhecimento", eu chamo apenas de abstração.
Creio que essa discussão já tenha superado em muito o niilismo (ativo, passivo; enfim). No campo das "verdades" (certezas) a fenomenologia fez grandes avanços, inclusive quando sugere que toda verdade conhecida seja colocada "entre parênteses" (o que é, nada menos, que o próprio niislismo, um processo, talvez). Existe ali toda uma metodologia das "verdades" que cada tempo e de cada período histórico (contextual). Isto não pode ser negado. Esse problema é também o problema da objetividade, visto que os processos de objectivação e sujeição dos indivíduos atualmente existentes conformam um tipo de instituição objectiva e determinada. O mundo das objetividades e objetivismos, isto é, dos próprios indivíduos objetivamente instruídos a lidar com o mundo de objetos sabidamete "conhecidos", que tendem então a culminar numa outra abstração, visto que toda verdade está sobrepujada (entre parênteses). Só dai (do nada) ocorrem os processos de subjetivação. Isto só aponta que o humano não é absoluto e se o fosse não poderia sê-lo, visto que é racional e arbitrário (limitado, determinado, objetivado).
Defendo apenas que existe nisto um processo deliberado de conhecimento, pois não se pode dizer que o homem das cavernas era menos sabido que o homem de hoje, já que antes era apenas um abstracto ao meio. Um processo consciente, afinal. Um processo de conhecimento (não o todo absoluto, mas as partes, em especial a compreensão do detalhe).
demonstre o que EXATAMENTE você acha que é conhecimento e verdade, além de serem dois rabiscos sem sentido e significado literal.
E além disso, apenas no âmbito de pensamento do indivíduo. A concepção do Super-Homem, nada mais resultaria do que em um tipo de sensação de libertação, de autonomia. No entanto, se for só isso, apenas é algo muito superficial e, porque não, praticamente pífio se compararmos como é a realidade da existência. Como uma sensação e postura, tal como se conseguíssemos preservar um estado de serenidade é algo muito interessante, no entanto, nada nos acrescenta se não um viciante estado de "espírito". O fato é que nossa existência há diversos fatores atuantes, e temos nossas "recaídas" emocionais. Pensar ou caracterizar-se como X ou Y, é desconsiderar, primeiramente, sua personalidade e possíveis razões para ela sofrer alterações. Um niiista, nesse sentido, para mim seria um indivíduo que não daria para se fazer uma distinção ideológica, pois não haveria nenhuma a se fazer.
claro que eu falei sobre a verdade em outros comentarios, mas como suposição para um determinado raciocinio. (dos quais jamais farei apologias, até porque apresentam falhas enormes )
geralmente as pessoas me interpretam de forma inadequada, porque me expresso realmente mal.
na minha interpretação um niilista seria um individuo completamente livre de valores ideologicos, morais, sentimentais, politicos no geral,etc.
agora se um niilista escolhe destruir algo ou criar algo, como seria unicamente pela vontade momentânea (ou não tão momentânea assim), continuaria sendo niilista, pois a consciência não muda só por causa uma vontade infantil que quiz realizar,não vejo nenhuma ideologia nisso.(a não ser a própia vontade, ou a falta dela)
neste caso x ou y representaria a total liberdade de sofrer alteração de personalidade e apenas isso, visto que a consciencia existencial é a mesma em x e y a unica diferença seria a passividade e a atividade.(nada muda em caracterizarme como y hoje e como x semana passada, não estou desconsiderando nada)
demonstre o que EXATAMENTE você acha que é conhecimento e verdade, além de serem dois rabiscos sem sentido e significado literal.'
Conhecimento é a informação que se conecta do mundo objetivo para o subjetivo, uma simbologia, através das manifestações arquetípicas e da personalidade. O que ao mesmo tempo imprime padrões, deixa marcas e fortes impressões no sujeito. Isto posto, o conhecimento parte do sujeito e não do livro (que é materialmente inanimado). É o sujeito quem disciplina o sujeito e não o contrário. O sujeito quem apreende o conhecimento. E concordo com você que o conhecimento é impossível, visto que é uma abstração, já que o ser humano não é absoluto em sua verdade "em absoluto", posto em Hegel. Não acredito nesse tipo de conhecimento estático, mas de processos, fases, instável, variável, defectivo, sobrepujado (entre parênteses, na fenomenologia).
Francieli, o que devemos fazer aqui é uma distinção:
1) O conhecimento absoluto (a incapacidade do conhecimento e a abstração).
2) O conhecimento em processos (por exemplo, o construtivismo pedagógico-social - Paulo Freire)
Ambos significam a mesma coisa. Mas eu alerto: não menospreze a segunda hipótese, pois é amplamente conhecida e estudada não só no Brasil, mas em todo o mundo. Como nossa discussão já escapou ao niislismo em grande parte, eu tomo a liberdade de fazê-lo.
Eu entendo perfeitamente a sua colocação do problema da linguistica, da Hermenêutica, coisa que estou estudando bastante para avitar falar asneiras.
Mas eu discordo veemente quando você diz:
"na minha interpretação um niilista seria um individuo completamente livre de valores ideologicos, morais, sentimentais, politicos no geral,etc"
Acredito que o niilista é aquele que coloca toda a verdade entre "parênteses" e desenvolve suas idéias a partir disso, buscando assim imprimirr e expressar o conhecimento para si (o verdadeiro conhecimento, aquele que parte do sujeito, da metalinguística e da metarrazão).
Acredito que o niilista seja isso: reduzir ao nada tudo aquilo que diz que é tudo. Se não fosse assim, sabe o que pareceria o niilismo? Uma abstração. Quando se diz de política, é importante salientar que alguns dos grandes filosófos niilistas tiveram marcante participação política e social em seu tempo!
não se engane, se um niilista é completamente livre dos valores que mencionei anteriormente não quer dizer ele foge deles, ou que é contra eles, apenas é completamente livre.
"claro civ, para você niilista tem que ser passivo, eu já entendi, mas além do x também existe o y, algumas coisas diferenciam um do outro porém ambos superaram os valores , ambos tem a mesma consciencia da existencia e do cosmo, ambos são niilistas, com diferença apenas de comportamento é exatamente por isso que se deve diferenciar x de y, não estou falando em se rotular."
Não disse que "niilista tem que ser passivo". Tanto conformidade quanto a "criação de novos valores" estariam dentro de uma perspectiva de que eles não existem, como bem disse. A questão é que não há, na vivência, essa clareza distinção desses comportamentos.
"na minha interpretação um niilista seria um individuo completamente livre de valores ideologicos, morais, sentimentais, politicos no geral,etc."
Não diria completamente livres, apenas que há uma ponderação mais crítica em suas aceitações, mas nada tem que implique necessárias adesões, afinal, não há parâmetros. O que pode-se fazer é justamente entender um algo, e ver sua procedência e até que ponto ela é o que alega ou aparenta ser.
"agora se um niilista escolhe destruir algo ou criar algo, como seria unicamente pela vontade momentânea (ou não tão momentânea assim), continuaria sendo niilista, pois a consciência não muda só por causa uma vontade infantil que quiz realizar,não vejo nenhuma ideologia nisso.(a não ser a própia vontade, ou a falta dela)"
O que evidentemente nos anularia como "niilistas" é a defesa e pensamento dogmático de uma ideologia ou uma causa, podendo ser inclusive essa a "niilista", confundindo-a como uma ideologia. Nada mais precisamos, intelectualmente, do que estar em posse de nossa razão e da lógica, aliado ao que possamos ter acesso e ao senso crítico quando necessário. Caso busquemos a coerência, ela nos levará ao niilismo, querendo ou não.
"neste caso x ou y representaria a total liberdade de sofrer alteração de personalidade e apenas isso, visto que a consciencia existencial é a mesma em x e y a unica diferença seria a passividade e a atividade.(nada muda em caracterizarme como y hoje e como x semana passada, não estou desconsiderando nada)"
Que nada mais seria do que um fato. Se o ponto é se é "passívo ou ativo", isso só diria respeito a algo que se altera ou pode se alterar, mas não em referência a uma mudança permanente.
quando disse completamente livres demonstrei alguns valores subjetivos como politica, uma ideologia, moral, enfim.
Eu reafirmo um niilista seria completamente livre , simplesmente por não ter um o que seguir e ser fiel .
civ
o que nos anularia como niilistas realmente seria ter e defender pensamentos dogmaticos de uma ideologia ou causa, mas a causa niilista muito dificilmete seria confundida com uma ideologia, visto que é apenas uma consciencia honesta da existencia sem afetos e compromisso com qualquer ideal.
-dificilmente será confundida por pessoas que de alguma forma já adentraram no raciocinio niilista e o compreendem como algo existencial.
-facilmente será confundida por pessoas que detectam apenas uma parte fragmentada do niilismo,que por ser fragmentada não passa uma noção real do niilismo existencial o que pode causar uma sequência de mau entendidos.
"Acredito que o niilista seja isso reduzir ao nada tudo aquilo que diz que é tudo."
você descordou veemente da minha interpretação de niilista, mas acabou demonstrando a mesma coisa que eu, porém com outras palavras.
nesse sentido o tudo seriam os dogmas dos valores subjetivos que mencionei, e o nada seria a liberdade encontrada após destruir os valores que o prendiam, após essa destruição (redução ao nada) ai sim a pessoa poderia ser considerada niilista pois passaria a viver livre do que a prendia.
Sim seria. O fato é que é possível "transformar" o niilismo em "ideologia", ao menos através de aparências, apenas como erro de interpretação ou com uma concepção não muito clara do mesmo. No entanto, seu conteúdo interno, é exatamente a aversão a mesma, que no fim trata-se apenas de um raciocínio e abordagem.
Agora um erro grave seria alguem interpretar como sendo uma ideologia qualquer posicionamento ativo de um niilista, visto que isso como você bem disse é apenas uma questão de humor e personalidade (e da porcentagem de cefeina que consome)
"Como destruidora de valores quero não apenas destruir os meus mas também outros."
estes outros valores que mencionei, são os da sociedade que afetam diretamente a mim, não é algo que procuro nas outras pessoas para destruir, e sim valores que as pessoas (sociedade) impoem e que privam a minha liberdade de opinião , escolha, crítica, e até de usar muitos raciocinios honestos, é exatamente isso que me move a ser ativa e sim querer destruir valores subjetivos que impedem (sim) de me expressar, viver, agir, conforme meus pensamentos.
se a pessoa tem um ideario ou não, pouco me importa desde que não o queira impor ao ponto de me prejudicar, mas a maior parte dos valores sociais acaba me atingindo de tal forma a ponto de me prender em algo que não sou, o niilismo ativo seria a unica defesa de nimha liberdade de pensamento niilista.
"Acredito que o niilista seja isso reduzir ao nada tudo aquilo que diz que é tudo."
você descordou veemente da minha interpretação de niilista, mas acabou demonstrando a mesma coisa que eu, porém com outras palavras."
Niilismo é isso, tudo bem. Mas o que me preocupa, na verdade, é em especial sobre a questão dos valores (quando disse que tudo deveria ser colocado entre parênteses), a questão que coloquei logo em seguida:
- Me preocupa que algumas linhas de pensamento niilistas, se deturpadas, podem sugerir alguns tipos de fascismos (às vezes sutis).
Dizem por ai alguns racionários, diga-se intelectuais burros, que o niilismo seria o pai do fascismo (por esses princípios). Tal como se não houvesse outros tipos de ideologias destrutivas antes mesmo do pensamento niilista.
Enfim, Francieli, agora também você esclareceu alguns pontos de vista seus, o que anularia essa possibilidade. Voltamos a questão Sartreana "O humano está condenado a ser livre". Perdoem-me por escapar um pouco do niilismo, mas uso isso para dizer que o objetivo do niilismo não é necessariamente reduzir todo valor humano a nada, o que desmoralizaria o humano (tornando-o fascista), mas sim de evocar sua natureza livre! Não desmoralizar, mas libertar.
"O que evidentemente nos anularia como "niilistas" é a defesa e pensamento dogmático de uma ideologia ou uma causa (...) isso só diria respeito a algo que se altera ou pode se alterar, mas não em referência a uma mudança permanente."
Bom, CIV, é nisso que acredito. Vejo fora disso apenas uma abstração. Mais uma forma (outra) de se alienar.
Por fim, honestamente, o contexto do pensamento e da dialética niilista torna-se demasiado estreita diante do mundo como está, culminando inevitavelmente na abstração, ou num pensamento dogmático.
Não leve a mal, mas todos os caminhos levam a desenvolver sínteses que levam ao mesmo lugar (abstração).
Francieli, sobre a "impossibilidade do conhecimento", não sei se você conhece os trabalhos do Paulo Freire. Há ali grandes coisas, grandes esclarecimentos quanto ao conhecimento. Há também a Teoria do Conhecimento (outra parte fundamental). O conhecimento existe, negá-lo significa outro tipo de abstração.
Niilismo não pode e nem deve ser um tipo de racionalismo, mas sim uma abordagem. Uma metodologia. Um exercício da consciência.
Se se dizer que é niilista significa dizer que não se vai estudar outras coisas só porque em nada crê e todo conhecimento é nada por ser intangível, então o niilismo torna-se um tipo de prática alienante e de ostracismo. Como parte disto, uma abstração, pois o humano não é em-absoluto. O humano não pode fazer parte integral da paisagem (como uma pintura ou um retrato), nem ser fixado arbitrariamente no espaço geográfico. O humano é um movimento.
Muitas vezes o que vocês chamam de "subjetivo" para mim é mais objetivo do que qualquer outra coisa. Cultura, tradição, costume, religião, crença, razão, etc. Tudo isso são objetividades, pois para esta sociedade tudo se torna instituição. Instituição, isto é, objetividade.
Vale alertar que vivemos o período da objetividade (da razão) e não da subjetividade. Na verdade, o único caminho que podemos seguir para frustrar essa máxima objetividade, especialmente objetividade do mercado, é através do exercício da nossa própria subjetividade (me refiro especialmente às questões intrinsecas e criativas).
Eu gostaria de pontuar novamente o que disse lá trás. Pareceu algo sem contexto, mas volto a pôr aqui e espero que de forma mais contextual:
***
- Esse problema é também o problema da objetividade, visto que os processos de objectivação e sujeição dos indivíduos atualmente existentes conformam um tipo de instituição objectiva e determinada. O mundo das objetividades e objetivismos, isto é, dos próprios indivíduos objetivamente instruídos a lidar com o mundo de objetos sabidamete "conhecidos", que tendem então a culminar numa outra abstração, visto que toda verdade está sobrepujada (entre parênteses). Só dai (do nada) ocorrem os processos de subjetivação. Isto só aponta que o humano não é absoluto e se o fosse não poderia sê-lo, visto que é racional e arbitrário (limitado, determinado, objetivado).
Defendo apenas que existe nisto um processo deliberado de conhecimento, pois não se pode dizer que o homem das cavernas era menos sabido que o homem de hoje, já que antes era apenas um abstracto ao meio. Um processo consciente, afinal. Um processo de conhecimento (não o todo absoluto, mas as partes, em especial a compreensão do detalhe).
Quando disse que não existe motivos para mudar minha interpretação, é em ralação ao suposto significado da palavra conhecimento, visto que não há o que se conhecer dentro da subjetividade, o conhecimento significaria apenas sobre o real, e o resto seria informação e o entendimento da subjetividade humana.
"se dizer que é niilista significa não estudar outras coisas só porque em nada crê"
se já é dificil para as pessoas me entenderem, por não ser clara, imagina então se começarem a distorcer minhas palavras.
mesmo que eu concorde com alguma hipotese do que você chama de conhecimento, eu chamaria isso de entendimento sobre alguma informação ou experiência , não conhecimento ( é igual a você chamar de mexirica e eu de bergamota) .
eu chamaria de (interpretação) entendimento de uma informação ou experiência e você chamaria de conhecimento, o problema é que você teria 2 atribuições diferentes à mesma palavra(conhecimento absoluto e fragmentado) e eu apenas 1, a probabilidade de me entenderem melhor aumenta, apesar de ainda ser pequena essa probabilidade (eu diria que a probabilidade de eu me enrolar diminui).
Agora em relação a desmoralizar: a destruição da moral seria por simplesmente não existir o certo e o errado, o bem e o mal ( tudo isso é relativo), estes juizos valorativos de certo e errado, dever e não dever, bem e mal são invenções da nossa subjetividade, assim como deus, assim como o sentido de nossa existencia .(não consigo compreender como um ser humano pode ser livre carregando valores pré estabelecidos por uma sociedade) é justamente libertando-se destes valores falsos que o individuo percebe sua própia liberdade e insignificancia, no momento que ele adquirir esta consciencia e decidir se conformar passivamente (pois não tem o que se fazer, visto que seria um desperdício de forças para nada) ou decidir reagir ativamente ( vendo que depois dos valores destruidos o própio individuo quer reafirmar a vida pela própia vida e criar seus própios valores) ai sim das duas maneiras poderia ser considerado um niilista, o primeiro considerado incompleto e o segundo completo.
Está certo. É a mesma coisa, utilizando outras palavras. Metalinguística, afinal.
Só queria reforçar que apesar da "impossibilidade do conhecimento" estamos "condenados a ser livres" e a buscar isso como o significado (conhecimento) da própria vida.
As pessoas comuns encontram qualquer "besteirol" (mexirica ou bergamota) para se alienarem e me preocupa demais essa questão da "desmoralização", pois isto seria destruidor para muitas (a maioria das) pessoas, assim como foi alimento para o fascismo.
Vejo nisso o exercício da consciência e vejo nisso, assim como você, para "ele adquirir esta consciência e decidir [...]".
O que esta secularidade tenta fazer todo tempo é justamente anular a subjetividade dos sujeitos para máxima capturação da objetividade (se não o seu sequestro, por assim dizer). Os motivos disto são óbvios, devido a verticalidade da lógica de mercado. Certo ou errado, bom ou ruim, bem ou mal, são juízos da razão objetiva. O emprego deliberado da razão e da lógica para a compreensão do mundo. Vivemos quase quinhentos anos disto, desde o Iluminismo. Trocou-se um absoluto (religioso), por outro (científico). Agora é hora de pensar em outro tipo de consciência, o que é e será sempre subjetivo, nem um absoluto, nem o outro, mas o sujeito.
Eu não vejo necessidade alguma em comparar a desmoralização (niilista) com o fascismo, até porque as palavras mencionadas nos discursos fascistas eram de sentido religioso e moralista (mas vejo necessidade em você ler a genealogia da moral-nietzsche)
Nunca compare o niilismo com uma alienação, pois o que faz as pessoas se alienarem são os valores morais ( alienando-se a si mesmas)
O que o niilismo faz não é anular a subjetividade dos sujeitos e sim adquirir consciência de que ela nem precisa ser anulada, não tem sentido, propósito, finalidade, importância , e depois ter uma reação passiva ou ativa.
consciência do sujeito = niilismo
Vejo isso, algum discurso, aqui e ali e me deparo com o que talvez tenha motivado aquele contexto.
Não disse que o niilismo é a alienação do sujeito (eu jamais aceitaria isso), apenas disse que os sujeitos atualmente se alienam com qualquer coisa. Isto não parte da filosofia, mas dos sujeitos.
Não se pode ver isto com ingenuidade e por isso identificar as contradições. Como disse, do meu ponto de vista a discussão é demasiado estreita.
Consciência do sujeito. Pronto, a gente sai no mesmo front.
De Jean-Pierre Faye:
"a explicação por meio da metafísica de Nietzsche é a explicação por meio do niilismo enquanto ele se manifesta sempre com maior nitidez sob a forma política do fascismo [...]".
"O seu dizer era: nazismo? [...] Ninguém desconhecerá, após o desmoronamento do Reich hitlerista, que o nazismo é niilismo, já que reduziu a Europa a "nada"..."
Vou colocar esses trechos aqui só para fazer uma breve reflexão. Nem bom, nem mau, nem bem, nem ruim. Apenas o contexto. O problema filosófico e a contradição. A partir de 1945 o niilismo passou a ser usado contra o próprio fascismo, mas antes disso, o fascismo era considerado o próprio niilismo (a sua personificação).
O que motivou as pessoas a acreditarem em determinados discursos não foi as falas de nietzsche e sim porque quem discursava, antes e depois das falas mencionava moralidades e frases como:
- acho que minha conduta esta de acordo com o criador todo poderoso
- como cristão tenho o "dever" de não me deixar enganar, tenho o "dever" de lutar pela verdade e pela justiça
Se as pessoas alemãs daquela época fossem livres da moral, o povo nunca teria acreditado naquela asneira, que não tinha nada a ver com o pensamento de nietzsche, que foi destorcido.
Assim como palavras da biblia foram destorcidas e cientistas foram perseguidos ao logo de seculos, e "bruxas" foram queimadas, etc.
Resumir a influencia do niilismo apenas para o lado negativo é ridíclo, porque sempre terá um lado negativo em tudo.
Eu conheço em muito o trabalho de Nietzsche. Conheço e apreendo de tal modo que busco tantas informações quantas são possíveis. Não apenas de Nietzsche, mas também de Freud. Como compreender Freud sem estudar Jung? Veja bem, pois o mesmo ocorre com Nietzsche.
Estudar Nietzsche assim arbitrariamente é tão anacrônico quanto estúpido. É preciso ter contexto. Quero saber quem era, qual foi o pensamento e o que foi feito do ensinamento do mestre de tantos pontos de vista quantos forem possíveis, pois é impossível reviver aquele presente.
Por favor não me julgue pela minha opinião, uma vez que não posso abstraí-la, ao que você chama de "impossibilidade de conhecimento". Não posso ser em-absoluto. Tente apenas compreender essa preocupação. Não podemos limitar em dizer que "pessoas ( escritores) interpretaram de sua obra". Não podemos lidar com isso com tanta ingenuidade ao refletir sobre um dos maiores filósofos de todos os tempos como "bom" ou "ruim", do "bem", ou do "mal".
Infelizmente não se pode dizer da cultura alemã exatamente, pois é uma das coisas mais paradoxais, fascinantes e estudas hoje em dia. Não há dúvidas disto. As origens germânicas são tão misteriosas até mesmo para os maiores historiadores-arqueólogos. Mas como já disse, o niilismo torna-se demasiado estreito para isto pelos motivos: 1) a abstração; 2) o individualismo filosófico.
Não é aqui a questão de defender ou afirmar o niilismo (como isto é chato). É simplesmente compreendê-lo, como se manifesta realmente? Simplesmente não tenho respostas para isto (e creio que ninguém tenha, se não, não haveria de ter crises, nem guerras, nem tamanhas e violentas contradições). Por favor não me diga que a conclusão disto é que o humano é mau.
Vou (por mim mesmo) chamar isto de O Paradoxo do Niilismo (em especial pela questão do fascismo de toda uma geração niilista). E termino aqui por enquanto minha cruzada Niilista para buscar outras respostas que estão para além dele.
1- ambos sonhavam com uma sociedade superior
-a do nietzsche seria de homens que superaram os valores individualmente.(homens livres)
- a do hitler seria por uma suposta "raça" superior ( nietzsche debocharia de hitler se fosse vivo na época do nazismo)
2- em relação aos judeus:
- nietzsche criticou veemente os judeus por criarem valores falsos.
- hitler matou cruelmente judeus por achar que a raça superior seria a ariana.
( duvido que nietzsche carregaria no braço a suastica, simbolo de ignorancia nazista)
3- ambos não eram compassivos
- nietzsche não era compassivo por achar que sentir pena de quem é que fosse era um sentimento baixo, para fracos.
- hitler não era compassivo pois era cruel, e tinha desejo de morte.
4- hitler leu muitos livros de nietzsche, pois era o maior filosofo da alemanha.
mas como podemos perceber hitler destorceu completamente as palavras de nietzsche, interpretou mau, esqueceu o contexto em que o filosofo as colocava.
Eu duvido que Nietzsche faria qualquer tipo de reverencia ao nazismo, ele sentiria nojo de alguem tão ignorante como Hitler que achava que o homem superior pudesse ser definido pela etnia.
O que falar dos filósofos Niilistas após Nietzsche? Um em especial: Martin Heidegger (pronto, falei). Um gênio, sem dúvidas. Há nisto grandes lições. Isto deveria ser melhor estudado. Mas parece que é proibido às pessoas ter consciência.
Especialmente no pós 1945 o Niilismo passou a ser utilizado contra o próprio fascismo (inclusive por seguidores de Heidegger).
Como eu vou chegar aqui e dizer que o maior filósofo de todos os tempo é Platão, ou Kant? É preciso ter contexto.
"Raça superior" em relação a dominação dos judeus. "Raça Superior" era um marketing. Os bancos, as fábricas, os melhores empregos, cargos, trabalho especializado, tudo era dos judeus em território alemão (a Alemanha dos não-alemães).
"- hitler matou cruelmente judeus por achar que a raça superior seria a ariana."
Hitler matou cruelmente os judeus por achar que este seria o único caminho para a liberadade do seu povo e o verdadeiro "niilismo!".
"- hitler não era compassivo pois era cruel, e tinha desejo de morte."
Hitler não era compassivo. Apesar de haver gente que ainda hoje diz que ele não sabia dos massacres (ha, ha, ha). Nisto há apenas que ressaltar que Nietzsche não estava imerso no terrível contexto pós-primeira guerra (uma alemanha sem Alemães). Uma nação culturalmente forte sem nenhuma perpespectiva de futuro. Economicamente, politicamente, territorialmente e socialmente desmobilizada e desmoralizada por motivo de tratados.
"hitler leu muitos livros de nietzsche, pois era o maior filosofo da alemanha."
Não apenas Hitler. Toda uma geração de grandes influências. Uns taxados de loucos, outros de gênios. Outros gênios de verdade, outros nem tanto.
você fez questão de aprofundar um detalhe que eu disse achar desnecessario.
pois quando uma pessoa procura saber o que é niilismo entra em um site, e já de cara percebe o nome de hitler associado ao niilismo, pode causar uma serie de maus entendidos, isso é que me preocupa.
N ão fala o que você não sabe, pois eu gosto do heidegger, pelo jeito você já possui sua interpretação estabelecida do niilisto muito anterior a ler este texto , nunca disse que o povo alemão era mau.
" hitler matou cruelmente os judeus por achar que esse seria o unico caminho para a liberdade de seu povo o verdadeiro "niilismo"
não foi hitler que matou sozinho, eloquentemente convenceu o povo atrvés do marketing (muito bem comprado por sinal), de que os arianos eram superiores, não tem nada de niilismo verdadeiro nisto, você está sendo imparcial e já possuia uma opinião veemente dos niilistas, parece que não precisa trocar mais informações, você ja definiu e rotulou o niilismo, parabens.
Em resumo, atribuir um sentido ou um não-sentido à totalidade da existência são ambas posições metafísicas, sendo que a última levanta uma pseudo pretensão de ser "melhor" ou mais "racional", enquanto ambas seriam segundo Wittgenstein, nada mais que baboseiras sem sentido, já que a ciência só pode dizer o que é ou não é o caso. Especulações metafísicas como o niilismo, teismo, ateismo, etc. são igualmente absurdas por não terem objeto.
O niilismo (tal como está descrito no texto), pertence ao Plano Moral por ser metafísico. É como se anulasse a si próprio e levasse junto a angústia que ele mesmo causa e que permite o avanço.
Acho que estão confundindo as metafísicas com fé. Fé que ''não é o sucedâneo afetivo daquilo que não posso compreender racionalmente; tampouco é um estágio provisório que dura apenas enquanto não se completam e fortalecem as luzes da razão.É, definitivamente, um modo de existir.''
Para mim, niilismo é isso: saltar imediatamente da razão e da ética para onde o entendimento é cego. Não é ''esterilizar'' a razão, mas usar o solo fértil.A filosofia deve ser imanente à vida.
A especulação desgarrada da realidade concreta não orientará a ação, muito simplesmente porque as decisões humanas não se ordenam por conceitos, mas por mudanças. Falo sobre todas as decisões humanas (que o niilismo destrói).
Estou procurando ''Algo-mais-que-a-razão'' (ou seria menos?), pois a que eu tinha, destruiu-se sozinha.
Senti falta de ''o individual se explicar pelo sistema e o particular, pelo geral'', como entendi do comentário da Lidia Radke. Uma ''fé quântica'' ou ''ego exterior''. Não pretendo subestimar esse ''ego exterior''. O niilismo simplesmente o superestimou. Nem sua verdadeira natureza foi reconhecida.
Pandora, quando abriu a caixa (vide boceta), liberou todos os males sobre os homens. Vejo Pandora como a criadora da humanidade, logo, do existencialismo. Lembrem-se que ainda há esperança, e ela vem da própria boceta. :D
*E apontem onde minha lógica não tem sentido também... estou morrendo de sono e posso ter me expressado mal.*