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A Morte
O Grande Desengano. O laço formado com inconstância pela criação é desfeito pela morte,
sendo a penosa aniquilação o principal erro do nosso ser; o grande
desengano.
A Filosofia; Filha da Morte. Morte, gênio inspirador, a musa da filosofia. Sem a qual dificilmente se teria filosofado.
A Noite Eterna. Quão longa é a noite da eternidade comparada com o curto sonho da vida.
Não Sobreviver; Persistir. A indestrutibilidade que a duração infinita da matéria oferece, poderia
consolar aquele que não pode conceber outra imortalidade. “O quê?” –
dir-se-á – “a persistência de uma matéria bruta, de um pouco de pó,
seria a continuidade do nosso ser?” Sim, um pouco de pó. Conhecem o que
é esse pó? Aprendam a conhecê-lo antes de o desprezar. Essa matéria, pó
e cinza, dentro em pouco dissolvida na água, brilhará no esplendor dos
metais, projetará faíscas elétricas, manifestará o seu poder magnético,
converter-se-á em animal e em planta, e no mistério de sua essência
criará essa vida, cuja perda chora amargamente nosso espírito acanhado.
Não será nada, então, persistir na indestrutível matéria?
Dogma da Imortalidade. A natureza nos ensina a doutrina da imortalidade, quando se observa, no
Outono, o pequeno mundo dos insetos, e se nota que um prepara o leito
para o longo sono do Inverno, que outro prepara o casulo onde se
transforma em crisálida, para renascer na Primavera, e que, enfim,
esses insetos se contentam, quando próximos da morte, em colocar os
ovos em lugar favorável para renascerem um dia rejuvenescidos, num novo
ser? A natureza nos expõe a esses exemplos com o intuito de demonstrar
que não há diferença fundamental entre a morte e o sono; ambos, perigo
algum constituem à existência. O cuidado com que o inseto prepara a
célula, o buraco, o ninho e o alimento para a larva, que há de nascer
na Primavera, e morre, uma vez isso feito, – assemelha-se muito ao
cuidado com que o homem, à noite, arruma a roupa, prepara o almoço para
o dia seguinte, indo depois dormir sossegadamente. E isto não
sucederia se o inseto que morre no Outono não fosse exatamente igual ao
que deve nascer na Primavera, assim como o homem que se deita, é o
mesmo que se levanta no dia seguinte.
A Vida e a Morte. Nascimento e morte são condições da vida, e se equilibram, formando os
dois pólos, as duas extremidades da existência, e ao seu redor giram
todas as suas manifestações. Um símbolo da mitologia hindú, a mais
sábia de todas, dá como atributo a Siva, o Deus da morte e da
destruição, um colar de caveiras e o “lingam”, órgão e símbolo da
geração, pois o amor é a compensação da morte, e um ao outro se
neutralizam. Para tornar mais evidente o contraste da morte do homem
com a vida imortal da natureza, os gregos e os romanos adornavam os
seus sarcófagos com baixos relevos figurando danças, caças, lutas entre
animais, bacanais e, numa palavra, todos os espetáculos de uma vida
mais forte, mais agradável e alegre, e até mesmo sátiros unidos a
cabras.
Necessidade da Morte. A individualidade do homem tem tão pouco valor que nada perde com a
morte; há alguma importância nos característicos gerais da humanidade,
que são indestrutíveis. Se concedessem ao homem uma vida eterna,
sentiria tanta repugnância por ela que acabaria desejando a morte,
farto da imutabilidade de seu caráter e de seu ilimitado
entendimento. Se exigíssemos a imortalidade perpetuaríamos um erro
porque a individualidade não deveria existir, e o verdadeiro fim da
vida é livrar-nos dela. Se não houvesse penas e trabalhos, acabaria o
homem por enfastiar-se, e voltaria a sofrer as dores do mundo em tudo o
que se encontrasse ao seu alcance. Num mundo melhor o homem não se
sentiria feliz, o essencial seria fazer com que ele seja o que não é,
isto é, transformá-lo completamente. A morte realiza a principal
condição; deixar de ser o que é; tendo isto em conta, concebe-se-lhe a
necessidade moral. Ser colocado noutro mundo, e mudar inteiramente de
ser, é no fundo uma só e mesma coisa. Seria conveniente que a morte,
que destruiu uma consciência individual, a reanimasse de novo dando-lhe
uma vida eterna? Qual o conteúdo, quase invariável desta
consciência? Uma torrente de idéias e preocupações mesquinhas,
acanhadas, terrenas. Melhor seria deixá-la repousar eternamente.
Supremo Consolo. Contemplando a expressão de suave serenidade refletido no rosto da
maioria dos mortos, parece que o fim de toda a atividade da vida, seja
um consolo para a força que a mantém.
Indiferença da Natureza perante a Morte. A vida e a morte, o nascer e o morrer, é o maior jogo de dados que
conhecemos; ansiosos, interessados, agitados assistimos a cada partida,
porque a nossos olhos tudo se resume nisso. A natureza, pelo contrário,
que é sempre sincera e nunca mente, contempla a partida com ar
indiferente, não se preocupa com a morte ou a vida do indivíduo,
entregando a vida do animal e também a do homem a todos os acasos, não
fazendo o mínimo esforço para os salvar. Esmagamos sem querer o inseto
que se acha em nosso caminho; a lesma necessita de todo meio para se
defender, não pode fugir, esconder-se, nem enganar, está condenada a
ser presa de todos os seus inimigos; o peixe saltita tranqüilamente na
rede ainda aberta; o sapo devido a sua moleza não pode salvar-se; o
pássaro não vê o falcão voar sobre sua cabeça, nem a ovelha vê o lobo
que a espreita oculto na mata. Todos esses animais inofensivos e
fracos, vivem no meio de perigos ignorados, dos quais podem ser vítimas
a todo momento. A natureza exprime com esse procedimento, no seu estilo
lacônico, oracular, que lhe é indiferente a destruição de seus seres,
não podendo ser por eles prejudicada, e que em casos semelhantes tão
indiferente é o efeito como a causa. Por isso abandona sem defesa esses
organismos, obras de uma arte eterna, à vontade do mais forte, aos
caprichos da sorte, à crueldade da criança, ao mau numor de um imbecil.
A natureza, mãe soberana e universal de todo o criado, sabe que quando
seus filhos sucumbem, voltam ao seu seio, onde os conserva ocultos,
expondo-os a mil perigos sem temor algum; a sua morte é para ela um
divertimento, um jogo. A natureza é indiferente no que se relaciona ao
homem ou ao animal; não se deixa impressionar conosco, durante a vida
ou na morte. Tampouco devíamos nos comover porque fazemos parte
dela.
A Folha Seca Interroga o Destino. Se dirigíssemos o pensamento para um longínquo futuro e procurássemos
representar-nos às futuras gerações com os milhões de homens distintos
e diferentes de nós pelos usos e costumes, perguntaríamos a nós mesmos:
“De onde vieram? Onde estão agora? Onde se achará o profundo seio do
nada, produtor do mundo, que os oculta?” Mas a esta pergunta, devíamos
sorrir, por onde se poderá achar senão onde toda a realidade é, e será,
no presente em tudo o que este representa e contém, em ti, insensato
que interrogas, pois ignorando a tua própria essência, assemelhas-te a
uma folha seca que oscila no ramo de uma árvore, e, no Outono, pensando
na sua próxima queda, lamenta sua sorte, sem querer consolar-se com a
idéia dos tenros brotos que na Primavera virão adornar a árvore. E a
folha seca se queixa: “Já não sou eu, serão outras folhas”. Oh! folha
insensata onde queres tu ir? De onde poderiam vir as outras folhas?
Onde está esse nada em que temes sucumbir? Reconhece, pois, o teu
próprio ser oculto na força íntima, sempre ativa da árvore, nessa
energia que não acarreta a morte nem o nascimento de todas as suas
gerações de folhas. Não sucede com as gerações de homens o mesmo que
com as folhas de uma árvore?
A Dor
A Vida é Dor. Quem deseja, sofre; quem vive, deseja; a vida é dor. Quanto mais
elevado é o espírito do homem, mais sofre. A vida não é mais do
que uma luta pela existência com a certeza de sermos vencidos. A
vida é uma incessante e cruel caçada onde, às vezes como caçadores,
outras como caça, disputamos em horrível carnificina os restos da
presa. A vida é uma história da dor, que se resume assim: sem motivo
queremos sofrer e lutar sempre, morrer logo, e assim consecutivamente
durante séculos dos séculos, até que a Terra se desfaça.
Deus, Criador. Se é certo que um Deus fez este mundo, não queria eu ser esse Deus: as
dores do mundo dilacerariam meu coração. Se imaginássemos um demônio
criador, ter-se-ia o direito de lhe censurar, mostrando-lhe a sua obra:
“Como te atreves a perturbar o sagrado repouso do nada, para criares
este mundo de angústia e de dores?”
Nosso Inferno. O inferno de nossa vida supera o de Dante no ponto de que cada um de
nós é o demônio do seu vizinho. Há também um arquidemônio, a quem
os outros obedecem: é o conquistador, que dispõe os homens uns em
frente dos outros e lhes grita: “Vosso destino é sofrer e morrer;
portanto, matem-se mutuamente”. E assim procedem os homens.
O Melhor dos Mundos. Se mostrássemos aos homens as horríveis dores e os atrozes tormentos a
que está constantemente exposta sua existência, tremeriam de espanto; e
se ao mais convencido otimista fizéssemos visitar os hospitais, os
lazaretos, as salas de tortura dos cirurgiões, as prisões, os campos de
batalha, os tribunais de justiça, os sombrios refúgios da miséria, e se
por último, o fizéssemos contemplar a torre de Ugolino(1), acabaria por reconhecer de que modo é este “o melhor dos mundos possíveis”.
Nosso Mundo; Modelo de Horrores. Se considerarmos a dificuldade que teve Dante em descobrir o céu e suas
alegrias, logo se verá que classe de mundo é o nosso. Por quê? Porque o
nosso mundo nada apresenta de análogo. E para descrever o Paraíso
viu-se o poeta obrigado a dar parte das notícias que lhe deram os seus
antepassados, sua Beatriz e vários santos. Sem dúvida, Dante descobriu
muito bem o Inferno. Por quê? Porque achou o assunto e o modelo na
realidade do nosso mundo.
A Tragicomédia de Nossa Vida. Vista e examinada minuciosamente de alto e de longe, a vida de cada
homem tem o aspecto de uma comédia; em sua total consideração ou em
seus aspectos mais dignos de apreço, se apresentará como uma
contemplação trágica. O afã e o trabalho de cada dia, os desejos e
receios cotidianos, as desgraças de cada hora, os acasos da sorte
sempre disposta a nos enganar são outras tantas cenas da comédia. As
aspirações iludidas, as ilusões desfeitas, os esforços baldados, os
erros que completam nossa vida, as dores que se acumulam até terminar
na morte, o último ato, eis a tragédia. Parece que o destino quis
juntar o escárnio ao desespero, e, fazendo de nossa vida uma tragédia,
não nos permite conservar a dignidade de uma personagem
trágica. Por isso é que em todos os atos da vida representamos o
lamentável papel de cômicos.
Da Dor ao Aborrecimento. A dor e o aborrecimento são os dois últimos elementos entre os quais
oscila a vida do homem. Os homens exprimiram esta oscilação de modo
curioso; depois de haverem feito do inferno o lugar de todos os
tormentos e dores, que deixaram para o céu? Justamente o
aborrecimento.
Rio Abaixo. A vida é um mar cheio de escolhos e turbilhões que o homem evita à
força de prudência e cuidados, sem embora desconhecer que, à medida que
avança sem poder retardar a marcha, corre para o definitivo e
inevitável naufrágio, a morte, fim fatal de sua acidentada navegação, é
parte ele muito mais perigoso que todos os turbilhões e escolhos de que
conseguiu escapar.
Disfarces da Dor. Nossos esforços para banir a dor de nossa vida não conseguem outro
resultado senão o de fazê-la mudar de forma. Em sua origem tomam o
aspecto da necessidade, cuidado, para atender as coisas materiais da
vida, e quando, após um trabalho incessante e penoso, conseguimos
afastar a horrível máscara da dor neste determinado aspecto, adquire
outros mil disfarces, segundo a idade e as circunstâncias: o instinto
sexual, o amor apaixonado, a inveja, o rancor, os ciúmes, a ambição, a
avareza, o temor, a enfermidade, etc. Toma o aspecto triste e desolado
do tédio, da sociedade, quando não encontra outro modo de se
apresentar. E se com novas armas conseguimos afastá-la novamente,
recuperará sua antiga máscara, e a dança recomeça.
Condenados à Morte. Na primeira mocidade, colocamo-nos perante o destino, como as crianças,
que, em frente ao pano de um teatro, impacientes e alegres, esperam as
maravilhas que virão surgir em cena. É uma felicidade não podermos
saber nada de antemão. Para quem sabe o que realmente vai se passar, as
crianças são inocentes condenados não à morte, mas à vida, e que
desconhecem ainda a sua sentença.
Todos Desterrados. Se não fosse a dor, poderíamos dizer que a nossa existência no mundo
não teria nenhuma razão de ser. É um absurdo pensar que a dor, que
nasce da vida e enche o mundo, seja apenas um acidente, e não o próprio
fim. Cada desgraça pessoal apresenta-se com uma exceção, mas, como
somos todos desgraçados, a desgraça geral é a regra.
Vivemos Combatendo. Na desgraça, pensar em outros que são mais desgraçados, é o nosso maior
consolo: é este o remédio eficaz ao alcance de todos. Porém, como os
carneiros, que saltam no prado, enquanto o carniceiro faz a sua escolha
no meio do rebanho, assim, em nossas horas felizes, não sabemos que
desastre nos prepara o destino, justamente nesse momento: enfermidade,
ruína, loucura, perseguições, etc. Tudo que defendemos, resiste-nos,
tudo tem uma vontade hostil que é preciso vencer. A história nos diz
que a vida dos povos é uma sucessão de guerras e revoltas; os anos de
paz não passam de curtos entreatos. O mesmo acontece com a vida do
homem, em constante luta contra as penas ou o aborrecimento, males
abstratos, e contra seus semelhantes. Em todas, as partes e
ocasiões temos que travar combate com um adversário. A vida é uma
guerra sem quartel, e a morte nos encontra com as armas na mão.
O Tempo, Mais um Tormento. A rapidez do tempo, que se conserva atrás de nós como um vigia dos
forçados, é mais um tormento da existência, que nos faz viver
apressadamente sem sossego e sem deixar-nos respirar. São poupados
semente aquele que o tempo condenou ao aborrecimento.
Necessidade da Dor. Todos nós necessitamos sofrer certo número de preocupações, de penas e
misérias, da mesma maneira que um barco tem necessidade de lastro para
conservar seu equilíbrio. Se assim não fosse, se súbito nos
libertássemos do peso da dor e das contrariedades,o orgulho do homem o
faria em bocados ou pelo menos ele seria levado às maiores
irregularidades e até à loucura furiosa, do mesmo modo que o nosso
corpo rebentaria se repentinamente deixasse de sentir a pressão
atmosférica. O quinhão de quase todos os homens durante sua vida
resume-se em pesares, trabalho e miséria, porém, se todas as aspirações
humanas se realizassem, como que se preencheria o tempo? O que
preencheria sua vida? Se os homens vivessem no país das fadas, onde
nada exigisse esforço e onde as perdizes voassem já assadas e recheadas
ao alcance da mão, num país, onde cada um pudesse obter a sua amada sem
dificuldade alguma, eles morreriam de tédio ou se enforcariam, outros
despedaçar-se-iam entre si, causando-se maiores males que os impostos
pela natureza. E isto demonstra que para nós não há melhor cenário que
aquele que ocupamos, nem melhor existência do que a atual. Se pensamos
(e só é possível ter-se uma idéia aproximada) na dor, nos tormentos de
todas as espécies que o sol ilumina no seu curso, sentimo-nos propensos
a desejar que a sua luz perca o poder criador da vida, como acontece
com a Lua, e que a superfície do nosso planeta se faça tão gelada e
estéril como a do astro da noite.
A Grande Mentira da Vida. Nossa vida é um episódio que perturba, sem nenhuma utilidade, a
serenidade do nada. Mesmo aquele que não considera a existência como
uma carga, à medida que passam os anos tem a consciência clara do que a
vida é, em todos os seus aspectos, uma imensa mistificação, para não
dizer uma formidável zombaria.
O Espectador se Aborrece. O homem que sobrevive a duas ou três gerações pode ser comparado ao
espectador de um circo, que assiste às mesmas farsas duas ou três vezes
seguidas. Como a farsa estava calculada para uma única representação
sua repetição não causa efeito no ânimo do espectador, o qual se
aborrece por estarem dissipadas a ilusão e a novidade.
Uma Bela Expressão. A vida é uma carga enfadonha e aborrecida, uma tarefa que devemos
desempenhar com tanto trabalho, que involuntariamente pensamos no
descanso: e neste sentido a palavra defunctus é uma bela
expressão.
Vítimas e Algozes. Povoado por almas torturadas e por diabos que torturam, o mundo é um imenso inferno.
A Filosofia não é o Catecismo. Ainda ouvirei dizer que a minha filosofia entristece tudo, isto porque
digo a verdade àqueles que só gostariam que eu lhes dissesse: “Deus,
Nosso Senhor fez tudo muito bem”. Ide à igreja, e deixai os
filósofos em paz, ou, pelo menos, não lhes exijam que ajustem as suas
doutrinas ao vosso catecismo. Recorrei aos filosofastros e
encomendai-lhes teorias ao vosso gosto. Não há nada que dê mais
prazer ou que seja mais fácil do que perturbar o otimismo dos que
ensinam filosofia.
A Dor de Viver. Se o ato da geração fosse somente obra de razão e reflexão, em vez de
ser uma necessidade ou uma voluptuosidade, subsistiria a espécie
humana? Não sentiríamos piedade pela geração futura, para lhe poupar a
dor de viver, ou, ao menos, não hesitaríamos em impor-lhe a sangue frio
tão pesada carga?
Inveja e Compaixão. Não há uma só pessoa que seja verdadeiramente digna de inveja; e quantas são dignas de compaixão.
Pranto, Dor e Aborrecimento. Nossa razão se obscurece ao considerarmos que as inúmeras estrelas
fixas, que brilham no céu, não têm outro fim senão o de iluminar mundos
onde reinam o pranto, a dor, e onde, no melhor dos casos, só vinga o
aborrecimento; pelo menos a julgar pela amostra que conhecemos.
O Mundo; Lugar de Expiação. Brama criou o mundo por uma espécie de pecado ou desvário, e permanece
nele para expiar sua falta. – Muito bem! – Segundo o budismo, uma
perturbação inexplicável criou o mundo, produzindo-se depois um longo
repouso na beatitude serena, chamada Nirvana, que será conquistada pela
penitência. Perfeitamente. Para os gregos o mundo e os deuses eram a
obra de uma necessidade insondável, explicação admissivel, porque nos
satisfaz provisoriamente. Ormuzd combate com Ariman: isto podemos
admitir. Mas um Deus como esse Jeová, que animi causa, por seu
belprazer, criou este mundo de lágrimas e dores, e que ainda se alegra
e se aplaude de o haver criado, achando-o bom, isso já é demasiado
forte. Sob este ponto de vista, podemos considerar a doutrina dos
judeus como a última entre todas as que professam os povos civilizados,
sobretudo, sendo que tomemos em consideração de ser ela a única que não
possui qualquer vestígio de imortalidade. Ainda que a teoria de
Leibnitz fosse verdadeira, embora se admitisse que entre os mundos
possíveis este é o melhor, essa demonstração não nos daria nenhuma
teodicéia, porque o Criador não se limitou a criar o mundo, mas também
a possibilidade de sua criação: por isso deveria ter criado um mundo
melhor. A dor que enche o mundo protesta irada contra a hipótese de uma
obra perfeita devida a um ser infinitamente bom e sábio, e também todo
poderoso. E, por outra parte, é bem evidente a notória imperfeição, a
burlesca caricatura que é o homem, obra acabada da criação. Não é
possível explicar essa dissonância. Quando consideramos o mundo como
obra de nossa própria culpa, e, portanto, como alguma coisa que não
pode ser melhor, as dores e miséria da humanidade são provas em apoio
desta tese. Se o mundo é obra de um criador, as dores voltam-se contra
ele dando lugar a cruéis sarcasmos; mas se é obra nossa, a acusação é
contra o nosso ser e a nossa vontade. Isto nos faz pensar que
viemos ao mundo já viciados, como os filhos de pais gastos pelos
desregramentos, e que se a nossa existência é tão miserável, e tem por
desfecho a morte, é porque assim merecemos, para expiar nossa
culpa. Generalizando, nada é mais certo: a culpa do mundo é que
causa os sofrimentos, e entendemos esta relação no sentido metafórico,
e não no físico e empírico. Por isso, a história do pecado original
reconcilia-me com o Antigo Testamento; para mim é a única verdade
metafísica que o livro contém – expressa em forma alegórica. A nada se
assemelha tanto nosso destino como à conseqüência de uma falta, de um
desejo culpado. Para ter orientação na vida, e considerar a vida em seu
verdadeiro aspecto, basta habituarmo-nos ao pensamento de que este
mundo é um vale de lágrimas, em lugar de penitência; a penal colony,
como a definiram os mais antigos filósofos, e alguns padres da Igreja.
Não é mister que eu diga o que vale a sociedade de nossos semelhantes;
aquele estão conscientes que mereciam outra melhor, assim como se sabe
que não é a menor pena do presidiário a sociedade em que ele se
encontra. Um espírito elevado, uma alma delicada, um gênio pode sentir
a mesma necessidade de isolamento que um nobre prisioneiro que se
encontra na cadeia rodeado de criminosos vulgares. Se sempre nos
lembrássemos de que viemos ao mundo para expiar uma culpa, acolheríamos
sem surpresa e sem indignação as imperfeições de nossos semelhantes, os
tormentos que aqui sofremos, cuja miserável constituição intelectual e
moral se revela até no rosto. A certeza de que o mundo e o homem não
podem mudar nos encheria de dó pelo próximo. Com efeito, que
podemos esperar de tais seres? Penso, às vezes, que a melhor maneira
dos homens se cumprimentarem em vez de ser “Cavalheiro, Senhor, Sir”,
poderiam ser, “companheiro de sofrimentos, soci malorum, my
fellow-sufferer”... Por mais irritante que pareça esta expressão, tem
mais fundamento que as usuais, e recorda-nos a paciência, indulgência e
amor ao próximo, e, usada por todos, beneficiaria a cada um.
A Dor é a Única Positiva. Do mesmo modo que o rio corre manso e sereno, enquanto não encontra
obstáculos que se oponham à sua marcha, assim corre a vida do homem
quando nada se lhe opõe à vontade. Vivemos inconscientes e desatentos:
nossa atenção desperta no mesmo instante em que nossa vontade encontra
um obstáculo e choca-se contra ele. Sentimos ato contínuo tudo o que se
ergue contra a nossa vontade, tudo o que a contraria ou lhe resiste: ou
o que é mesmo, tudo o que nos é penoso e desagradável. No entanto, não
prestamos atenção à saúde geral do nosso corpo, mas percebemos
ligeiramente aonde o sapato nos molesta; não pensamos nos negócios e só
nos importamos com uma ninharia que nos incomoda. Isto quer dizer
que o bem-estar e a felicidade são valores negativos, e só a dor é
positiva. É um absurdo acreditar o contrário; que o mal é negativo. Ele
é positivo, porque se faz sentir. Toda a felicidade, todo o bem é
negativo, e toda a satisfação também o é, porque suprime um desejo ou
termina um pesar. Acrescentamos a isto que, em geral, nunca
sentimos uma alegria maior que a que sonhávamos, e que a dor sempre a
excede. Se quereis certeza das diferenças entre o prazer e a dor,
comparem a impressão do animal que devora outro, com a impressão do
devorado.
Bolhas de Sabão. O homem só vive no presente, que se converte no passado, e afunda-se na
morte. Exceto as conseqüências que podem influir no presente, e
que são filhas de sua vontade, ou de seus atos, a sua vida passada já
não existe. Devia portanto ser-lhe indiferente que esse passado fosse
de prazeres ou tristezas. O presente foge-lhes das mãos,
transformando-se no passado. O futuro é incerto. Fisicamente, o andar
não é mais do que uma queda evitada a cada instante; da mesma maneira a
existência é a morte suspensa, adiada, e a atividade de nosso espírito
não é mais que uma luta constante contra o tédio. É pois fatal que a
morte alcance a vitória. Por haver nascido lhe pertencemos, e durante
nossa vida não faz senão brincar com a presa antes de a devorar. E
assim como quem faz bolhas de sabão, e apesar da segurança de que
acabará por rebentar, se entretém em fazê-la aumentar de volume, assim
seguimos o curso de nossa existência, prodigalizando-lhe cuidados e
atenções.
A Felicidade Não Pode Viver no Presente. A vida é uma constante mentira, quer nas coisas pequenas como nas
grandes. Quando nos faz uma promessa, não a cumpre, a não ser para
mostrar-nos que era pouco desejável o nosso desejo. Da mesma maneira
nos engana a esperança quando não se realiza o que esperávamos. E se a
vida cumpre o que nos prometeu, é só para nos tornar a tirar. A beleza
do paraíso, que à distância admiramos, desaparece logo que nos deixamos
seduzir. A felicidade está no futuro, ou no passado; o presente é uma
pequena nuvem escura que o vento impele sobre a planície cheia de
sol. Diante e atrás dela, tudo é luminoso; só a nuvem é que
projeta uma sombra.
A Vida na Paz e na Guerra, e Sua Finalidade. A vida nunca se apresenta como um mimo que nos é dado gozar, mas sim
como uma tarefa que tem de se cumprir à força de trabalho; disto nasce
e toma origem uma concorrência sem tréguas, uma luta sem fim, uma
miséria geral, uma agitação em que tomam parte todas as forças do
espírito e do corpo. Milhões de homens, reunidos em nações, trabalham
para o bem público, trabalhando assim cada um em seu próprio interesse,
porém, as vítimas deste trabalho morrem aos milhares. Às vezes, por
preconceitos absurdos, outras, por uma política sutil, as nações se
aniquilam numa guerra. É preciso que o sangue do povo corra em
abundância para expiar a culpa de alguns, ou para realizar os caprichos
de outros. Enquanto reina a paz no mundo, a indústria e o comércio
prosperam, as invenções se multiplicam, os navios sulcam os mares,
transportando para toda parte produtos do mundo, as ondas tragam
milhares de homens. O tumulto é imenso, enquanto uns se agitam e movem,
outros meditam. Mas qual é a suprema finalidade de tantos esforços?
Manter, no caso mais favorável, a vida de seres efêmeros em uma miséria
suportável, e uma ausência relativa de dor que o tédio aceita
constantemente, e ademais a reprodução desses seres, e a renovação de
seus esforços.
Indefesa do Homem. De todos os seres, o homem é o mais necessitado: só tem vontades e
desejos, um conjunto de centenas de necessidades. Abandonando a si
próprio, vive na terra sem segurança nenhuma a não ser sua miséria. A
luta pela vida, cada dia renovada, a necessidade que o constrange, e as
imperiosas exigências materiais, preenchem a sua existência. Ao mesmo
tempo, outro instinto o atormenta; o de perpetuar a sua raça. Ameaçado
por todos os lados pelos perigos que o rodeiam, usa de sua prudência
sempre vigilante para poder escapar. Com passo inquieto, lançando em
volta olhares angustiosos, segue o seu caminho em luta constante com os
casos e com seus inúmeros inimigos. O homem não se sente seguro
entre os da sua raça e nem nos mais longínquos desertos. Qualibus in
tenebris vitae, quantisque periclis degitur hocc'aevi, quodcunque est!
Lucr. 11, 15.
Trabalhar ou Aborrecer-se. A necessidade imperiosa do homem é assegurar a existência, e feito
isto, já sabe o que fazer. Portanto, depois disso, o homem se esforça
para aliviar o peso da vida, torná-la agradável e menos sensível:
“matar o tempo”, isto é, fugir ao aborrecimento. Livres da preocupação
de assegurar a existência, e livres seus ombros de todo fardo moral ou
material, eles mesmos constituem sua própria carga, e sentem-se felizes
porque viveram uma hora desapercebida, embora isto significa que sua
vida a qual se esforçam com tanto zelo para prolongá-la, ficou
encurtada pelo mesmo espaço de tempo. O aborrecimento merece tê-lo
em conta; ele se reflete na fisionomia. O aborrecimento é a origem do
instinto social, porque faz com que os homens, que pouco se amam, se
procurem e se relacionem. O Estado considerado como uma calamidade
pública, e por prudência toma medidas para o combater. O aborrecimento
como o seu extremo oposto, a fome, pode impelir o homem aos maiores
desvarios; o povo precisa panem et circenses. Fundado na solidão e na
inatividade, o rude sistema penitenciário de Filadélfia faz do
aborrecimento um instrumento de suplício tão terrível, que mais de um
condenado tem-se suicidado para fugir a ele. A miséria é
sofrimento pungente do povo; o desgosto é para os favorecidos. Na vida
civil, o domingo significa o tédio, e os seis dias, o desgosto.
A Felicidade é um Sonho. Sentimos a dor, mas não a ausência da dor; sentimos a inquietação mas
não a ausência; o temor, mas não a tranqüilidade. Sentimos o desejo e a
aspiração, como sentimos a sede e a fome; mas, apenas satisfeitos, se
acabam, como o bocado que, uma vez engolido, já não existe para o nosso
paladar. Enquanto possuamos os três maiores bens da vida, saúde,
mocidade e liberdade, não temos consciência deles, e só com a perda
deles é que os apreciamos, porque são bens negativos. Somente os dias
de tristeza é que nos fazem recordar as horas felizes da vida
passada. À medida que os prazeres aumentam, nossa sensibilidade
diminui; o hábito já não é um prazer. As horas passam lentamente quando
estamos tristes; correm rapidamente quando são agradáveis; porque a dor
é positiva e faz sentir sua presença. O aborrecimento nos dá a noção do
tempo e a distração nos faz esquecer. Isto prova que a nossa existência
é mais feliz quando menos a sentimos: de onde se deduz que mais feliz
seríamos se nos livrássemos dela. Uma grande alegria, assim não a
julgaríamos se ela não viesse atrás de uma grande dor. Não podemos
atingir um estado de alegria serena e duradoura. Esta é a razão
porque os poetas são obrigados a rodear seus protagonistas de tristes
ou perigosas circunstâncias, para no fim os livrar delas. No drama e na
poesia épica, o herói sofre mil torturas: nos romances os heróis lutam
pondo em relevo os tormentos do coração humano. “A felicidade não
passa de um sonho – dizia Voltaire, tão favorecido pelo destino? – a
única realidade é a dor”. E acrescenta: “Há oitenta anos que a
experimento e nada faço senão resignar-me e dizer a mim mesmo que as
moscas nasceram para serem comidas pelas aranhas, e os homens para
serem devorados pelos desgostos”.
O Eterno Estribilho. Vista exteriormente assombra a insignificância da vida da maioria dos
homens, vista interiormente é sinistra e lúgubre. Formada por inúmeras
dores e aspirações impossíveis, o homem passa sonhando pela meninice,
mocidade, virilidade e velhice, rodeado de idéias banais. Os homens
assemelham-se a relógios que não sabem porque andam: cada vez que um
novo ser nasce, dá-se corda no relógio da vida humana para seguir
repetindo o eterno e gasto estribilho de uma caixa de música, frase por
frase, compasso por compasso, com pequenas variações.
Joguetes da Natureza. O homem, cada um dos homens, é um sonho a mais, um sonho fugaz criado
pela tenaz e constante vontade de viver, imagem efêmera que o espírito
infinito da natureza desenha na página do tempo e do espaço; impressa
nela alguns instantes logo se desfaz para dar lugar a muitas outras. O
mais triste, o ponto que nos deve fazer pensar profundamente, é que a
vontade de viver há de pagar cada uma dessas imagens efêmeras e
caprichosas com o preço de dores profundas e inúmeras, e da morte por
longos anos. Eis porque nos tornamos repentinamente sérios perante um
cadáver.
O Teatro e os Artistas. O mundo é um vasto campo de batalha onde os seres somente devorando-se
uns aos outros conseguem conservar e defender a vida; onde todo animal
carnívoro é o túmulo vivo de tantos outros; onde o viver significa
sofrer longos tormentos; onde a capacidade para a dor aumenta na
proporção da inteligência, e atinge, portanto, no homem o mais elevado
grau. Os otimistas quiseram adaptar o mundo ao seu sistema, e
apresentá-lo a prior como o melhor dos mundos possíveis. O absurdo
é evidente. Dizem-me para abrir os olhos e contemplar a beleza do céu
iluminado pelo sol, as montanhas, os vales, as torrentes, as plantas,
os animais, que sei eu! Acaso será o mundo uma lanterna mágica? A
contemplação é bela, confesso, mas aí representar, é coisa
completamente diferente. Após o otimista surge o homem que nos
fala das causas finais, e elogia as sábias leis que preservam os astros
de se chocarem no seu percurso; que evitam o mar e a terra de se
confundirem, e os mantém separados; que faz com que nem o frio nem o
calor sejam eternos, e que, pela inclinação da eclítica, não permite a
primavera, ser eterna podendo assim amadurecer os frutos, etc. Mas tudo
isso não são mais que simples “conditiones sine quibus non”. Porque se
os planetas devem ter uma existência mais longa, embora seja o período
que demora em chegar a eles a luz de uma estrela longínqua, e se não
desaparecem após o nascimento, era preciso que as coisas estivessem mal
arquitetadas, para que a base fundamental ameaçasse ruína. Chegamos aos
resultados desta obra tão elogiada, e observamos os atores que se
movimentam nesta, tão sábia e solidamente construída. Vemos que a dor
aparece juntamente com a sensibilidade, e à medida que esta se torna
inteligente, a dor e o desejo caminham par a par, e o primeiro chega a
tal desenvolvimento que finalmente, a vida do homem nada mais é que um
assunto trágico ou cômico. A sinceridade de certos homens não lhes
permite a união ao coro dos otimistas, e com eles entonar a aleluia.
A Vida é um Pesado Gracejo. Se considerarmos a vida objetivamente, é duvidoso que ela seja
preferível ao nada. Atrever-me-ia até a dizer que se a reflexão e a
experiência pudessem fazer um acordo, elevariam a voz em favor do nada.
Se batêssemos nas pedras dos sepulcros e perguntássemos aos mortos se
querem ressuscitar, moveriam negativamente a cabeça. É esta a opinião
de Sócrates na Apologia de Platão. O alegre e feliz Voltaire dizia:
“Amamos a vida, porém o nada não deixa de ter o seu lado bom”. Em outra
parte dizia: “Ignoro o que seja a vida eterna, mas esta é um pesado
gracejo”.
De Ontem a Hoje. A
juventude é uma infatigável aspiração de felicidade; a velhice, pelo
contrário, é dominada por um vago e persistente sentimento de dor,
porque já estamos nos convencendo que a felicidade é uma ilusão, que só
o sofrimento é real. Por isso, o homem sensato deseja mais sofrer que
gozar. Em plena juventude, quando eu ouvia bater à porta, saltava de
alegria, e pensava: “Bom! Alguma coisa sucede”. Mais tarde,
experimentado pela vida, o mesmo ruído sobressaltava-me de angústia, e
pensava: “Que sucederá, meu Deus?...”
A Dura Jornada. Na velhice ao perder os sonhos da sua juventude todo homem que estudou
a história do passado e a da sua época, e recolheu o fruto da sua
experiência e da alheia, se não estiver com o espírito perturbado por
preconceitos muito arraigados, chegará à conclusão de que este mundo é
o reino do acaso e do erro, que é governado a seu modo sem compaixão
alguma, auxiliados pela maldade e pela loucura, que ao homem empolgam
constantemente. Mil trabalhos e esforços é preciso para impor uma idéia
nobre, porque dificilmente encontra uma oportunidade de apresentar-se,
enquanto que a vulgaridade artística, os sofismas, a malícia e a
astúcia reinam de geração em geração, aqui e alhures sem serem
interrompidos.
Nota:
1)
– Referência à obra “A Divina Comédia” (Inferno, canto XXXIII), de
Dante Alighieri, que viveu entre os anos 1265-1321. “Ugolino foi murado
numa torre com os filhos. Quando o desespero lhe inspira um gesto
equívoco – morder as próprias mãos –, os filhos lhe oferecem a própria
carne para mitigar sua fome. Ugolino recusa. Morrem os filhos. E o pai
acaba por lhes comer os cadáveres antes de por sua vez perecer”. |