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      01/12/2011

    Poderíamos ter moralidade sem um senso de empatia? Em outras palavras, teríamos comportamentos morais sem a capacidade de nos colocarmos no lugar do outro? Se tirarmos da equação a vontade do agente moral, provavelmente sim. Afinal de contas, não é porque comportamentos tenham motivações individualistas que suas consequências não possam ter resultados bons para a comunidade, ou que não sejam moralmente adequados.

    Mas o que queremos saber é se, sem qualquer senso de existência dos sentimentos dos outros ― como no caso de crianças jovens, que ainda não o desenvolveram ou que ainda não têm nos estágios comparáveis ao dos adultos ―, teríamos ferramentas suficientes para saber se tal ou qual atitude é ou deixa de ser moralmente válida ou aceita. A resposta, provavelmente, é não. É assim que vemos psicopatas ou sociopatas: como pessoas que nunca tiveram ou que perderam a capacidade de entender que seu comportamento causa sofrimento nos outros, apesar do óbvio prazer que lhes proporciona.

    Com o avanço dos estudos do cérebro, hoje sabemos que grande parte do que consideramos empatia tem a ver com o nível de um hormônio chamado ocitocina. E o mais interessante é que a sua função primordial não é essa. Originalmente, a ocitocina é liberada, nas mulheres, durante as contrações uterinas do parto e durante a ejeção de leite nos anos de amamentação; já nos homens, é principalmente liberada durante o contato físico com sua prole.

    Em síntese, é direcionada aos filhos, mas também tem importância em parceiros de longa data. Trata-se, portanto, de um belo recurso biológico para que cuidemos das relações duradouras e da descendência que delas resulta. Mas não é novidade que temos afeição especial pelos familiares mais próximos ― é uma estratégia que nos garante bons resultados, dada a reciprocidade e a segurança resultantes. Nesse círculo mais íntimo, é possível ver as maiores atitudes consideradas altruístas, bem como a proteção familiar que beira o nepotismo.

    A empatia seria, então, a expansão desse carinho dedicado somente aos familiares próximos para outros membros das aglomerações sociais. Por isso, aliás, é que estudiosos contemporâneos tendem a dizer que os conflitos mundiais tendem a diminuir conforme expandimos nosso círculo afetivo, fato acelerado pelas relações de comércio da economia globalizada e pela crescente revolução das comunicações, que contribuem para que tenhamos melhores informações sobre os outros, tirando-os da lista de inimigos e de revolta preconceituosa. Hoje, podemos ter, com relativa facilidade, contatos e negócios com pessoas dos mais diversos lugares do planeta.

    Ao isolarmos a molécula de ocitocina, poderíamos, em tese, usá-la para termos resultados mais empáticos em todas as pessoas. Bastaria encontrar alguma forma de inseri-la em nosso organismo sem maiores efeitos colaterais. Como consequência, seríamos todos mais empáticos e tenderíamos a escolhas moralmente mais adequadas, por considerarmos os outros como variáveis importantes para a resolução de dilemas. Há, no entanto, desdobramentos desse tratamento que, como qualquer outra inovação médica ou tecnológica, geram problemas filosóficos.

    Um dos primeiros poderia ser o uso heterônomo da substância. Poderíamos impor o seu uso ou fazê-lo sem o consentimento do paciente? Afinal, se uma das causas de crimes graves por sociopatas ou psicopatas é a insuficiência de ocitocina, não seria mais fácil medicá-los para que possam conviver normalmente em sociedade? Seria moralmente adequado exigir tal tratamento como parte da pena pelos delitos? Seria aceitável que tivessem as outras penas restritivas diminuídas em face do tratamento? Essas indagações dependem muito da função da pena adotada pela sociedade.

    Ainda no Direito, poderíamos pensar nas consequências jurídicas de um tratamento preventivo, e não interventivo. Em outras palavras, seria aceitável que tomássemos doses periódicas do medicamento, como uma vacina? Se sim, seria exigível? Qual seria a punição, em caso de descumprimento? Nesse caso, devemos pesar a liberdade individual e a intervenção estatal nessa liberdade. Como tal, o Estado teria o ônus argumentativo e precisaria justificar esse tipo de medida, demonstrando, além da relação causal entre ela e o resultado pretendido, que ela é a menos gravosa para que os fins sejam satisfeitos.

    Grande parte da ojeriza por tais métodos de tratamento vem de nossa programação inata. Somos irremediavelmente essencialistas, no sentido de procurarmos uma essência imutável, inerente às coisas e às pessoas. Logo, se uma pessoa tem propensão à violência, não importa por que tipo de tratamento ela venha a passar — desde sessões de ioga ou de assistência psicológica, até medicamentos e tratamentos hormonais —, sempre seremos céticos com relação à imagem daquela pessoa que outrora ocupara nossas mentes. Não é assim que enxergamos evangélicos convertidos após uma vida inteira de ações pouco louváveis?

    É esse tipo de pensamento que desemboca no que veio a ser conhecido como livre-arbítrio. Em parte, mesmo sabendo que não temos tanto controle assim, parece que continuamos a acreditar que as pessoas devem ser responsáveis por seus atos ― e principalmente que devem ser punidas indefinidamente, com penas não raro claramente desproporcionais em tempo ou em violência. Obviamente, o determinismo biológico não é suficiente para que isentemos os indivíduos de seus atos, mas as medidas retribucionistas acabam por exagerar o poder de decisão à disposição, quando da ação ou da omissão.

    Certamente, em um sentido puramente utilitarista, nada disso importaria. Mas o sentimento de repulsa pode ser alimentado um pouco mais. Vejamos. Até agora, falamos especificamente de tratamentos farmacológicos, mas há formas, digamos, “naturais” de conseguir ocitocina. A mais simples delas é trocando abraços. Parece simplória, mas o ato banal de afagar outro indivíduo com os seus braços aumenta a produção de ocitocina. Não teremos problemas se o abraço for sincero e despretensioso ― seja lá o que isso queira dizer. No entanto, imaginemos a situação daquelas pessoas que fazem campanha nas ruas, distribuindo abraços gratuitos a estranhos.

    Até que ponto nos sentimos bem com aquele gesto? Se realmente nos faz sentir algo bom, é tão bom quanto o carinho dado fora do movimento elaborado? Pensando com nosso íntimo, há alguma forma de resistência à ideia de sairmos à rua e abraçarmos estranhos, ou de sermos abraçados por eles? Sabemos do objetivo da empresa, mas existe algum sentimento de manipulação? Afinal, não estão estimulando um aparelho de recompensa de forma intencional e premeditada? Até que ponto isso é mais natural do que a injeção direta da ocitocina?

    Dito isso, é fácil constatar que chegamos a um momento do conhecimento científico no qual temos soluções satisfatórias para comportamentos humanos considerados danosos, mas que não nos sentimos bem ao utilizá-las porque elas nem sempre vão de encontro aos nossos instintos. Por mais que teorias avancem no campo de visão de pena, grande parte da população ainda deseja que criminosos paguem por seus crimes, numa alusão clara à lex talionis. Diferentemente da busca pela ressocialização do apenado, a simples retribuição ainda aparece aplacar melhor a “sede de justiça”, dificilmente distinta da vingança.

    Fazer com que todos entendam e aceitem a razoabilidade das novas medidas, passando por cima de ideias arraigadas e consoantes com nossa programação biológica, não parece ser uma opção viável ― ou, ao menos, fácil de conseguir. Nesses casos, devemos impor limites claros aos tipos de pena das quais o Estado poderá dispor contra o indivíduo, para que ele, livre das paixões humanas, possa dar continuidade ao processo civilizatório que tem dado resultados satisfatórios em conter a violência.

    Longe de afastar outras causas, tais como as necessidades de uma economia de mercado mundial, ganhamos muito em diminuirmos o número de linchamentos decorrentes da aplicação da vontade imediata de uma turba enfurecida. Assim como ganhamos em esperar comprovações antes de exigirmos a punição imediata daqueles que consideramos delinquentes ou criminosos. E exatamente como ganhamos ao não diferenciar indivíduos, pelos olhos do Estado, de acordo com suas peculiaridades ou das notícias que chegam até nós.

    Um mundo em que sejamos obrigados a tratar familiares e estranhos da mesma forma é praticamente inconcebível. Mas um mundo em que não tratemos tais estranhos como inimigos mortais, dignos de desconfiança e desprezo, é completamente factível, desde que usemos os mecanismos biológicos disponíveis em nosso favor, buscando atingir os fins que racionalmente desejamos. Pessoalmente, a escolha entre o equilíbrio da micro e da macroperspectiva é de caráter meramente moral ― e aqui passamos a depender dos níveis de ocitocina.

    Tratando isso como deficiência ou qualidades individuais, podemos traçar um limite razoável a ser respeitado por todos. Dessa forma, podemos ter casos em que nossa liberdade irrestrita vá de encontro à boa vida social, e, portanto, deve ser cerceada, segundo benefícios generalizados.

    Leituras recomendadas:

    BARASH, David P.; LIPTON, Judith Eve. Payback: why we retaliate, redirect aggression, and take revenge. Nova Iorque: Oxford University Press, 2011. [em inglês]

    KOGAN, Aleksandr et al. A thin-slicing study of the oxytocin receptor (OXTR) gene and the evaluation and expression of the prosocial disposition. Disponível online em: <http://www.psych.utoronto.ca/users/spa/news2/Papers/A thin-slicing study of the oxytocin receptor (OXTR) gene and the evaluation and expression of the prosocial disposition--Kogan et al 2011.pdf>. Último acesso em 30 nov. 2011. [em inglês]

    PINKER, Steven. Tabula rasa: a negação contemporânea da natureza humana. São Paulo: Cia. das Letras, 2004.

    PINKER, Steven. The better angels of our nature: why violence has declined. Nova Iorque: Viking, 2011. [em inglês]

    STEWART-WILLIAMS, Steve. Darwin, god, and the meaning of life: how evolutionary theory undermines everything you thought you knew. Nova Iorque: Cambridge University Press, 2010. [em inglês]

    VERPLAETSE, Jan et al (org.). The moral brain: essays on the evolutionary and neuroscientific aspects of morality. Nova Iorque: Springer, 2009. [em inglês]

    Vídeos recomendados:

    BLOOM, Paul. The origins of pleasure. Disponível online em: <http://www.ted.com/talks/paul_bloom_the_origins_of_pleasure.html>. Último acesso em 30 nov. 2011. [em inglês, com possibilidade de legendas em português]

    PINKER, Steven. Steven Pinker chalks it up to the blank slate. Disponível online em: <http://www.ted.com/talks/lang/en/steven_pinker_chalks_it_up_to_the_blank_slate.html>. Último acesso em 30 nov. 2011. [em inglês, com possibilidade de legendas em português]

    PINKER, Steven. Steven Pinker on the myth of violence. Disponível online em: <http://www.ted.com/talks/lang/en/steven_pinker_on_the_myth_of_violence.html>. Último acesso em 30 nov. 2011. [em inglês, com possibilidade de legendas em português]

    RIFKIN, Jeremy. The empathic civilisation. Disponível online em: <http://www.youtube.com/watch?v=l7AWnfFRc7g>. Último acesso em 30 nov. 2011. [em inglês]

    SAXE, Rebecca. How we read each other's minds. Disponível online em: <http://www.ted.com/talks/lang/en/rebecca_saxe_how_brains_make_moral_judgments.html>. Último acesso em 30 nov. 2011. [em inglês, com possibilidade de legendas em português]

    ZAK, Paul. Trust, morality ― and oxytocin. Disponível online em: <http://www.ted.com/talks/lang/en/paul_zak_trust_morality_and_oxytocin.html>. Último acesso em 30 nov. 2011. [em inglês, com possibilidade de legendas em português]

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      01/09/2011

    Olhando para uma fotografia, podemos reconhecer todos os traços peculiares que definem as nossas características físicas em um determinado recorte histórico de nossas vidas. Apontamos para ela e usamos o pronome “eu”, e, de certa forma, aquela representação somos nós, mas não exatamente nós. São referências para nós, mas não se confundem conosco. Assim, não importa o quão boa seja a definição de detalhes, a fotografia nunca passará de uma mera fotografia, enquanto nós somos o verdadeiro “eu”.

    O mesmo raciocínio pode ser estendido para outras formas artísticas de representação. A estátua de Davi, esculpida por Michelangelo, por mais bem que retrate o corpo nu de um homem, nunca será realmente um homem. Por analogia, podemos listar vários atributos que o grupo “homem” possui e que não podemos encontrar nessas representações. A mobilidade é um deles, certamente. Contra esse atributo específico, poderíamos, então, citar a representação cinematográfica, mas entenderíamos que há outros traços que escapam à tela.

    Pode parecer uma reflexão inócua, mas pensemos em algo mais limítrofe: as novas tecnologias nos permitem ter acesso a pessoas distantes, usando instrumentos de telecomunicações que envolvem, além da transmissão de voz, também a de imagens. Nesse caso, não será difícil dizer que estamos nos comunicando com pessoas “reais”, por mais que a imagem seja simplesmente uma representação em uma tela luminosa. Há, por assim dizer, uma essência que nos permite identificar quando nos relacionamos com humanos e quando observamos apenas uma representação deles.

    Escapemos, por ora, da discussão sobre termos acesso às pessoas em si ou somente à sua representação em nossas mentes. Continuemos, então, com a seguinte pergunta: com essa distinção em mente, qual das duas julgamos mais importante? A representação ou a pessoa representada? É de se imaginar que, ao menos majoritariamente, a resposta seja a segunda opção. Até porque, por mais que achemos, com a maior sinceridade, que a representação vale mais, dificilmente tiraríamos dela tanto proveito quanto tiramos do que é representado, em nossas relações diárias.

    Podemos abstrair ainda mais e tentar imaginar um mundo em que não precisamos mais de outras pessoas para sobreviver. Dessa forma, talvez, representação e representado pudessem competir de forma mais equânime. Mas, ao que parece, tudo o que a abstração nos traria como resposta é que nenhuma das opções tem qualquer valor senão o que lhes damos. No fundo, são os mesmos átomos, apesar de agrupados de formas diferentes. O fato de ganharem valores diferentes diz respeito apenas ao modo como encaramos os diferentes arranjos, de acordo, é claro, com nossos próprios interesses.

    Mas não há um desprezo total pelo que não é real. Nossa capacidade de imaginação, isto é, de visualizar imagens em nossas cabeças, parece ser a mãe de todas as representações. É com base nela que criamos arte, e essa arte não necessariamente segue as regras físicas que encontramos no mundo — apesar de Wittgenstein ter corretamente encontrado um limite geométrico para nossa abstração, conforme a Proposição 3.0321 de seu Tractatus Logico-Philosophicus. De fato, empenhamos boa parte de nossos recursos e de nosso tempo para promover a criação e a circulação de representações, sejam artísticas ou não.

    As obras artísticas, contudo, possuem um valor econômico consideravelmente alto, a depender de quem as tenha criado. Um quadro de Pablo Picasso, por exemplo, pode ser facilmente leiloado na cifra dos milhões em qualquer sistema monetário. São belíssimos, certamente, mas não são poucas as pessoas que não se perguntariam o porquê desse valor estar contido em poucos metros quadrado de tela com desenhos peculiares a óleo. Se falarmos com algum entendido do assunto, certamente teremos respostas, senão satisfatórias, mas, ao menos, teremos um mínimo de critérios sobre o qual refletir.

    E se, depois de investirmos uma boa quantia em uma obra de arte famosa, descobríssemos que se trata de uma falsificação? Ficaríamos furiosos — e não sem motivos! Mas a obra em si perderia algum traço? Deixaria de ser idêntica à original? Por que, então, o seu valor será tão depreciado? Por ser uma simulação, talvez? O valor da obra, nesses casos, parece escapar a simples representação, atingindo, não raramente, o valor intrínseco do artista. Até mesmo Picasso deve ter tido problemas em vender suas obras, no início de sua carreira. Uma boa explicação para isso poderia advir de sua técnica limitada ou de sua formação incompleta, mas tais obras, hoje em dia, também não são vendidas por valores exorbitantes?

    Por mais semelhantes que sejam, o Picasso original e o Picasso falsificado não comungam da mesma origem, da mesma essência. E isso, para nós, parece ter profunda significância. Tendemos a valorizar a história das pessoas e dos objetos para muito além do que poder-se-ia considerar razoável. E o padrão que vimos na arte funciona exatamente da mesma forma com produtos industrializados e o seu valor de mercado diferenciado entre uma grande marca e uma marca de menor expressão, por mais que a qualidade seja rigorosamente semelhante, em casos mais frequentes do que se pensa.

    O status é, indubitavelmente, uma das razões para que nos esforcemos tanto para obter produtos originais, mas o status em si já é uma consequência de algo anterior. Para que separemos as coisas entre mais ou menos valiosas, para muito além de sua utilidade primordial, é necessário que creiamos em uma doutrina essencialista, como se as coisas tivessem uma natureza diferente entre si. Ao que tudo indica, é uma habilidade que a seleção natural moldou em nós — e maiores aprofundamentos podem ser alcançados com a literatura da psicologia evolutiva sobre o caso.

    Outro exemplo que o nosso estado atual nos trouxe diz respeito à sexualidade. A modificação voluntária do corpo chegou a estágios em que é possível ter, para todos os efeitos, uma mudança de gênero. Podemos simplesmente tomar hormônios para mudar traços característicos de nossa sexualidade e complementar tudo com uma intervenção cirúrgica de mudança de sexo. Imaginemos, agora, que tenhamos passado um bom tempo admirando o rosto e o corpo de um belo espécime do sexo oposto somente para descobrir que se trata de um desses casos de mudança. Não é necessário sequer ser homofóbico para sentir na pele a mudança drástica de valor.

    Não é que as curvas do corpo, ou os seus músculos, ou qualquer outro traço físico atraente tenha perdido o seu valor, mas sentimos profundamente que há algo de errado com a essência daquilo que estávamos contemplando até bem pouco tempo. Como se tivéssemos sido, em semelhança ao caso da pintura, enganados por algum tipo de falsificação. Sem termos essa informação, dificilmente faria alguma diferença para nós apreciar um corpo “natural” ou “modificado”. Assim como não parece fazer diferença se nossos músculos vêm de boa formação genética ou de anos de anabolizantes e longos períodos de exercícios, mas sentimos que há.

    Tendo isso em vista, o que podemos dizer sobre a religião? Se nos perguntarmos sobre a existência de deus(es), desde que tenhamos um conceito definido em mente, a resposta será invariavelmente pela falta de evidências a favor, deixando a descrença como posição padrão. Mas essa é apenas uma das maneiras de enxergar a questão. Com esse entendimento sobre a nossa capacidade de representação e de valoração delas, podemos ver como algo aparentemente sem evidências pode gerar todos os fatos sociais aos quais já estamos bem acostumados presenciar.

    Mas como ateus reagem a essas manifestações? Em geral, com asco ou repulsa. Por discordarem da posição central que as gera, muitas vezes seu julgamento independe de qualquer beleza intrínseca que possa existir. A forma e o conteúdo, tão importantes para o julgamento de uma obra de arte, perdem espaço para a origem e a intenção por trás dela. Se isso não ocorre de forma tal a inviabilizar completamente a apreciação dos produtos, dificilmente deixará de ter seu peso na sua avaliação final. E o mesmo parece servir para manifestações culturais: uma procissão ou peregrinação de fé soa mais idiota do que bela, aos olhos de quem não crê nos seus benefícios.

    Como era de se esperar, tudo funciona como uma via dupla: grande parte dos religiosos tende a desprezar a ciência e a filosofia, especialmente porque, na grande maioria das vezes, são duas fontes de críticas às suas crenças. Assim, por mais que entendam o valor de utilidade desses estudos humanos, dificilmente concederão o argumento sem adicionar um “mas” que inclui as ressalvas sobre sua falibilidade e insignificância perante um conhecimento maior, representado na figura de suas divindades favoritas. A separação é arbitrária, mas faz todo sentido na cabeça do crente que a faz: “a ciência é boa para x, mas, quando se trata de y, ela não tem nada a dizer”.

    E que fique claro que isso independe do assunto em voga, pois está arraigado em nossos sistemas de comportamento. Falando sobre música, poucos são aqueles que preferem uma versão de uma canção que não a executada por seus artistas favoritos. E assim será nas mais diversas áreas de divergência por valoração. Na verdade, tendemos a aceitar, até certo ponto, os grupos que pensam diferente, mas isso também depende de nossa relação de afeto com os participantes desses grupos. No fundo, a imparcialidade continua sendo uma meta austera e valiosa, mas precisamos de ferramentas — muitas vezes externas a nós — para pô-la em prática.

    Uma saída para a tolerância pode ser encarar todas as posições como válidas, mas se, e somente se, não tivermos um objetivo em mente — descartando, é claro, todos os casos de desonestidade intelectual em favor da “falta de opinião sobre o assunto”. Todas as respostas para operações matemáticas serão válidas se não buscarmos as relações entre os numerais, mas somente algumas poucas — quando não somente uma — darão por satisfeitas um problema posto. Da mesma forma, uma opinião mais branda e menos tendente à segregação parece ser mais adequada à harmonia social, desde que seja esse o nosso objetivo.

    É nesse momento que os valores arbitrários podem se tornar perigosos. A aversão ao diferente pode ter consequências catastróficas, como bem mostram os conflitos religiosos e a exclusão de minorias. Contudo, antes de uniformizar o pensamento, tarefa hercúlea por natureza, parece ser necessário criar uma cultura de tolerância e de debate sobre as mesmas bases: de nada adianta discutir qual fruta tem o melhor gosto, mas podemos discutir qual delas possui maior quantidade de certa vitamina em nossa dieta. O conhecimento, assim, tem uma função apaziguadora muitas vezes ignorada, mas tão eficaz quanto sua capacidade de produzir progresso técnico-científico.

    Conhecer as razões para que tenhamos tal ou qual comportamento pode ser o ponto de partida para que mudemos a forma como ele se manifesta. O essencialismo pode ser natural, mas não dependemos tão-somente de nossa configuração biológica. Na verdade, grande parte de nosso sucesso evolutivo está na capacidade de usar tais configurações iniciais para nos adaptarmos a diversas situações sem depender de mecanismos puramente naturais. As discussões desse tipo passam pelas ciências sociais e políticas, mas ganham qualitativamente quando incorporam as descobertas científicas relacionadas em seu seio.


    Leituras recomendadas:

    HARRIS, Sam. The moral landscape: how science can determine human values. Nova Iorque: Free Press, 2010. [em inglês]

    SARTRE, Jean-Paul. A imaginação. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2008.

    WITTEGENSTEIN, Ludwig. Tractatus logico-philosophicus. 3. ed. São Paulo: EdUSP, 2001.


    Vídeo recomendado:

    BLOOM, Paul. The origins of pleasure. Disponível online em: <http://www.ted.com/talks/paul_bloom_the_origins_of_pleasure.html>. Último acesso em 28 ago. 2011. [em inglês com opção de legendas em português]

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      01/08/2011

    Temos uma inegável sede por conhecimento e, por muitas vezes, superestimamos a nossa capacidade individual de adquiri-lo. Afinal, somos seres dotados de consciência e de raciocínio, capazes de resolver problemas quotidianos com relativa facilidade. Sequer teremos maiores problemas em errarmos, visto que muito de nosso aprendizado é adquirido por vias de tentativa e erro. Não é à toa, portanto, que, quando classificamos as espécies, tendemos a nos separar dos outros animais por essas faculdades, culminando na distinção entre “racionais” e “irracionais”, felizmente em desuso nos meios de estudos biológicos.

    Mesmo assim, outras áreas insistem em valorizar nossa consciência. No direito, por exemplo, a capacidade do agente determina sua responsabilidade, seja no âmbito civil ou no penal. É com base nessa noção de graus de consciência que punimos mais severamente um criminoso que confessa seu gosto em torturar e matar suas vítimas do que aquele que acidentalmente provoca uma morte no trânsito. Mesmo que tenham matado o mesmo número de pessoas, temos uma forte impressão de que o resultado não foi exatamente idêntico, ainda que a razão para a discriminação não seja autoevidente.

    Esse tipo de julgamento moral que leva em conta a capacidade do agente encontra grande respaldo na doutrina cristã do livre-arbítrio, por mais que não seja a única a levá-lo em consideração. Segundo ela, as pessoas são dotadas de mecanismos suficientes para que possam escolher suas ações segundo sua própria vontade (voluntas), arcando com a responsabilidade por tal escolha. Para os cristãos que acreditam em uma vida pós-morte, o conceito é essencial para que seu deus possa diferenciar o destino de seus fiéis. Algumas divisões, como a católica, chegam ao ponto de considerar peccatum o próprio pensamento, mesmo que não seja acompanhado da ação.

    Essa doutrina enfrenta sérias críticas, principalmente aquelas relacionadas ao que se chama de determinismo, entendido, em seu sentido amplo, como a incapacidade de sermos completamente livres para escolher devido a relações de causalidade entre os fatos do mundo. Assim, nossas escolhas seriam determinadas por configurações, tanto biológicas, como sócio-culturais. Restaria pouco ou nenhum espaço para que a mente (mens) pudesse realmente exercer seu poder de escolha. Há, ainda, uma terceira linha, que diz ser possível a coexistência do livre-arbítrio com o determinismo, mas de maneira limitada: seríamos livres desde que pudéssemos ter agido de outra maneira.

    O compatibilismo, como assim é chamado, significaria um meio-termo entre o determinismo, que vem sendo invariavelmente comprovado por experimentos científicos, e o livre-arbítrio, ou qualquer outro conceito que traga a noção de liberdade para que continuemos a tratar os indivíduos de acordo com suas ações. Dessa forma, mesmo que possamos traçar uma relação entre desenvolvimento sócio-econômico e nível de criminalidade, não deixaríamos de punir criminosos, porque não há uma relação de obrigatoriedade, muito bem evidenciada pelos outros indivíduos na mesma situação que não recorrem ao crime.

    Os estudos sobre determinismo, no entanto, podem nos servir muito bem para que repensemos a forma como punimos tais transgressores. Diferenciar um assassino que tem prazer em matar daquele outro que nunca matara e fora influenciado pela situação de estresse continua sendo importante. Sem entrarmos no mérito de política criminal, não seria difícil alegar certa noção de justiça para que os dois tenham tratamentos diferenciados. Sentiríamos, muito provavelmente, um forte senso de contrariedade e de rejeição, caso a pena aplicada fosse a mesma — especialmente se fossem ambas severas, como a pena capital.

    Contraposto ao julgamento advindo da vontade ou da consciência, temos o consequencialismo, um tipo de ética que busca valorizar as ações de acordo com seus resultados ― relegando para um segundo plano a intenção. Um exemplo simples: uma doação generosa de um indivíduo consideravelmente rico é superior, com relação ao montante, ao salário integral de um trabalhador de baixa renda. Diferente do ensinamento de Jesus sobre a doação da viúva pobre (Marcos 12:41-44), a intenção dos dois pouco importa, caso nosso objetivo seja levantar um hospital para crianças carentes.

    Certamente, não há dúvidas de que uma doação voluntária parece ser mais generosa do que uma forçada — e temos o exemplo dos impostos para comprovar tal fato —, mas há alguma diferença prática, caso precisemos analisar as doações sem essa informação? Ao que parece, essa diferença de julgamento diz respeito ao tipo de personalidade que esperamos encontrar em nossas comunidades. Não basta que as ações gerem resultados satisfatórios, mas elas também precisam transparecer espontaneidade, possivelmente para assegurar que serão repetidas em situações semelhantes.

    Assim, por mais que o consequencialismo seja sensato, acaba por esbarrar em alguns problemas práticos: nem sempre estamos dispostos a fazer cálculos matemáticos para saber qual a melhor ação a ser tomada, principalmente quando há fatores emocionais envolvidos. A decisão entre salvar um membro próximo de sua família ou vários indivíduos desconhecidos pode gerar resultados imorais para quem não compartilhe a ligação de parentesco. Também não sentimos um forte apelo em matar um indivíduo para salvarmos a vida de outros tantos com os seus órgãos, como o cálculo de sacrifício poderia nos levar a pensar.

    Também nesse sentido, estudos recentes demonstram que nos afastamos de decisões consequencialistas conforme aumenta o nosso potencial de ação nas escolhas, como nos exemplos do dilema do bonde. Na sua versão mais comum, é necessário fazer uma escolha para que um bonde desgovernado faça o mínimo de vítimas próximas aos trilhos. Em algumas situações, o mesmo cálculo pode gerar resultados diferentes, a depender de nossa participação: o número de pessoas dispostas a sacrificar vidas humanas diminui conforme a necessidade de empurrar alguém nos trilhos ao invés de simplesmente mudar a rota do bonde, por exemplo.

    Tendemos, por tais fatores, a adotar o consequencialismo de maneira moderada, com algumas restrições que parecem conformar com o nosso senso de justiça. Uma delas, como Kant já afirmara, é a de que o homem deve ser um fim em si mesmo, não um meio para atingir outros objetivos. Há muita força teórica por trás da máxima, mas há alguns problemas com ela — e o principal deles é a própria definição de “homem”, que enfrentamos em casos limítrofes, como o da pesquisa com células embrionárias, do aborto e da eutanásia. Além disso, há certa relativização da máxima em casos de guerra, para citar um exemplo clássico em que pelotões inteiros podem ser sacrificados como forma de atrasar o inimigo.

    Mas não precisamos de exemplos tão drásticos. Pensemos na pesquisa médica. Por mais que os riscos sejam devidamente controlados, os voluntários certamente são expostos a mazelas para que a cura de certa enfermidade seja alcançada. Longe de adotar o pressuposto maquiavélico de que os fins justificam os meios, a ética consequencialista precisa sobrepesar os resultados da ação e da inação para que suas medidas sejam justificadas. E isso é notoriamente difícil de conciliar quando as decisões envolvem interesses pessoais. Mas há um tipo específico de sujeito que deveria, em tese, levar em consideração somente as consequências de suas ações.

    Em nossa sociedade, criamos as figuras dos entes públicos, dotados de personalidade jurídica. Tais sujeitos são responsáveis por zelar pela convivência pacífica e pelo respeito aos direitos e às garantias dos cidadãos sob sua tutela. Ao escolher como utilizar os recursos disponíveis, as prioridades devem ser compatíveis com o bem-estar da maior parte dos cidadãos, dadas as limitações orçamentárias e a incapacidade prática de agradar a todos com uma mesma medida. É um dilema enfrentado diariamente no que diz respeito, dentre outras áreas, a tratamentos médicos. As políticas de saúde envolvem, muitas vezes, deixar sem remédios certo número de indivíduos em benefício de outros.

    Definitivamente não gostaríamos que qualquer governo nos usasse como massa de manobra, mesmo em situações nas quais os benefícios superassem por muito os possíveis danos causados. No entanto, não é a única forma de o Estado tomar decisões pelos indivíduos. De fato, a parte estatal que cuida do comportamento de seus tutelados acaba ganhando mais evidência na forma de leis ― no seu sentido mais amplo ―, mas não se resume a isso. Há grandes séries de campanhas de conscientização, por exemplo. Através delas, busca-se o objetivo de espalhar ações consideradas ideais.

    Digamos, hipoteticamente, que certa medida tomada pelo governo fizesse aumentar o número de doadores de sangue. O simples fato de veicular propagandas já poderia ser responsável pelo aumento e seria difícil prever críticas a uma medida tão simples. Contudo, tentemos ir além: e se, baseado em estudos científicos, descobríssemos que poderíamos influenciar positivamente a decisão de doar sangue? Agora, por tudo o que já vimos, a decisão dos indivíduos parece ser afetada por algo externo à consciência, algo que manipula sua intenção, que retira, por assim dizer, parte de seu livre-arbítrio. Ainda seria uma medida aceitável?

    Em situações diferentes, o mero arranjo de produtos em um supermercado faz com que o seu consumo aumente significativamente. O mesmo pode-se dizer sobre a disposição de diferentes pratos em um restaurante de autosserviço. Em ambos os casos, o mecanismo é o mesmo: utilizar-se de nossa programação biológica para atingir objetivos desejáveis ― por mais que incentivar o consumo costume beneficiar uma das partes mais do que a outra. Estudos sobre o assunto deram o nome de “empurrão” (nudge) a esses estímulos quantificáveis que podem nos levar a fazer certas escolhas, dependendo das configurações postas.

    Tendo controle sobre algumas dessas variáveis, podemos manipular as escolhas dos indivíduos para que reflitam comportamentos desejáveis. Podemos implantar os “empurrões” nas escolas, fazendo com que os alunos optem por refeições mais saudáveis, por exemplo. Teoricamente, as aplicações são infinitas. No entanto, a ideia de que podemos ser manipulados pode gerar aflição. Mas, cientes de nossa falibilidade em controlar livremente nossas escolhas, abrimos várias possibilidades de reação: podemos simplesmente entender como tudo funciona e nos esforçar para que não caiamos em manipulações cujos resultados não coadunam com nossos desejos.

    A repulsa a esse tipo de manipulação não deixa de ser compreensível, mas devemos entender que não existe uma entidade responsável por manter todos os seres-humanos no melhor de seus escrúpulos ― e devemos realmente questionar se tais atos são necessariamente inescrupulosos. Mas devemos, acima de tudo, levar em consideração que o simples debate filosófico sobre intencionalidade e livre-arbítrio já não proporciona um entendimento satisfatório sobre a nossa máquina de fazer escolhas. Com isso em mãos, teremos uma abordagem mais sóbria e melhor embasada para nos levar para mais perto do que traçamos como nossos objetivos pessoais.

    Dotados de curiosidade, buscamos entender o funcionamento do mundo e devemos agir de acordo com as nossas descobertas, pois esperar dele uma essência que nós gostaríamos de encontrar pode ser reconfortante, mas leva a resultados que dependem da nossa capacidade de ignorar os dados que refutam nossas crenças mais íntimas. Afinal, se somos naturalmente enviesados, não seria mais útil aprendermos a usar tal viés em nosso favor? Se há uma configuração biológica que pode nos levar a escolhas impulsivas e relativamente inconscientes, não seria justo que a usássemos para nos “empurrar” àquilo que planejamos conscientemente?

     

    Leituras recomendadas

    HARRIS, Sam. The moral landscape: how science can determine human values. Nova Iorque: Free Press, 2010. [em inglês]

    KANT, Immanuel. Fundamentação da metafísica dos costumes. São Paulo: Martin Claret, 2002.

    PINKER, Steven. Tabula rasa: a negação contemporânea da natureza humana. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

    REALE, Miguel. Lições preliminares de direito. 27. ed.  São Paulo: Saraiva, 2002.

    SCHWARTSMAN, Hélio. Empurrõezinhos. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/colunas/helioschwartsman/869841-empurroezinhos.shtml>. Último acesso: 31 jul. 2011.

    THALER, Richard; SUNSTEIN, Cass. Nudge: improving decisions about health, wealth, and happiness. Carefree: Caravan, 2008. [em inglês]

     

    Vídeos recomendados

    DENNETT, Daniel. On our consciousness. Disponível em: <http://www.ted.com/talks/lang/eng/dan_dennett_on_our_consciousness.html>. Último acesso: 31 jul. 2011. [em inglês, com possibilidade de legendas em português]

    HARRIS, Sam. Science can answer moral questions. Disponível em: <http://www.ted.com/talks/lang/eng/sam_harris_science_can_show_what_s_right.html>. Último acesso: 31 jul. 2011. [em inglês, com possibilidade de legendas em português]

    PIGLIUCCI, Massimo. Neuroethics & the trolley dilemma. Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=NOfKyjyWiU0>. Último acesso: 31 jul. 2011. [em inglês]

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      15/07/2011

    Há um abismo entre a erudição mecânica e a erudição refletida. Uma grande quantidade de conhecimento desordenada não é útil como uma pequena quantidade sobre a qual se refletiu, sobre a qual se ponderou, que veio a tornar-se parte da bagagem do indivíduo, não como um penduricalho, mas como o próprio tecido de seu conhecimento, o mesmo que orienta sua vida prática. Muitos cultivam uma vida intelectual para impressionar os demais com citações sofisticadas e posturas excêntricas. Decoram um punhado de frases célebres que serão proferidas no momento oportuno como uma prova de inteligência. Leem obras complexas e obscuras apenas para demonstrar que seu intelecto é capaz de penetrar os mistérios mais profundos e concatenar as ideias mais mal amarradas. Tal conhecimento, entretanto, não lhes serve para nada. Trata-se somente de uma competição entre vaidades eruditas. Caso nossa intenção seja conhecer os benefícios autênticos da erudição, o primeiro passo consiste em abandonar a ideia de que, quanto mais, melhor. O segundo consiste em diminuir a distância entre nossas vidas e nosso conhecimento, de modo que, por fim, viver e conhecer tornem-se indissociáveis. Para tanto, precisamos ser organizados e metódicos em nosso aprendizado. Deixando de lado o pedantismo, passamos a cultivar uma erudição refletida e coesa, que se confunde com nós mesmos.

    Tenhamos em mente que o pensamento crítico, a ciência, a erudição, a filosofia só possuem valor na medida em que puderem ser vinculados à realidade, não necessariamente numa abordagem prática, mas numa visão mais esclarecida a respeito do mundo. Possuir uma vasta erudição baseada num conhecimento fechado em si mesmo não passa de um grande desvario. Eruditos dessa espécie pensam que o conhecimento nada tem a ver com a realidade. Enquanto possuidores desse saber, julgam que só devem satisfação às referências bibliográficas. Trancados nesse ponto de vista, passam a louvar o conhecimento como um fim em si mesmo, tornando-se incapazes de situar aquilo que sabem até nas questões mais elementares.

    Por mais que estudemos, só possuímos realmente um conhecimento quando conseguimos justificá-lo, seja para nós mesmos ou para outrem, e isso em qualquer área de nosso saber. Quem aceita ideias sem qualquer critério transforma sua mente num ferro-velho no qual tudo se mistura indistintamente. Como resultado, passamos a defender ideias que sequer compreendemos claramente. Quando confrontados, começamos a gaguejar e, embaraçados, dizemos que o assunto é demasiado complexo. Porém, isso acontece apenas porque nunca refletimos sobre o assunto. Quem sabe reproduzir mas não sabe explicar suas próprias opiniões é um impostor no mundo intelectual, e será desmascarado, cedo ou tarde, assim que se confrontar com um pensador autêntico.

    Para que consigamos pensar com clareza, nossa visão de mundo deve ser um todo organizado, sem grandes cisões entre a perspectiva teórica e a prática. Quando estudarmos algo, caberá a nós a tarefa de vincular esse aprendizado a todas as facetas da realidade. Como resultado, passaremos a viver aquilo que pensamos. Cada lição nos enriquecerá, nos tornará mais competentes em lidar com o mundo. Assim, quando chamamos um garçom e pedimos água, sabemos que falamos em português devido ao nosso passado colonial. Sabemos que a água é composta de oxigênio e hidrogênio, o mesmo oxigênio que as plantas liberam como resultado da fotossíntese, que surgiu como resposta a uma crise energética ocorrida nos primórdios da vida que, bilhões de anos depois, resultou em nossa existência, e assim por diante. Quando nosso conhecimento é coeso, encontramos relações mesmo entre os fatos mais distantes. Em nossa visão de mundo, nenhum fato deve ficar isolado, pois aquilo que aprendemos só passa a fazer sentido depois de articulado ao conjunto total de nossos conhecimentos.

    Se imaginarmos nossas mentes como uma casa, quando simplesmente decoramos fatos e teorias, estamos, na verdade, jogando objetos dentro dela sem qualquer ordem: deixamo-los espalhados pelo chão. Caso um dia precisemos deles, provavelmente não conseguiremos encontrá-los; caso alguém pergunte para que servem, não saberemos responder. Aqueles cômodos nos quais colocamos nossas crenças são os que ficam trancados à evidência: só entramos neles com a luz apagada; não nos permitimos ver, muito menos tocar os objetos em seu interior. Ou seja, desperdiçamos espaços valiosos com algo que na verdade não nos pertence, pois os dedicamos à superstição. A reflexão, nessa ótica, seria o hábito de mantermos nossas casas limpas e arrumadas, organizando aquilo que aprendemos dentro de uma estrutura lógica e funcional, para que isso nos ajude no dia a dia. Também significa nos livrarmos de ideias inúteis, jogar ao lixo as teorias que nos fazem tropeçar. Essa disciplina nos torna lúcidos, donos de nosso conhecimento.

    Consideremos também que boa parte da tarefa de organização e limpeza é feita inconscientemente. O cérebro humano é seletivo no que deve absorver, pois temos limitações físicas quanto ao que podemos carregar em nossas mentes. O resto simplesmente se perde no abismo do esquecimento. Fatos desconexos e sem sentido são esquecidos porque não têm vínculo com nossas vidas. Em nossas mentes, aquilo que não se usa se perde, e só conseguimos usar aquilo que tem alguma utilidade. Isso significa que não aprendemos algo apenas porque consta na grade oficial com o carimbo do tu deves, tampouco porque está listado na bibliografia recomendada. O aprendizado só acontece com naturalidade quando temos algum interesse no assunto em questão, quando é particularmente útil aos nossos propósitos ou tem algum sentido que nos diz respeito. Quando já temos uma estrutura prévia à qual incorporar o novo conhecimento, basta que tenhamos algum motivo para considerá-lo relevante, e o aprendizado ocorrerá quase automaticamente. Se o conteúdo a ser absorvido, pelo contrário, não estiver situado em nossa área de interesse, não haverá como esconder o tédio, o repúdio àquilo que será um esforço desapaixonado, uma tortura inútil, pois sabemos que tudo será esquecido.

    A questão, portanto, não é como enxertar em nossas cabeças o conteúdo de todos os livros que julgamos valiosos, pensando que o dever estará cumprido — isso equivaleria a decorar listas telefônicas. É necessário que haja uma lógica justificando, dando sentido e finalidade ao que estudamos. Cavar um grande buraco em nossos quintais, por exemplo, é algo que requer grande esforço e, a princípio, não faz sentido algum. Se acrescentarmos que a escavação será para fazermos uma piscina, o trabalho terá sentido, mas não justificará o esforço. Ele só será justificado se, obviamente, gostarmos de nadar — do contrário estaremos apenas perdendo tempo na construção de algo que acabará como uma poça de lodo, feita apenas para impressionar os vizinhos.

    O pensamento é uma faculdade limitada, porém extremamente versátil, e deve ter diante de si apenas aquilo que lhe é útil. Decorar um livro de capa a capa é algo pouco inteligente. Tal conhecimento ocupará um enorme espaço inutilmente, e precisaremos exercitar nossa memória constantemente para evitar esquecê-lo. Faríamos melhor em memorizar apenas uma versão resumida daquilo que lemos, um índice das relações entre os fatos mais importantes, pois com isso haverá espaço para armazenarmos o conteúdo de diversos livros. Elaborar esse índice de relações é exatamente o processo de refletir. Se, num momento posterior, precisarmos de algum detalhe específico, sabemos que o original estará na estante. O cérebro é mais importante como uma ferramenta para processar dados que para armazená-los, pois para tanto temos bancos de dados digitais estupidamente eficientes.

    Quando abrimos um livro, estamos diante de um sem-número de ideias que não cabem todas em nosso cérebro. Devemos escolher apenas aquelas que nos interessam pessoalmente, para depois refletir sobre elas. Contudo, para extrair qualquer sentido de uma leitura, ainda mais de obras densas e abstratas, é necessário possuir pleno domínio das próprias ferramentas intelectuais. Não basta saber ler, abrir os olhos, seguir as linhas e esperar que as coisas aconteçam magicamente: é necessário ruminar, concluir, por a mão na massa, algo que requer muito esforço e tato — razão pela qual a sabedoria dos livros só é acessível àqueles que pensam. Portanto, se não soubermos exatamente o que procuramos numa obra, não conseguiremos distinguir entre o útil e o inútil. Ansiosos, tentaremos absorver tudo e, como isso é impossível, não absorveremos nada.

    O melhor modo de estabelecer um critério de utilidade consiste em peneirar aquilo que nos é apresentado, selecionando apenas o que pudermos agregar coerentemente à nossa visão de mundo. Pode parecer lamentável que não possamos armazenar tudo, mas, assim como não nos lembramos de todas as experiências que resultaram em nosso conhecimento atual, não precisamos nos lembrar de cada página lida, apenas da lição principal, ou apenas de uma lição particularmente útil. Assim como os alimentos que ingerimos, as leituras só passarão a fazer parte de nossos cérebros depois de digeridas, nunca em seu estado bruto — incorporamos as informações úteis e descartamos o resto. Nesse sentido, aqueles que não estudam terão um intelecto fraco e desnutrido; os que estudam compulsivamente sem refletir terão uma erudição obesa e letárgica.

    Diante de um livro, é comum alguns pensarem que aquelas letrinhas pouco têm a ver com suas vidas. Quando forçados, leem a contragosto como quem faz um favor aos demais. Entretanto, uma resposta instintiva e positiva a essa questão é o pressuposto de qualquer aprendizado. Sem isso, qualquer estudo será tempo escorrendo pelo ralo. Todas as palavras lidas serão deixadas ao vento. O conceito de leitura será reduzido a uma corrida na qual nossos olhos devem percorrer as linhas o mais rapidamente possível a fim de que reste tempo para fazermos aquilo que nos importa. Todo estudo será associado a uma crescente e justificável repulsa em digerir algo que não faz sentido e, por isso mesmo, acabará vomitado. É evidente que, quando não temos interesse, não nos damos ao trabalho de relacionar os conceitos, de pensar sobre o que lemos. Parece uma perda de tempo dupla: além de ler, ainda temos de pensar sobre o assunto — mas esse é o único modo de incorporá-lo à nossa visão de mundo. Sem reflexão, abrimos mão exatamente da realidade daquilo que lemos, deixamos de dar o último passo, que é o mais interessante. Como alguém que, depois de ler um livro de culinária, deixa de empregá-lo em suas refeições, pois aprender as receitas já foi muito cansativo. Eram receitas teóricas, que nada têm a ver com aquilo que se faz na cozinha.

    A maioria dos indivíduos sequer reconhece que, ao ler, está entrando em contato com outra pessoa que tenta dizer-lhe alguma coisa, exatamente como em uma conversa. Há uma espécie de repúdio automático, um preconceito que a impede de reconhecer que ler se trata de entrar em contato com as ideias de outro ser humano, não de uma atividade excêntrica à qual alguns indivíduos superdotados e chatos se dedicam por motivos incompreensíveis. Parece que, num diário, numa carta, fala-se de um mundo real; num livro, fala-se de um mundo imaginário que não nos diz respeito para além das portas da universidade. Nem todos os livros dizem a verdade porque humanos também mentem por escrito, assim como em conversas; nem todos são interessantes porque nem todos têm algo interessante a dizer, ou porque não sabem expressá-lo de modo cativante. Assim como dialogar com certas pessoas pode ser entediante e, com outras, muito interessante, o mesmo ocorre com os livros. Pelo mesmo motivo que somos criteriosos na seleção de nossas amizades, devemos escolher cuidadosamente os livros aos quais dedicamos nosso tempo. Repudiar a leitura porque alguns livros são maçantes é o mesmo que rejeitar quaisquer amizades porque certos indivíduos nos aborrecem.

    Muitos menosprezam a leitura porque, quando o assunto é conhecimento, parece-nos à primeira vista que aprender algo numa conversa, numa aula ou numa leitura seria exatamente a mesma coisa. Que diferença faz se o conhecimento que queremos está na cabeça de outrem ou em folhas de papel? Muita. Em interações sociais, aprendemos muito pouco, e isso por dois motivos. O primeiro é que a maioria dos indivíduos tem pouco a nos ensinar que seja de nosso interesse. O segundo é que, mesmo que alguém tenha algo a nos ensinar, e mesmo que esteja disposto a fazê-lo, muitas vezes o conflito de vaidades impede que o aprendizado ocorra. Como priorizamos o teatro social, o conhecimento e a reflexão acabam em segundo plano. Perdemos inúmeras oportunidades de aprender simplesmente porque estamos preocupados demais em impressionar, em provar que somos superiores. Aquilo que temos a dizer sempre parece mais importante que aquilo que temos a ouvir. O fato, entretanto, é que só aprendemos quando estamos com a boca fechada. Ao repetir como papagaios aquilo que já sabemos, isso só garante que nada de novo chegará aos nossos cérebros. Numa leitura a situação é diferente, pois não sentimos nossa vaidade ser afrontada. Não estamos disputando nem tentando provar algo, pois não há testemunhas. Ninguém rirá se formos refutados, se não entendermos alguma passagem. Estamos anônimos, protegidos da vergonha pública. Então, enquanto numa conversa, por motivos óbvios, não podemos falar tudo o que nos passa pela cabeça, numa leitura poderemos pensar o que quisermos sem qualquer receio.

    Isso explica por que aquele que lê aprende muito mais que aquele que apenas conversa. Teoricamente, o resultado deveria ser o mesmo, mas não é. Num debate intelectual, quase tudo se resume à guerra de orgulhos, à troca de farpas. Se o que queremos é conhecimento, estamos apenas perdendo tempo. Por outro lado, numa leitura, também há uma guerra, só que de ideias, coisa que favorece grandemente nosso crescimento intelectual. A leitura, mesmo sendo um diálogo, cria uma atmosfera impessoal extremamente propícia ao aprendizado, colocando não o ego, mas a reflexão como prioridade. Imersos num livro, situamo-nos num universo no qual inexistem interesses pessoais e sociais. Isso tudo fica em segundo plano. No domínio do intelecto, tudo é conhecimento, e o único interesse é o entendimento. Sem espectadores, a vaidade adormece, e vemo-nos aptos a refletir livremente. Esse distanciamento é o que torna a leitura eficiente, mas também gera a impressão de que livros não dizem respeito à realidade. Parece-nos que o autor é um personagem de ficção. Parece-nos que ele é o próprio livro, que nasceu dentro dele, não que o escreveu. Sentimo-nos um pouco ridículos ao discutir com um bloco de papel, pois temos a impressão de estar falando sozinhos, ou seja, perdendo tempo. Se nossa intenção for fazer amigos ou impressionar os demais, isso não deixa de ser verdade. Entretanto, se quisermos aprender, o diálogo com livros é o melhor caminho.

    Acrescentemos que estaremos dialogando com alguém que, ao menos no assunto em questão, provavelmente sabe muito mais que nós. Aquilo que custou a outrem anos de disciplina, pesquisa, estudo e reflexão está condensado em páginas que podemos ler em poucas horas. Como podemos pensar que sua leitura é uma perda de tempo? Levaríamos o mesmo tempo, ou talvez mais, para chegar às mesmas conclusões por nós mesmos. O quebra-cabeça já está resolvido, e cabe a nós apenas entender os detalhes da montagem. Algumas horas de leitura, somadas a outras tantas de reflexão, resultam na aquisição de um conhecimento que levou anos para ser lapidado. Se tivermos um mínimo interesse na aquisição daquele conhecimento, temos de admitir que, com a leitura, ganhamos tempo. Desse modo, quando empregada inteligentemente, a leitura nos alavanca, nos poupa muito esforço. Conseguimos extrapolar as limitações do aprendizado individual e evitar muitos erros. Nosso entendimento torna-se capaz de investigar lugares extremamente distantes, que nos seriam inacessíveis caso nos limitássemos ao aprendizado proporcionado pelas nossas próprias experiências pessoais. Dentro de poucos anos, nossa visão particular concentra a sabedoria de incontáveis gerações.

    Entretanto, quando lemos sem refletir, tornamo-nos eruditos, mas continuamos estúpidos, pois nossa vida não se mistura ao conhecimento. Em nossa ânsia de consumir, compramos coisas sem nos dar a oportunidade de aprender a usá-las. No fim, apenas colecionamos conhecimentos alheios como quem organiza bibliotecas, mas nunca abre os livros.

    Nessa situação, os alicerces não estão ruins, pois não há alicerce algum, só um caos no qual cada lado defende que o autor quis dizer isto ou aquilo, e ambos são incapazes de explicar por que isso é importante. Ver o conhecimento sendo debatido como se não se tratasse de uma opinião de outra pessoa é quase uma piada. Levam-se mais a sério as sutilezas gramaticais que a veracidade daquilo que é dito. Como resultado, o conhecimento que se forma na mente dos indivíduos é algo como um arquipélago: caminha-se aos saltos e tropeços entre ilhas ridiculamente pequenas e esparsas, formatadas no padrão ABNT, que nada têm a ver com o continente de suas vidas que, este sim, é contínuo, consistente, pensado, real. Equilibram-se sobre tais ilhas e saltam de modo coreografado apenas para demonstrar que são bons trapezistas intelectuais. Depois do espetáculo, tiram seus uniformes e voltam a usar a própria cabeça.

    Quem nunca relacionou a cor de seus olhos à genética, sua condição social à história, suas gírias ao português, uma explosão à física, um macarrão empapado à química, uma cãibra à biologia, pode muito bem saber o que está nos livros, mas nunca refletiu, nunca se deu conta de que o que está nos livros está no mundo, é o mundo e também ele próprio que, de tanto saber, esqueceu-se de pensar.

    A preocupação essencial deveria ser o quanto a leitura de certa obra nos enriquece e ajuda pessoalmente. O resto são detalhes desprezíveis, aos quais se dedicam apenas aqueles que perderam de vista a questão essencial. A leitura é de onde tiramos o conhecimento que nos torna capazes de lidar melhor com o mundo tridimensional das alternativas infinitas e das opções limitadas, das questões sem resposta, dos recursos escassos e do tempo curto, levando-nos a fazer a escolhas mais competentes. Lemos porque queremos saber a opinião de outros indivíduos que estudaram as mesmas questões que nos interessam, pois lidaram com os mesmos problemas e talvez tenham encontrado soluções melhores que as nossas, talvez tenham algo a nos ensinar.

    Quando terminamos de ler um livro, geralmente temos a impressão de que continuamos os mesmos, assim como continuamos a mesma pessoa que éramos no mês passado, pois a mudança é gradual demais para que consigamos notá-la com clareza. Porém, se considerarmos o quanto crescemos durante um ano de leitura em comparação com um ano de atividades cotidianas, perceberemos seu poder de nos fazer crescer quase exageradamente, como se estivéssemos vendo o mundo por sobre ombros de gigantes. Essa é a razão pela qual os estudiosos parecem mais inteligentes que a maioria, mesmo que possuam apenas uma capacidade intelectual mediana. Seus cérebros tornaram-se ágeis e vigorosos porque os exercitam diariamente; tornaram-se profundos porque o estudo acrescentou-lhes muitos anos de sabedoria, adiantou-lhes a vida. Mas isso só aconteceu porque absorveram o conhecimento ativamente e, através da reflexão, o usaram para constituir a si próprios, não para enfeitar suas conversas. Distinguem-se não pela erudição mecânica, que garante pouco mais que um computador, mas pela capacidade de pensar, pela habilidade em caminhar dentro do campo de sua erudição com clareza, com os passos firmes de quem sabe onde está pisando. Escolhem por si mesmos o que devem ou não incorporar do que o mundo lhes apresenta, e sabem explicar o porquê.

    Quando compreendemos que todo livro bem escrito é como um presente, um atalho no labirinto do mundo, buscaremos instintivamente o conhecimento como quem busca o melhor para si próprio. Leremos, mas não absorveremos tudo passivamente. Discutiremos com o autor, refutaremos suas teses infundadas, aceitaremos algumas explicações, faremos perguntas incômodas, adivinharemos nas entrelinhas algumas de suas segundas e terceiras intenções. Haverá uma troca de ideias, da qual tiramos nossas próprias conclusões. Concordando ou não, geralmente ficamos gratos que o autor tenha se dado ao trabalho de compartilhar sua experiência conosco.

    * * *

    Até aqui, vimos apenas as razões pelas quais o cultivo do conhecimento, principalmente através da leitura, é desejável e útil. Ponderamos sobre a função da reflexão nesse processo. Todavia, para ser justos, não poderíamos deixar de mencionar o aspecto negativo envolvido no ato de ler, ou seja, o lado prático. Mesmo que seu mérito seja inegável, temos algumas observações incômodas a fazer.

    Fora do universo tradicional dos iniciados, despreza-se cada vez mais a leitura, porém não sem razão. O primeiro motivo, e o mais óbvio, é que há modos cada vez mais práticos de chegarmos a aprender alguma coisa sem abrir um livro. O conhecimento não apenas já chega pré-mastigado, como também pré-digerido. Não é sequer necessário pensar muito para absorvê-lo. Seria ilógico que alguém escolhesse o caminho de espinhos quando pode aprender o que quiser simplesmente apertando o play. Como somos naturalmente econômicos em nossos esforços, é óbvio que escolheríamos o modo mais fácil de incorporar alguma informação quando o objetivo é apenas tê-la na cabeça, não esperar que os demais nos elogiem por isso. Contudo, na defesa da leitura, muitos se tornam quase irracionais.

    A imagem que se pinta dos livros, de alguém que lê livros, é rodeada por uma aura mística. Tem-se a impressão de que quem aprendesse exatamente a mesma lição através de um vídeo nunca se equipararia àquele que a aprendeu pela leitura. Há um quê de exagero nisso. O ato de ler não significa reflexão necessariamente, tampouco vídeos implicam irreflexão.

    A presunção de que devoradores de livros sejam espíritos elevados, seres inerentemente pensantes, nasce da ideia razoável de que alguém dado à atividade penosa de ler também esteja familiarizado com o processo cansativo de refletir. Faz sentido, mas, à primeira vista, temos uma imagem muito elogiosa que omite o aspecto inconveniente da questão, ou seja, a dor, mental e também física.

    Se a leitura fosse algo agradável por si só, não haveria necessidade de incentivá-la, assim como ninguém perde tempo salientando o valor do dinheiro. É extremamente duvidoso que alguém, em sã consciência, realmente veja na leitura um fim em si mesmo, senão por nunca ter pensado no assunto com honestidade. É tão ilógico quanto dizer que fazemos exercícios físicos como um fim em si mesmo, sem nenhum interesse no bem-estar, na saúde, na beleza etc. Não sejamos tão ingênuos.

    Sentar-se numa poltrona, debruçar-se sobre um livro e passar horas a fio decodificando palavras é algo muito incômodo fisicamente. Não conseguimos permanecer muito tempo parados sem que logo comecem a surgir efeitos como cãibras, coceiras, dores nas costas, membros dormentes e vistas cansadas. Todos esses incômodos envolvidos no ato físico de ler evidenciam que se trata de uma atividade artificial, que requer uma grande quantidade de treinamento para que possamos suportá-la por longos períodos. Condicionar-se fisicamente à leitura de livros é algo que requer muita disciplina bruta, pois se trata de um procedimento extremamente maçante e estranho à nossa natureza. Do ponto de vista psicológico, o ato de ler pode ser resumido como um esforço mental intenso e prolongado, no qual o objetivo consiste em manter nossa atenção fixa em um único ponto no qual não há absolutamente nada de cativante ocorrendo. É uma atividade cansativa e tediosa como cruzar um oceano de páginas num pequeno barco a remo. Cada remada é como um esforço da imaginação que nos permite ver a paisagem pintada pelo autor.

    Não importa quão interessante seja aquilo que estamos lendo, o ato de observar pequenos caracteres ao longo de inúmeras páginas e disso destilar algum aprendizado é, em si mesmo, um processo extremamente penoso. O prazer nunca está na própria leitura, mas naquilo que aprendemos. Sem dúvida, nossa curiosidade sobre o assunto pode fazer com que não notemos todos esses elementos conscientemente. Porém, caso ainda não estejamos convencidos do caráter insípido da leitura em si, podemos dissipar todas as dúvidas tomando à mão a coisa mais desinteressante que pudermos imaginar, como uma lista telefônica, por exemplo. Não precisaremos ser grandes mestres da introspecção para vislumbrar uma constelação de elementos incômodos que dizem em uníssono: pare de perder tempo. É impossível não darmos por eles e, por fim, termos lido de capa a capa algo tão estéril num descuido ante uma atividade tão prazerosa como a leitura. Isso simplesmente não acontece. No melhor dos casos, elogiamos aquele que tem o hábito de ler exatamente por ter conseguido superar todas essas dificuldades, sendo capaz de realizar uma tarefa bastante árdua. Apenas indivíduos infectados por um pedantismo elevado à demência chegam a afirmar que se sentem transportados a um mundo de prazeres ao ler, esperando ainda que acreditemos. Como qualquer exercício, a leitura é uma tarefa essencialmente desagradável. Trata-se de algo edificante, não prazeroso. O prazer é colhido como uma exceção, como um efeito colateral ultravalorizado.

    Como em qualquer área da atividade humana, ninguém se daria ao trabalho de ler sem que houvesse alguma expectativa de recompensa. Imaginemos com que boa vontade leríamos o mais tedioso dos livros se sua compreensão nos permitisse desvendar a localização de um tesouro — só que o tesouro em questão não são barras de ouro, mas empregos mais bem remunerados e prestígio social, uma vantagem a mais sobre a competição. Isso porque, em regra, ninguém gosta realmente de estudar, mas da sensação de poder proveniente da erudição. Mesmo aqueles raros indivíduos cujo lazer consiste, por vontade própria, na leitura de pesados volumes, não podem ser vistos como exceções, já que encontram no próprio aprendizado motivo suficiente para justificar seu esforço. Ainda assim, seria difícil acreditarmos que não há nenhum motivo, nenhuma ambição inconfessa por detrás de um ócio tão construtivo. Não é outro o motivo pelo qual tantos se orgulham da leitura de longos livros enfadonhos. Sendo um esforço hercúleo cujo lucro líquido em erudição não nos indeniza pelo enfado, passamos a exigir que os demais cubram o prejuízo na forma de reconhecimento.

    Nesse sentido, é interessante observar que é muito comum recebermos recomendações de livros e mais livros, todos ótimos, todos excelentes. Lendo-os, entretanto, é raro encontrarmos algo que esteja à altura de tais elogios. Considerando que a maioria dos livros é ruim, inclusive muitos dos clássicos, não espanta que quase tudo o que nos recomendam seja o mais completo lixo. Logicamente, recomendam livros ruins simplesmente porque perderam tempo lendo-os. Elogiam tais livros apenas para elogiarem a si próprios. O tempo é valioso e, quando o investimos, não há volta. No fim de uma leitura, poucos conseguem admitir que apenas perderam tempo. Preferem enganar-se. É importante que estejamos atentos a tal fato, ou perderemos muitas horas em busca de tesouros que simplesmente não existem. O valor dos livros ruins é declarado meramente pela vaidade dos que perderam tempo lendo-os.

    Como todos leem esperando, direta ou indiretamente, algum lucro na forma de aprendizado, nenhum tipo de livro é mais odiado que os herméticos, cheios de preliminares, rebuscamentos e rodeios desnecessários. Envolver o sentido de uma ideia com uma dura casca gramatical, como se fosse uma castanha de ouro, é prestar-lhe uma homenagem excessiva. Ideias dignas de valor se fazem reconhecer por si mesmas pelo modo admirável como enriquecem nossa visão, de modo que as sentimos como uma agradável surpresa. Embrulhá-las várias vezes com letras douradas não tornará o conteúdo mais valioso. É comum gastarmos um longo tempo interpretando certo texto pedante e hermético para, no fim, descobrir que seu conteúdo não passava uma obviedade embalada como algo valioso. Com razão o leitor se sentirá enganado, pois o autor, numa tentativa de parecer profundo, complicou suas teorias desnecessariamente.

    Por mais difícil que uma ideia seja, por mais orgulho que seu dono possua de tê-la concebido, qualquer esforço no sentido de torná-la mais difícil de ser apreendida não passará de uma valorização excessiva pela qual será punido com o desprezo de seus leitores. Situação semelhante seria a de alguém que deixasse um bilhete preso à geladeira avisando que só voltará mais tarde porque o carro quebrou. Porém, imaginando que isso fará com que levem a sério sua mensagem, escreve o bilhete em latim e o enterra no quintal, deixando preso à geladeira apenas um mapa cheio de mensagens enigmáticas. O esforço para que alguém chegue a compreender seu recado não será compensado pelo valor de suas ideias. Temos a impressão de que indivíduos dessa espécie leram livros difíceis, não entenderam, e então passaram a imitá-los por questão de estilo, pensando que  é glamoroso dizer banalidades incompreensíveis. Seria mais justo que tais autores escrevessem livros sobre enigmas, palavras cruzadas ou charadas, pois ao menos assim seus leitores não sentiriam que estão diante de um impostor, de alguém que escreve para esconder seus pensamentos.

    A clareza na exposição das ideias é o sinal distintivo de um autor que confia no valor daquilo que diz. Deixar que, sob o pretexto do estilo, ideias óbvias sejam adornadas e maquiadas até se tornarem irreconhecíveis é a admissão de que, em si mesmas, não valem sequer o papel em que estão impressas. É perdoável que, por exemplo, na poesia, uma área que valoriza a estética tanto quanto o conteúdo, haja passagens que devam ser muito interpretadas para que se tornem compreensíveis, mas isso apenas se justifica se, igualmente, o efeito estético resultante estiver à altura da dificuldade de interpretação. Como se, depois de passar um longo tempo tentando descobrir o segredo de um cofre, víssemos em seu interior um objeto tão belo que nos fizesse, com um sorriso no rosto, esquecer todo o esforço necessário para abri-lo. Mas é comum, pelo contrário, encontrarmos no interior do cofre apenas um bilhete dizendo “parabéns, caro leitor, pois demonstrou ter inteligência para resolver meu enigma; sua recompensa é tê-lo resolvido; sorria”. É impossível não revoltar-se como quem, no fim no mês, não recebesse salário algum, mas apenas um bilhete elogioso. Ler poesia é como ouvir música com os olhos: se não nos encanta, não serve para nada.

    Aquele que não quer ser compreendido deveria escolher o caminho mais fácil: não escrever. Quem produz textos para si próprio, sem qualquer preocupação em torná-lo apresentável àqueles que os lerão, deveria rabiscar diários, não publicar livros. O fato de um assunto ser pessoal não justifica textos confusos, pois é perfeitamente possível ser claro em assuntos pessoais. Se tivermos um domínio razoável da língua e um interesse sincero em ser compreendidos, não haverá dificuldade alguma. Porém, se não conseguimos colocar no papel aquilo que pensamos, isso ocorre porque nossos próprios pensamentos são confusos até para nós, em geral porque nunca pensamos no assunto sobre o qual paradoxalmente estamos tentando escrever. Textos confusos nascem quando tentamos escrever sobre aquilo que não entendemos. Nessa situação, em vez de explicar, limitamo-nos a reproduzir, dentro da norma culta, a confusão que há em nossas cabeças. Deveríamos nos preocupar em dominar o assunto antes de nos pronunciarmos sobre ele. Ademais, como há inúmeros autores que conseguem fazer-se compreender perfeitamente bem, a culpa não pode ser da linguagem. Assim como falar, escrever é fácil. Difícil não é escrever, mas pensar com clareza.

    Temos outro sinal característico da pobreza de uma ideia quando o autor se dirige ao leitor em primeira pessoa, numa tentativa de assegurar que devemos acreditar em sua palavra. Se o autor não consegue conquistar a confiança de seus leitores pela honestidade na exposição de suas ideias, pouca diferença fará que apareça pessoalmente, seja entre parênteses, em notas de rodapé ou em sua porta, confirmando que é absolutamente digno de consideração. Quando o autor charlatão percebe a debilidade de uma ideia, não vê outra saída senão vendê-la pessoalmente, como se sua mera presença fosse suficiente para conferir qualquer autoridade a uma ideia tola. Não há coisa mais desagradável que ler esses escritores que tentam se autopromover conversando diretamente com os leitores. É um sinal tão evidente de desespero que mais parece uma confissão de incompetência. Só um parvo compraria uma ideia por compaixão, comovido pela incapacidade intelectual do autor. Vemos poemas falando de versos e da caneta que os escreve, livros falando de seus parágrafos e esclarecendo-os, autores conversando com leitores em primeira pessoa. Isso é ridículo. A metalinguagem só é admissível como um prefácio, uma apresentação. Para além disso, se empregada suficientemente bem, será no máximo uma excentricidade, um recurso de estilo dos que dispõem de gênio suficiente para dar-se a esse luxo como uma demonstração de excesso de capacidade. Quando o caso não for nada disso, como geralmente não é, o autor que possua qualquer dignidade simplesmente deve partir e deixar que suas ideias falem por si próprias. Não nos importa a opinião pessoal que tenha a respeito desta ou daquela ideia, interromper a todo o momento sua exposição para cumprimentar o leitor pessoalmente e prestar-lhe satisfações, explicações e porquês sobre os detalhes mais ínfimos da atividade que somente diz respeito a ele próprio é uma falta de respeito para com seu público, um insulto à inteligência daqueles que se dispuseram a ler seus livros. Não compramos refrigerantes esperando encontrar em seu rótulo, em vez de sua composição química, uma confissão verborrágica do fabricante a respeito das duras penas envolvidas na elaboração do produto, explicando que as matérias-primas exigem um longo e cuidadoso processamento. Não esperamos palavras sobre a árdua competição com empresas rivais ou sobre como foi sua luta para comprovar a patente de sua fórmula. Queremos apenas bebê-lo, não entender como é feito. O produtor que se vire com seus problemas pessoais, pois foi essa a atividade que escolheu para sua vida. Não somos obrigados a sofrer ouvindo seus lamentos. Sendo que a incompetência não adoça bebidas ruins, nenhuma explicação nos fará engoli-las.

    É muito comum também que se tente passar confiança aos leitores através da citação de autores célebres, e isso equivale mais ou menos a uma fotografia na qual vemos o autor e a celebridade se cumprimentando como bons e velhos amigos. Também não passa de uma carta de recomendação assinada por ele próprio. A não ser que as palavras citadas sejam absolutamente necessárias como referência, não é mais que a admissão do autor quanto à sua incapacidade ou preguiça de dizer o mesmo com suas próprias palavras. Seria como se, numa entrevista de emprego, em vez de demonstrar suas próprias habilidades, fizesse menção a todas as pessoas importantes que conhece ou com as quais tem parentesco. Se quiséssemos saber aquilo que certo autor disse a respeito de um assunto qualquer, teríamos simplesmente comprado seu livro. Não inspira confiança que um autor cite autoridades constantemente sob o pretexto de seu caráter ilustrativo, pois isso somente ilustra sua própria insegurança, imaginando que ninguém ousaria contestar os pensamentos de alguém que possui conhecidos tão influentes. É o que acontece no caso do indivíduo que, apesar de sua erudição, é incapaz de pensar por si próprio, que não se dá ao trabalho de ruminar. Em vez de destilar daquilo que lê apenas a essência e misturá-la naturalmente à sua visão de mundo — algo que será propriamente interpretado como uma influência —, simplesmente joga na mistura pedaços de conceitos tão mal digeridos que ficam boiando no caldo de suas ideias como pedaços de cortiça que servem apenas para preencher páginas vazias. Talvez esse autor devesse considerar um emprego na área de compilação, já que muitas vezes, num capítulo todo, as únicas palavras que prendem nossa atenção são exatamente as citações, rodeadas por um deserto prolixo de ideias sem valor.

    Seria melhor, em vez de simplesmente recortar ideias prontas, absorver a essência de tais ideias e integrá-la organicamente à nossa visão. Isso ao menos prova que refletimos sobre o assunto com profundidade suficiente para que a mistura resultante seja perfeitamente homogênea. Assim podemos dizer, com justiça, que tais ideias são realmente nossas, que temos o direito de usá-las como bem entendermos. Isso pode parecer uma desculpa para a falta de originalidade, mas, seja qual for a ideia que tenhamos, por mais genial, é extremamente improvável que ninguém a tenha pensado antes de nós. Mesmo quando chegamos a certa conclusão sozinhos, por experiência própria, não precisamos de mais que alguns minutos de pesquisa para perceber a infinidade de indivíduos que já disseram o mesmo muito antes de termos nascido, e não raro numa forma muito mais bem acabada.

    O único motivo para que se continue escrevendo a respeito de assuntos sobre os quais quase tudo já foi dito consiste em reciclá-los, ou seja, atualizá-los nos pequenos detalhes que vieram à luz somente no momento presente, vesti-los com roupagens modernas e tirar fotos recentes com equipamentos mais sofisticados, explorar melhor seus detalhes e ângulos; também fazendo o papel de coveiros, enterrando os pensamentos aparentados que não tenham sobrevivido à provação do tempo, realizando todas as cerimônias necessárias para evitar que seus fantasmas continuem perambulando entre os vivos.

    Desse modo, qualquer pretensão à originalidade deve ser vista com suspeita, já que em geral não é mais que um indício de ingenuidade. É confortante acreditarmos que fomos os primeiros a desflorar a verdade à qual nos casamos, mas em regra apenas preferimos não saber quantos outros já a tiveram como esposa antes de nós. Não é outro o motivo de nos sentirmos indignados quando descobrimos que não fomos os primeiros a tê-la ao lado — também não seremos os últimos. Por mais sedutora que seja a verdade, sempre será enganosa a ideia de que poderemos tê-la somente para nós próprios. Ela sobreviverá às nossas custas enquanto pudermos sustentá-la, partindo tão logo alguém oferecer-lhe melhores condições de vida.

    Ler, em si mesmo, é um esforço penoso o bastante para que nos sintamos justificados em jogar ao lixo qualquer livro escrito com o objetivo de fazer com que seus leitores desperdicem suas vidas decifrando banalidades. Se considerarmos nosso tempo algo minimamente valioso, concluiremos que a maioria dos livros simplesmente não merece ser lida. Ler livros que nos desagradam é tão tolo quanto planejar um fim de semana junto a uma pessoa com a qual não temos a menor afinidade: não nos acrescentará nada, ficaremos entediados, e isso será nossa culpa, pois, diante de tantos livros bons, escolhemos os ruins apenas para provar que conseguimos engolir o lixo que está na moda. Faremos muito melhor em ler e reler os clássicos que em vagar pelo deserto de ideias ocas e autores hipócritas que, não tendo nenhuma coisa séria a dizer, escrevem livros como que para brincar com nossas caras.

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      01/07/2011

    Se buscamos uma relação de causalidade forte entre o que observamos e esperamos encontrar, sabemos que a religião não explica satisfatoriamente os fatos do mundo. Suas previsões são vagas e não raramente dependem de uma interpretação ad hoc para comprová-las. Maiores aprofundamentos sobre o assunto estão expostos nos vários livros a que temos disposição, e o seu número aumenta conforme dominamos línguas estrangeiras. Desde os fragmentos em grego antigo de Epicuro, até o inglês moderno de Dawkins, não faltam exemplos de obras que expõem a incoerência da crença em divindades, sejam elas pessoais ou não.

    Para não sermos repetitivos, resta partirmos dessa premissa e analisarmos algumas das razões pelas quais, mesmo com toda essa massiva produção intelectual, a religião e seus mais diversos seguidores permanecem fiéis — na acepção mais legítima da palavra — em suas crenças. Em outras palavras, deixemos de lado, ao menos por enquanto, uma análise ontológica da divindade. Passemos, então, a abordar aspectos sócio-antropológicos do fenômeno religioso, na busca de traços mais gerais que nos permitam entender o que nos leva a ter comportamentos contrários aos pressupostos que julgamos verdadeiros, adquiridos depois de muito estudo acumulado.

    É comum ouvirmos a alegação de que a religião transmite a ideia de paz e de tranquilidade. Mas por quê? Não vemos guerras religiosas e conflitos ideológicos o tempo todo? Não vemos cismas e juras de ódio por dissidentes tão frequentemente? Não vemos discursos de ojeriza e de concorrência para com as seitas rivais? Isso tudo não seria suficiente para retirar da religião a aura de austeridade? Se ainda ouvimos tais alegações, concluímos obviamente que não. Mesmo com toda a reprovação desses acontecimentos, mesmo com toda a revolta que nos causa sermos tão intolerantes nesses aspectos, mesmo com todo o sentimento de repúdio a comportamentos tão primitivos, o que vemos, em geral, é que eles estão bem longe de nossa realidade.

    Podemos, é claro, discordar desse viés e apontar vários exemplos de casos iguais ou muito semelhantes que ocorrem em nosso meio. No entanto, a depender de nosso grau de parcialidade com a questão, teremos na ponta da língua as justificativas que nos dão a prerrogativa para agirmos da forma que não suportamos ver outros agirem. Neles, é apenas a expressão mais brutalizada da falta de civilidade; em nós, é a máxima liberdade de expressão e de consciência contra algo que julgamos ter bons motivos para rejeitar. “Ao menos não matamos quem discorda de nós”, poderíamos dizer, aqui no Brasil, sobre os conflitos do Oriente Médio. E se, ao pesquisarmos notícias nacionais, encontrássemos casos de homicídio que seguem os mesmos padrões, diríamos apenas que são exceções, muito mais relacionadas com algum distúrbio mental ou de caráter dos agentes, do que com a influência de nossas ideologias sobre eles.

    Tiremos a nossa incrível capacidade de autoengano de questão, por ora. Se ignoramos o que deveria ser um ponto negativo, deve ser porque os pontos positivos superam os prejuízos. Mas que pontos positivos podemos elencar? Devemos começar, já que é uma alegação recorrente, pelo conforto que os ritos ou os rituais religiosos podem nos oferecer. Afinal de contas, o prazer é uma medida que todos nós usamos para identificar se a repetição de certa atividade nos é útil. Por analogia, se sentimos prazer praticando esportes, é muito provável que nos sintamos compelidos a praticá-los cada vez mais. E se, ao invés de prazer, sentimos desconforto pela falta de habilidade em um determinado jogo, a tendência é que evitemos nos expor ao embaraço.

    Com esse raciocínio, podemos começar nossa análise. Partamos do cristianismo, por ser o grupo mais populoso para nós, tendo experimentado — ou a menos conhecido, dada a massiva exposição — alguns de seus rituais. Seja na forma da missa católica ou do culto protestante, as características básicas são as mesmas: uma reunião periódica com indivíduos que frequentam o mesmo espaço, supostamente com os mesmos objetivos. Já não é o bastante para que sintamos uma forte conexão? Tirando os detalhes pertinentes somente aos ritos religiosos, não é o mesmo sentimento que temos em um encontro no qual todos temos os mesmos hobbies? Por oposição, teríamos esse sentimento, caso estivéssemos em uma comemoração na qual todos partilham do mesmo gosto musical, menos nós? Acompanharíamos os refrãos com o mesmo entusiasmo, se sequer sabemos a letra?

    Pois bem: reuniões religiosas nos dão um sentimento de união e de conexão com os demais indivíduos, mas é só? Obviamente não. Entretanto, os detalhes ulteriores dependem de que reunião costumamos participar. Da mesma forma que não sentimos as mesmas respostas de prazer em um clube de leitura e em um ginásio esportivo, não sentiremos as mesmas respostas em cultos mais calmos e noutros mais agitados. Dependendo de nossas preferências, podemos escolher o que mais nos agrada, considerando a variedade existente. Mesmo dentro da igreja católica, para citar o exemplo do que deveria ser uma unidade, há missas mais “animadas” e outras mais introspectivas. Há padres que valorizam o movimento, e outros que valorizam o sentimento de profundidade mental. Há oferta suficiente para satisfazer os vários tipos de fregueses.

    O que devemos ter em mente, com esses dados em mãos, é que essas respostas, independentemente de quais sejam, são consideradas tipicamente religiosas porque aprendemos, geração após geração, que assim o são. Mesmo com o esvaziamento de muitos deles, temos feriados tipicamente cristãos, como a Páscoa ou o Natal, cada qual com determinados tipos de celebração, com tradições — religiosas ou seculares — bem enraizadas, com rituais que por vezes destoam de nossas vidas comuns. Se Natal, por nossa configuração pessoal, significa a reunião de toda a família, não será difícil traçar uma correlação entre eles — e já deve restar bem clara a diferença entre correlação e causalidade.

    Historicamente, em tempos de forte controle social exercido pela religião, esses ritos mais centrais eram tão sacralizados que sua atuação era exclusiva do culto — e logo vem à mente toda a liturgia. Tiremos o canto, por exemplo. Uma das mais belas formas de música sacra é o canto gregoriano: tipo de canto implementado pelo papa Gregório I, monódico e geralmente não acompanhado por outros instrumentos musicais, que consiste em pequenos versos entoados repetidamente por vozes masculinas. Some-se a isso a acústica de uma catedral com seus poderosos ecos, e teremos um belo conjunto representativo de contemplação.

    Um exemplo fácil para ilustrar nosso ponto é o Kyrie Eleison. Composta apenas dos versos gregos “Κύριε ἐλέησον, Χριστὲ ἐλέησον, Κύριε ἐλέησον”, a canção pode durar por vários minutos. Os versos originais talvez não sejam familiares para a maioria de nós, mas servem perfeitamente para que entendamos um importante aspecto: sem sabermos exatamente o conteúdo de certa atividade, como podemos discernir se é religiosa ou não? Por costume, geralmente. Esse tipo de musicalidade está profundamente associado à figura dos monges e a tradução dos versos não deixa dúvidas da conexão: “Senhor, tende piedade; Cristo, tende piedade; Senhor, tende piedade”.

    Poderíamos, contudo, criar uma canção que seguisse as mesmas características musicais, mas que deixasse de lado o conteúdo religioso? Nihil obstat. O leitor mais curioso, por sinal, não demorará a encontrar exemplos. O sentimento é o mesmo? Certamente. Para aqueles que apreciam o estilo musical, não sentirão senão paz e conforto. Parece restar entendido que não é o conteúdo religioso que nos transmite tais sentimentos, mas algum tipo de configuração cerebral que nos permite admirar a monotonia e conectá-la com algum tipo de sentimento austero. Em outras situações, a maioria de nós sente o mesmo ao observarmos cachoeiras, só para citar um exemplo completamente laico ― que, aliás, nos permite traçar um paralelo entre os adoradores da “natureza”.

    É exatamente nessas linhas que os estudos mais recentes da psicologia evolutiva buscam descrever as nossas capacidades. Segundo eles, a religião não cria esses sentimentos, mas, assim como qualquer outra área artístico-cultural, apenas se apropria de configurações biológicas, que não necessariamente foram selecionadas para tais propósitos. Dessa forma, não se tratam de características filtradas pela seleção natural, mas de produtos acidentais (by-products) que surgem da justaposição de características independentes. Comparando com nossas ferramentas, seria algo como comprar um microcomputador como uma importante fonte de estudos, e descobrir que podemos usá-lo para muitas outras atividades, como entretenimento e comunicação.

    Não é difícil concluir que a religião não detém qualquer tipo de patente sobre os neuroreceptores cerebrais estimulados durante a execução deste ou daquele ritual. Se só conseguimos sentir certas sensações durante cultos de qualquer espécie, isso diz muito mais sobre nossas rotinas sociais do que sobre qualquer benefício intrínseco da prática religiosa. Se, na maioria das vezes, não conseguimos os benefícios da química cerebral sem os transtornos de uma congregação, deve ser muito provavelmente porque aprendemos socialmente que aquele é o lugar e o tempo devido para senti-los. Não é por isso que poupamos intervenções de sanidade mental em cultos religiosos? Fora daquele círculo, todas as “possessões” não seriam encaradas como desvios do que consideramos aceitável, em termos de comportamento?

    Se ainda restam dúvidas, pensemos na meditação. Sua fórmula mais comum envolve práticas religiosas advindas do que chamamos de oriente e, dadas as circunstâncias, dificilmente encontraremos um mantra original recitado em língua portuguesa. Mas isso nos impede de aproveitarmos as técnicas de relaxamento? Será que precisamos aceitar a divindade das vacas, como é costume do hinduísmo? Para os seus adeptos, elas recitam o mantra om (ॐ), considerado o mais importante deles, relacionado ao som do próprio universo. De fato, em nossa comunidade, são animais que não costumam gozar do mesmo prestígio, servindo-nos principalmente como fonte de leite e de carne. Mas isso configura qualquer impedimento para meditarmos, enquanto nos concentramos na nossa própria respiração?

    Assim, ao invés de comunhão com deus(es), passamos a explicar os sentimentos de acordo com os seus desdobramentos: técnicas de respiração, passatempos relaxantes, métodos de introspecção etc. Não precisamos, portanto, do intermédio das religiões para atingirmos os tais estados mentais. Com o conhecimento que temos em nosso tempo, elas parecem mais como atravessadores cujos impostos se tornaram muito caro manter ― principalmente por descobrirmos como pegar direto da fonte. E, mesmo assim, continuamos a ver pessoas aderindo às suas causas. Disso tiramos duas conclusões principais: 1) as religiões, ainda que de maneira pouco eficiente, funcionam com relação ao que propõem; e 2) somos viciados nesses sentimentos e julgamos mal a relação custo/benefício, já que tudo o que está em jogo é apenas saciar as nossas vontades ― “assim na terra, como no céu”.

    As explicações podem ser infantis, mas o sentimento está lá. Concorrente das religiões no quesito “explicar”, costuma-se acusar a ciência de ser fria demais para opor uma guerra que possa ganhar: simplesmente descrever os processos mentais, usando nomes como “dopamina” ou “serotonina”, está longe de dar o mínimo de satisfação que quinze minutos de meditação podem nos oferecer. E a comparação não está muito distante da diferença entre desenhar as ligações químicas do tetraidrocanabinol e fumar um cigarro de Cannabis sativa. Que não se espantem os leitores com a comparação a psicotrópicos, porque, no fundo, o princípio é o mesmo: alterar com artifícios o que o cérebro só nos daria em resposta a comportamentos que propiciem a nossa sobrevivência e/ou procriação.

     

    Leituras recomendadas

    BOYER, Pascal. Religion: bound to believe? Disponível em: <http://artsci.wustl.edu/~pboyer/PBoyerHomeSite/articles/2008BoyerReligionEssay.pdf>. Último acesso em 29 jun. 2011. [em inglês]

    DAWKINS, Richard. Deus, um delírio. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

    EPICURO. Pensamentos. São Paulo: Martin Claret, 2005.

    HARRIS, Sam. How to meditate. Disponível em: <http://www.samharris.org/blog/item/how-to-meditate/>. Último acesso em 29 jun. 2011. [em inglês]

    HUME, David. Investigação sobre o entendimento humano. São Paulo: UNESP, 2005.

    PYYSIÄINEN, Ilkka; HAUSER, Marc. The origins of religion: evolved adaptation or by-product? Disponível em <http://www.wjh.harvard.edu/~mnkylab/publications/recent/EvolReligion.pdf>. Último acesso em 30 nov. 2010. [em inglês]

     

    Ilustrações

    Kyrie Eleison, canção entoada pelos monges beneditinos de Santo Domingo. Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=aah_ITLw3R8>. Último acesso em 30 jun. 2011. [em grego]

    Ord, canção composta e tocada pela banda Ulver, misturando motivos gregorianos com letras não religiosas. Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=04el46gWkWI>. Último acesso em 30 jun. 2011. [em norueguês]

    At Giza, canção composta e tocada pela banda Om, que mistura heavy metal com motivos hindus. Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=dAXNBS2sEeg>. Último acesso em 30 jun. 2011. [em inglês]



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