| A exploração do subterrâneo, do tabu, da humanidade que preferimos esconder de nós mesmos. O Vazio da Máquina investiga alguns dos tópicos mais incômodos trazidos à luz pelo vazio da existência. O nada, o absurdo, a solidão, o sofrimento, o suicídio, a hipocrisia são alguns dos assuntos principais abordados ao longo da obra. Sabemos até onde podemos chegar com nosso conhecimento moderno; resta finalmente empregá-lo. |
PREFÁCIO
Quando imaginamos uma máquina, o resultado é sempre algo próximo de um sistema mecânico que funciona por si próprio. Não nos incomoda pensar que ela não seja nada além disso. Mas como nos sentimos quando nos imaginamos uma máquina? Vazios. Temos a sensação de que falta algo. E o que falta? De que um ser humano está repleto que falta numa máquina? Ilusão. O vazio da máquina é a consciência de que nosso mundo subjetivo é uma ficção; a consciência de que nossa humanidade é um delírio, de que não há nada por detrás do que estamos vivendo. Nós somos máquinas, e nossa consciência é um sonho dessa máquina. Mais nada. Absolutamente nada.
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| ENSAIOS |
PRÓLOGO
Com o absurdo, o mundo está dado. Como não podemos escolher o solo, cabe-nos unicamente o papel de ser boas árvores. Com a honestidade de trazer à superfície aquilo que nos alimenta, erguemo-nos numa floresta espinhosa, estranha e inacessível. Não desejamos, como gramíneas, nos espalhar pela superfície; queremos nos tornar elevados, alcançar os limites, e apenas por isso lançamos raízes à profundeza. Cultivamos longamente a sabedoria da altivez e da solidão; pacientes, aguardamos a época de colher os resultados desse esforço; finalmente teríamos nossa recompensa pela disciplina das alturas. Provamos o fruto dessa contradição sem grandes expectativas, como um mero capricho de linguagem. Nada poderia ter sido mais amargo que reconhecer em nós próprios a última geração de um erro terrível.
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| I. SOBRE O VAZIO DA EXISTÊNCIA |
 NIILISMO
Para reduzir o homem a nada, e compreender que isso demonstra o niilismo existencial, temos de apreender o vazio objetivo da existência, sendo óbvio que, na condição de sujeitos, só podemos fazê-lo subjetivamente. O problema é que, no processo demonstrar que a existência é vazia, somos o próprio vazio que estamos tentando apontar; tentamos explicar que nós próprios não temos explicação, que vivemos dentro do universo que o niilismo destrói. Parece paradoxal, mas não é. Bastará que consigamos entender nós próprios como um fato, e o niilismo se tornará praticamente uma obviedade. Só então perceberemos que o niilismo não é, como a princípio pode parecer, uma postura extremada, envolvendo algum tipo de revolta, mas apenas uma visão honesta e sensata da realidade; uma visão tornada possível em grande parte devido às descobertas científicas modernas. [ ler]
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| II. SOBRE A REALIDADE E O CONHECIMENTO |
 RELATIVISMO
Em regra, relativistas são apenas indivíduos ressentidos pelo fato de a ciência não corroborar suas crenças. Sabemos que ter respaldo da ciência é seu maior sonho. Para ilustrá-lo, pensemos no caso dos religiosos, pois, ao seu modo, religiosos também são relativistas. Pois bem: afirmam repetidamente que a fé não precisa ser comprovada pela ciência; atacam-na quando esta desenvolve teorias que vão contra suas convicções, como o heliocentrismo e o evolucionismo; dizem que a ciência é um saber extremamente parcial, limitado e dúbio. Suponhamos, entretanto, a seguinte situação: a ciência demonstrou a existência de Deus. Preto no branco, está lá: Deus existe; é fato. A descoberta está em todos os jornais, e os ateus coram de vergonha. Diante disso, os religiosos continuariam a defender tal postura relativista, alegando que a ciência é limitada, e que, mesmo comprovada por fatos irrefutáveis, a existência de Deus continua sendo muito duvidosa? Ora, claro que não.
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 ANONIMATO
Aquilo que faz de nós o que somos, e nunca outra coisa, é nossa imaginação; por mera vaidade chamamo-nos de homens, não de matéria, achando que há diferença entre uma coisa e outra. Se pensamos que ter consciência é algo que nos livra de quaisquer responsabilidades para com a física, a ciência chora por nós. Mesmo com o peito coberto de condecorações distintivas, somos todos os mesmos severinos, todos zés-ninguém, todos acasos biológicos que, ao nascer, recebem uma missão, um prazo de validade, um número de série e uma imbecilidade suficiente para acreditar no contrário. Tanto faz se nos consideramos o que pensamos ser; se passamos a ser outra pessoa depois de uma experiência íntima ou depois de almoçar; se continuaremos a existir em nossos filhos ou se os mortos continuarão a existir em nossas lembranças; podemos ser até poéticos, vermo-nos como emigrantes do big-bang. Currículos pomposos só têm importância quando precisamos encontrar bons empregos.
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 IRREFLEXÃO
É tudo muito inercial na mente daqueles que não pensam; seguem passivamente, absorvendo influências do ambiente como uma esponja. Defendem seu país, sua tradição, sua fé, pelo mesmo motivo que seu time de futebol predileto; em grupos, tudo resume-se a uma espécie de briga entre torcidas. Ridicularizam os costumes de outros países como quem nunca pensou que poderia ter nascido neles; a culpa deles é não pensar como nós pelo acaso de terem nascido lá e não aqui. Tais indivíduos nunca escolhem aquilo que defendem; simplesmente abraçam a primeira coisa que lhes aparece à frente e nunca mais a soltam, nunca pensam nisso. Confrontá-los só faz com que se agarrem ainda mais firmemente aos seus credos.
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 ABSURDO
O fato é que a única questão realmente relacionada ao absurdo é a da existência do próprio ser. O restante, ou seja, aquilo que acontece no ser, tem apenas relação indireta com o assunto, e não constitui nenhum impedimento à nossa compreensão da realidade, por mais que queiramos suspender nosso juízo a respeito de certas questões, alegando que o parentesco, mesmo indireto, invalida qualquer conclusão. Trata-se da perspectiva segundo a qual talvez haja uma razão oculta que ainda não fomos capazes de compreender e que, nessa situação, o melhor a se fazer é cruzar os braços e esperar que ela se manifeste sozinha; enquanto isso, devemos nos distrair cultivando jardins ou jogando pingue-pongue.
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 VERDADE
A verdade nunca estará do nosso lado, nem do lado oposto, pois átomos não se afeiçoam àqueles que lhes dão apelidos carinhosos. Não faz sentido desafiá-la, negá-la ou afirmá-la. Ela não se levanta contra nós, nem se esconde. Não nos julga, nem se importa. Não precisa ser defendida, pois não cometeu crime algum para precisar de advogados. Nós, como seres reais, fazemos parte da verdade; é nossa morada. Quando defendemos a verdade, o fazemos como quem defende a si mesmo, como quem protege seu nariz de um soco. Somos curiosos porque, quem conhece o mundo, conhece a si próprio. Fingir só funciona com outros seres humanos; a matéria não pode ser enganada. O mesmo cérebro que cria nosso mundo subjetivo funciona dentro dos parâmetros da realidade objetiva; até quando mentimos, quando nos enganamos, isso acontece honesta e fisicamente. Não estamos escapando de coisa alguma com crenças estapafúrdias.
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 MENTIRA
Todos os assuntos para os quais não basta entender, mas também seja preciso vivenciar, tomar partido e envolver-se pessoalmente para que percebamos sua suposta verdade, estão contidos na parcela da realidade criada por nós próprios. Isso significa que crenças políticas, religiosas, sociais, morais etc. — ou seja, tudo aquilo que defendemos aos berros, mas não conseguimos provar — são nossos modos pessoais de florear e deturpar a realidade em função dessas crenças emocionais cegas que estão certas e ponto final. O sinal característico do conhecimento, pelo contrário, é o fato de não precisarmos acreditar em nada para reconhecermos sua validade: ele é autoevidente, dispensa apresentações e óticas. O conhecimento objetivo simplesmente ignora nossas separações imaginárias, nossas crenças culturais, atravessando-as como o que são: nada. Claro que o conhecimento, sozinho, geralmente nos parece frio, limitado e insatisfatório, como se precisasse ser interpretado para que ganhasse significado, mas não precisa. Nós apenas não temos interesse em defender aquilo que não admite uma ótica parcial, que não podemos deturpar em nosso favor, e isso faz dele um assunto emocionalmente inútil, mas não diminui em nada seu valor de verdade. O problema é apenas que não amamos as opiniões que não nos amam de volta.
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 LEITURA
Ler, em si mesmo, é um esforço penoso o bastante para que nos sintamos justificados em jogar ao lixo qualquer livro escrito com o objetivo de fazer com que seus leitores desperdicem suas vidas decifrando banalidades. Se considerarmos nosso tempo e esforço como algo minimamente valioso, concluiremos que a maioria dos livros simplesmente não merece ser lida. Ler livros que nos desagradam é tão tolo quanto planejar um fim de semana junto a uma pessoa com a qual não temos a menor afinidade; não nos acrescentará nada, ficaremos entediados e isso será nossa culpa, pois, diante de tantos livros bons, escolhemos os ruins apenas para provar que conseguimos engolir o lixo que está na moda. Faremos muito melhor em ler e reler os clássicos que em vagar pelo deserto de ideias ocas e autores hipócritas que, não tendo nenhuma coisa séria para dizer, escrevem livros como que para brincar com nossas caras.
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| III. SOBRE A VIDA EM SOCIEDADE |
 EGOÍSMO
O egoísmo é uma realidade. O altruísmo desinteressado é um mito. Se os homens são seres vivos, segue-se que todas as ações humanas são egoístas. Todas. Aquilo que nos move é o interesse, e todo interesse é sempre próprio; não existe interesse desinteressado assim como não existe água desidratada. Aquele que nega as afirmações acima simplesmente desconhece sua própria natureza ou, por estar comprometido com ilusões, tornou-se incapaz de admitir o óbvio. No cotidiano julgamos o egoísmo algo ruim porque temos uma visão distorcida e simplória do assunto. Vemo-lo superficialmente, inserido num contexto moral relativo; em nossas mentes, egoísmo opõe-se a altruísmo como bem opõe-se a mal. Entretanto, quando analisamos o assunto com um pouco mais de atenção, percebemos que não há essa dualidade, essa oposição; percebemos que o egoísmo, sozinho, é o elemento central de nossa natureza, de nosso comportamento, de nossa vida.
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 LOUCURA
A vida é um fenômeno delirante; um bocado de matéria que teve um surto psicótico envolvendo delírios e alucinações que a fizeram crer na própria perpetuação como o sentido paranoico de uma existência sem sentido; criou esse mundo próprio e vive fechada dentro dele sem mais nem menos. Imersos nessa psicose biológica, dificilmente percebemos que há uma realidade para além dos muros do hospício da vida. Dentro desse hospício genético, cada espécie tem suas manias particulares, seu modo específico de delirar. Abelhas, por exemplo, estão orquestradas para delirar em colmeias, todas atravessadas por uma paranoia envolvendo pólen, mel e favos hexagonais. Um ser humano que se guiasse pelos mesmos valores seria considerado louco, mas acharíamos, por outro lado, louvável que uma abelha se comportasse como um homem. Pensamos que a humanidade, por ser racional, estabelece a normalidade; que as outras espécies, por serem irracionais, não devem ser levadas em consideração. A racionalidade humana, entretanto, não prova coisa alguma; pelo contrário, há inúmeros motivos para nos considerarmos a espécie mais excêntrica, mais insana; pois, dentro do sonho de viver, criamos ficções ainda mais descabeçadas para negar nossa natureza.
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 HIPOCRISIA
Mentimos ou revelamos a verdade parcial ou integralmente na medida de nossos interesses pessoais. Por tal razão, exceto caso estejamos preocupados em cultivar certa imagem social, convém não levarmos muito a sério aquilo que os demais pensam e dizem a nosso respeito; seja um elogio, seja um insulto, a verdade por detrás da afirmação sempre esconde um interesse que não nos é imediatamente acessível; cabe a nós ter a prudência de tentar descobri-lo caso não queiramos nos deixar levar pelas aparências, já que estas sempre são concebidas no sentido de nos levar a pensar algo que, antes de tudo, será benéfico àqueles que as forjaram. Gostemos ou não, sempre temos a sombra do interesse pessoal por detrás de tudo o que diz respeito à vida em sociedade; para tirar proveito dos demais, arquitetamos aparências cuidadosamente, às vezes com vários níveis de perfídia, para que não tenham acesso à verdade que nos convém ocultar, e os levamos a acreditar em mentiras que nos beneficiarão como quem, em esgrima, faz uma finta. Tornar-se malicioso representa a essência da socialização humana.
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 MORALIDADE
Podemos declarar condenada toda moral que represente um risco àqueles que a seguem. Quando constatamos que nossos valores não se sustentam, devemos dinamitá-los. Nessa situação, construir um edifício inteiramente novo é a solução mais promissora, mesmo que tenhamos de partir do zero; antes isso que restaurar e escorar construções cujos alicerces não são apenas ruins, mas falsos. Se quisermos um critério para nos situar nessa empreitada, podemos utilizar o seguinte: morais decadentes fogem da realidade; as saudáveis a buscam. É certo que seremos confrontados pela incerteza; todavia, a dúvida perde seu valor quando deixa de ser uma indecisão quanto às melhores soluções e converte-se em um pretexto para evitar a morte de nossas ilusões. Uma moral que se esconde dos fatos está apenas adiando a data de seu velório.
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 PRECONCEITO
O preconceito é o que impede a humanidade de caminhar para o futuro promissor no qual estão os ursinhos carinhosos. Em todos os lugares em que haja gente insatisfeita com seu lugar no mundo, esse desconceito é colocado na mira de todos os ódios com um fervor infernal. Culpam-no por tudo, até pelo que não tem relação alguma com o assunto. É fácil demonstrar que os que lutam contra o preconceito não sabem do que estão falando em 99% dos casos. Mas nosso objetivo não será entrar na arena armados com gramática até os dentes e fuzilar a incoerência com uma metralhadora refutatória; se, como querem, até não gostar de suco de limão é preconceituoso para com os limoeiros, não há como lutar contra isso.
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| IV. SOBRE A CONDIÇÃO HUMANA |
 SOFRIMENTO
Nossa situação não é muito diferente daquela de um burro que tem uma cenoura pendurada logo à frente de seus olhos; nossa cenoura se chama felicidade; perseguindo-a, corremos como tolos em busca de algo que nunca alcançaremos. Temos a impressão de que nascemos para ser felizes porque estamos visceralmente presos à lógica interna de nossa natureza biológica; a condição de ser vivo nos impõe como referenciais supremos o prazer e o sofrimento. Contudo, o prazer é apenas um mecanismo psicológico para influenciar nosso comportamento, não uma realidade à qual estamos caminhando. Isso fica claro se considerarmos o fato de que, ao alcançarmos a satisfação de algum desejo, teremos apenas alguns instantes de prazer como recompensa e, em seguida, já nos começam a molestar novas necessidades que nos tornarão inquietos; não tardará para que partamos novamente à ação, num ciclo de insatisfação que só terminará com a morte do indivíduo ou com a aquisição de um grão de bom senso.
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 PESSIMISMO
Quando nos tornamos muito sóbrios, isso interfere no aspecto prático da vida; não tardará para que sejamos rotulados de pessimistas. Mas isso nada tem a ver com a filosofia segundo a qual os aspectos negativos da existência superam os positivos, e sim com nosso gosto por alfinetar ilusões inflamadas e vê-las se esborrachar na mais pura realidade. Vacas podem ser sagradas na Índia, mas aqui nós as comemos sem pedir desculpas. As ilusões dos demais nunca nos inspiram respeito, exceto no caso de recearmos alguma retaliação bastante real. Portanto, não deveríamos nos incomodar ante a perspectiva de sermos reprovados por rir de ilusões que são extremamente importantes aos demais. A realidade crua é inoportuna na maioria das vezes, e lançar uma verdade certeira contra alguém pode ser tão agressivo quanto esmurrá-lo. Desse modo, não espanta que muitos se defendam como quem teme por sua integridade física.
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 BARULHO
O barulho só é uma tortura aos que pensam. Aquele cuja vida é prática, voltada à ação, não se incomoda, pois não pensa, apenas reage a estímulos como um animal qualquer; até suas conversas são apenas reflexos automáticos, espasmos verbais. Por isso exige-se silêncio em bibliotecas, mas não em bares. Durante momentos de reflexão, qualquer barulho distancia-nos da possibilidade de extrair de nossos pensamentos um diamante inteiro e bem lapidado; interrompidos seguidamente por grunhidos de humanos em sua vivência espetacular e teatral, tudo o que nos resta é um diamante esfacelado, sem qualquer valor, que repetidas vezes derrubamos ao chão por haverem nos desconcentrado; mutilam nosso raciocínio com sua encenação barata de tragédia popular; o ruído de suas vidas joga areia em nossas telas com tinta ainda fresca, arruinando as obras que pintávamos pacientemente.
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 SOLIDÃO
Mesmo que sejamos nossa única verdadeira companhia, preferimos abandoná-la acreditando na linguagem. Deixamos de existir para conviver sozinhos, falando para ninguém, e com isso pensamos escapar da solidão; como dois telefones conversando entre si sem que haja pessoas por detrás. Essa é a figura que melhor ilustra a socialização humana. Resulta que vivemos do lado de fora de nós, onde não está ninguém, e achamos isso muito natural. A distância comum entre tudo nos acalma como se nos livrasse da responsabilidade de admitir que existimos. Vemos nós próprios como uma espécie de questão filosófica abstrata e distante. Nós mesmos somos um assunto que não nos importa; deixamo-lo para os estudiosos. Nossa preocupação está em viver no admirável mundo oco, na realidade que acontece por cima das pessoas, nas cidades, nos bares, nos jornais. Queremos existir às avessas, numa vida exterior comum, onde nosso interior é tão desconhecido que o chamamos de livre-arbítrio.
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 TÉDIO
Um indivíduo entediado vê as possibilidades que se apresentam diante dele como um anoréxico vê um farto banquete. Esperar que alguém entediado tenha motivação é tão ridículo quanto esperar que um anoréxico tenha apetite. Entediados, todas as possibilidades nos enojam, tornamo-nos positivamente avessos a quaisquer ocupações. Sabemos que alimentar-se é necessário, e que pode também ser prazeroso, pode mesmo haver muitos alimentos à nossa disposição, mas sem apetite não há nada a ser feito para contornar essa apatia que nos invade e debilita.
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| V. SOBRE A INUTILIDADE DE EXISTIR |
 SUICÍDIO
Em certas circunstâncias, nossas vidas parecem valer a pena; em outras circunstâncias, não; isso depende da pena. Enquanto, no geral, acharmos que vale, continuemos; desde que nossas condições de vida não sejam algo deplorável, viver não é uma vergonha, só uma irracionalidade curiosa. Contudo, quando o desgosto pela vida toma tamanha proporção que nada desperta nosso interesse, quando cada passo é uma dor e cada fôlego é uma angústia, e tudo o que queremos honestamente é a bênção de dormir e nunca mais acordar, o suicídio pode muito bem ser aquilo que realmente desejamos. Nessa situação, não queremos atenção dos demais, não queremos que sofram, não queremos destruir o mundo nem salvá-lo, tampouco a publicação de algum bilhete suicida; não queremos sequer ver nosso próprio velório. Não damos as costas à vida esperando que ela nos peça desculpas; queremos que suma de nossa vista para todo o sempre. Apenas gostaríamos de desaparecer como se a vida fosse algo que nunca houvesse acontecido; como o cansaço de quem, depois de anos de insônia, finalmente descobre que pode dormir.
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 FELICIDADE
A felicidade de nossas vidas é sustentada por uma ótica constantemente falsa. Sonhamos com o futuro e dizemos: ah!, como serei feliz…; olhamos para trás e suspiramos: ah!, como fui feliz…; agora, lamentamos: ah!, como sou desgraçado… No presente, somos seres infelizes rodeados de felicidades distantes, mas perto das quais o sofrimento atual parece desprezível. O presente é uma ilha de infelicidade rodeada por um mar de alegria. O fato, entretanto, é que nunca mergulharemos nesse mar, pois ele é uma ilusão que inventamos para tentar justificar nossa miséria. Mesmo assim, nunca nos deixaremos desiludir.
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 REPRODUÇÃO
Como se pode verificar cotidianamente, a maioria dos indivíduos é dotada de uma visão tão curta e de um egoísmo tão irrefreável que sequer pensa na possibilidade de que o outro indivíduo, criado a partir do nada, a despeito das melhores intenções, será igualmente desgraçado. Ignorando tudo o que aprendeu com a própria vida e com todas as gerações passadas, aposta que no seu caso, pela primeira vez na história da humanidade, o amor fará com que as coisas sejam diferentes. Seu filho já nasce amaldiçoado pelo fardo de realizar uma felicidade que se mostrou impossível a todos os que existiram antes dele. O orgulhoso progenitor não enxerga, sequer desconfia que grau de crueldade esteja envolvido no ato de transformar uma poeira que esteve morta por bilhões de anos em um ser vivo simplesmente porque se encontra insatisfeito com sua própria vida.
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 DESESPERANÇA
Desaprender a infância é a desilusão essencial da vida. O mundo não é um lugar mágico, mas um lugar físico; não vai nos dar presentes gratuitamente para ver nossos sorrisos, e nosso sofrimento não vai compadecê-lo absolutamente, tampouco nos dar o direito de exigir ressarcimento por nosso infortúnio. Não nascemos para ser felizes, e isso é um fato. Nossa felicidade é um objetivo nosso, não do mundo; se isso fosse o objetivo primordial da existência, nasceríamos felizes e morreríamos contentes na própria maternidade.
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 SERENIDADE
Serenidade significa conformar-se com a existência num sentido puramente objetivo, ou seja, não pedir da vida aquilo que não pode dar; olhar-se no espelho e saber que, apesar de nossos sonhos mais grandiosos, isso é tudo o que a vida nos reserva; realmente tudo. Não se trata de conformismo, mas de proteger-se daquilo que nos torna ansiosos e insatisfeitos com o presente. Sem dúvida, sedativos podem dar-nos essa mesma serenidade, o sono pode nos dar paz por algumas horas, mas somente a compreensão clara da nulidade da vida nos fará sentir que não estamos perdendo tempo ao conduzir uma existência sem grandes ambições, como um mero passatempo. Quando a vida é levada muito a sério, sofremos num empreendimento pelo qual nunca seremos recompensados.
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EPÍLOGO
Mergulhamos na inconsciência do mundo; o sentido da vida tornou-se gramática. Abrimos os olhos, e tudo é escuridão; procuramos pela vida, e tudo está morto; gritamos, e tudo é silêncio; explicamos, e nada se esclarece. Restamos como um suicídio teórico exilado de qualquer sentido, distante de qualquer presença, perdido de tudo o que acreditávamos ser. Em vez de vivos, apenas derramados na existência, fluindo para o anonimato, para longe de qualquer definição, para nunca mais ser encontrados.
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