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Resenha

Os poemas que compõem este livro começaram a ser escritos por volta de 2002, quando percebi um tipo de dualidade, ou talvez mesmo uma cisão, no cerne da subjetividade humana.

Mesmo que precariamente, passei a investigar a natureza desse conflito, que veio a tornar-se cada vez mais central em meu pensamento.

Pessoalmente, sempre fui inclinado à racionalidade. Mas, ao mesmo tempo em que via o mundo numa perspectiva racional, perfeitamente lógica, baseada na ciência, tinha também a vaga percepção isso não era a questão toda — mas o que mais seria?

Procurava pelo sentido das coisas. Contudo, sabia que essa questão já havia sido solucionada — ora, o sentido é a perpetuação. Está em qualquer livro de Biologia. Então por que essa questão continuava a me incomodar? Não sabia dizer.

Perseguia-me a sensação de que havia uma incompletude fundamental no saber apenas racional da vida, e isso me causava um profundo mal-estar, pois minha razão dizia-me exatamente o contrário — que não havia incompletude alguma.

Por vários anos, tentei resolver essa questão, mas não conseguia sequer dar forma ao problema. Ainda sem entender claramente o que queria dizer, sentia a necessidade de expressar-me, e foi nesse processo de tentar trazer à luz algo que pertencia às profundezas que surgiram estes poemas.

André Cancian
2007




Resenha

Este livro, minha primeira investida na área de ficção, gira em torno de um personagem chamado Joe. Apesar de ser um romance, o foco da história não são fatos ou acontecimentos, tampouco o personagem enquanto ser humano de carne e osso. Tentei uma abordagem um pouco diferente nesse sentido.

A ideia que animou a produção desta obra foi ilustrar, não em teoria, mas no contexto da vida prática, toda aquela perplexidade que se apodera de nós quando voltamos nossos olhares ao mundo numa perspectiva, por assim dizer, “existencialista”, e nos vemos tomados pela sensação do absurdo que é existir.

Como o personagem vive imerso em tais devaneios, sua vida prática passa a ser um elemento predominantemente secundário, como um sonho distante cuja única utilidade é fornecer material ao seu pensamento. A vida converte-se assim em pano de fundo, e o personagem passa seus dias absorto em elucubrações e teorizações sobre a vida — que para ele é um enfadonho encadeamento de banalidades.

Como o romance Joe consiste basicamente na história de uma teorização da vida prática, seria justo dizer que a obra se aproxima mais de uma dissertação filosófica que de uma obra propriamente literária, sendo a trama de eventos “reais” do livro, não sua essência, mas apenas uma estrutura de fundo, feita para servir de contexto às reflexões do personagem, que seriam o mais importante da obra.

Encarnando essa proposta, temos então Joe, um personagem essencialmente solitário e mal humorado, que odeia interações humanas, e cujos traços mais proeminentes são o sarcasmo, o cinismo e a apatia. Sua vida é basicamente uma sequência de eventos aleatórios, destituídos de significado, em que ele se vê acontecer inutilmente numa atmosfera de tédio e misantropia.

André Cancian
2009


Resenha

O Vazio da Máquina tem como finalidade apresentar ao leitor uma abordagem niilista da realidade e do homem. O livro inicia-se com definições básicas sobre niilismo, discutindo a relação deste com alguns aspectos de nossas vidas; isso para entendermos o niilismo com clareza, para deixarmos de vê-lo como uma postura extremada. Notaremos que o niilismo nada mais é que uma visão honesta e sensata da realidade. Complementando esse alicerce teórico inicial, tecemos algumas considerações sobre o conhecimento e a ciência.

Após esse momento, temos os ensaios críticos; investigamos alguns dos tópicos centrais da existência humana, clássicos da filosofia. Passamos por temas como solidão, hipocrisia, sofrimento, suicídio, loucura, egoísmo, felicidade. São, sem dúvida, assuntos pesados, mas é exatamente essa a proposta do livro; tratar de assuntos difíceis com clareza e honestidade, sem qualquer preocupação em poupar o leitor.

O fato, entretanto, é que gostamos de nos poupar. Mesmo que a ciência tenha nos proporcionado um conhecimento sólido sobre o mundo, ainda consideramos um tabu sermos completamente honestos. Temos medo do vazio da existência, o abismo niilista nos aterroriza. Mas veremos que esse medo é sem sentido, que é muito preferível aceitar uma existência sem sentido a continuar acreditando num sentido falso para a existência, que aponta para lugar nenhum. Ao sermos honestos, tudo o que temos a perder são ilusões.

Ao longo das reflexões, perceberemos que nossa moderna visão do mundo ainda esconde muitos preconceitos metafísicos; esses preconceitos fazem com que vejamos os fatos sob uma ótica constantemente falsa; fugimos daquilo que, inescapavelmente, determina nossas vidas. Sentimo-nos solitários, mas nunca tentamos entender por quê; sofremos, mas não damos importância a isso por acreditarmos que nossas vidas caminham em direção à felicidade absoluta; somos egoístas e hipócritas, mas não o admitimos porque consentimos em ser calados pelas convenções sociais; indivíduos matam-se todos os dias e, em vez de tentar entender o porquê, simplesmente repetimos chavões mecanicamente até alguma ocupação nos tirar essa ideia angustiante da cabeça. Fugimos de todos esses assuntos como covardes.

Deixamos essas questões de lado porque pensamos que investigá-las nos conduziria à loucura. Muito pelo contrário; isso nos conduziria apenas à lucidez, nos permitiria viver com os pés no chão. As respostas para tais questões são muito mais óbvias do que pensamos, e muitas vezes sabemos quais são. Parece quase surreal que, para proteger pequenas ilusões cotidianas, inventamos grandiosas ilusões metafísicas. Contudo, é fato; realmente fazemos isso. Preferimos abraçar várias ilusões absurdas a aceitar a realidade mais elementar, que está bem diante de nossos olhos. Todas essas incoerências são resultado dos preconceitos metafísicos aos quais ainda nos agarramos desesperadamente em busca de um sentido que não faz sentido algum. Afirmamos que tais assuntos são demasiado profundos apenas como pretexto para tratá-los superficialmente; vemo-los como perguntas impossíveis de ser respondidas apenas porque temos medo das respostas.

Nós realmente somos aquilo que parecemos ser: máquinas. Não há nada por detrás. Esse por detrás foi inventado por nós numa tentativa infantil de humanizar a existência. Já perdemos tempo demais nos enganando com esse conceito falso de profundidade do saber. Temos o mundo diante de nossos olhos, e podemos compreendê-lo nós mesmos. Não precisamos do intermédio da ótica de alguma teoria que tenta garantir que nosso cérebro nunca se torne parte da equação. Esse é o único modo de chegarmos a compreender todas as nossas limitações, mas também todas as nossas possibilidades reais, e empregar todo o nosso entendimento para tirar algum proveito de uma existência tão pouco aproveitável como a nossa.

Temos diante de nós a tarefa de realmente nos valermos de nosso conhecimento; desnudar o homem moderno; apontar seus preconceitos metafísicos e morais; quebrar algumas de suas muletas, algumas de suas dúvidas mais vergonhosas; trazer à luz algumas de nossas mentiras mais sagradas, algumas de nossas verdades mais secretas. É uma dolorosa revisão da realidade, mas há muito necessária para limparmos a vista.


Resenha

A obra Ateísmo & Liberdade foi concebida com o objetivo de lançar alguma luz sobre questões fundamentais da existência humana, num tom sempre honesto, sóbrio e crítico.

Primeiramente põe em evidência que a meta da obra não é, de modo algum, estabelecer verdades absolutas ou convencer todos a um ponto de vista específico, mas, pelo contrário, mostrar que, por detrás da aparente solidez de nosso conhecimento da realidade, há sempre margem para erros – do mesmo modo que a solidez de uma placa tectônica esconde a fluidez do magma sobre o qual está, algo do qual dificilmente desconfiaríamos pela intuição. Portanto, em nosso conhecimento, há – e deve haver – lugar para a dúvida, para a incerteza, pois deste modo nosso conhecimento não ficará cristalizado na forma de crenças impermeáveis às novas evidências que vierem a ser descobertas e às novas teorias que vierem a ser formuladas.

Portanto, esta é, antes de tudo, a principal proposta da obra: introduzir o leitor no mundo do livre-pensamento, da criticidade – do duvidar, pensar e, por fim, concluir racionalmente –, abandonando o hábito comum de aceitar e incorporar informações passivamente, sem antes pensar sobre elas de modo crítico, sem antes procurar descobrir se estas possuem alguma correspondência na realidade.

Sobre essas bases introdutórias, segue-se uma análise crítica sobre a possibilidade da existência de algum tipo de divindade – não para, intencionalmente, provar ou refutar sua existência, mas sim para concluir, a partir do que sabemos sobre o mundo, isto: quão provável ou improvável é a existência dessa entidade? Assim, é sempre bom ter em mente a passagem do livro que afirma: se a hipótese de um Deus criador vier a tornar-se a explicação mais plausível e mais condizente com os fatos e com o conhecimento, então deveremos forçosamente rejeitar o ateísmo, pois, se não o fizermos, certamente estaremos abdicando de nossa própria racionalidade. A Parte I da obra versa principalmente sobre tal tema, incluindo também um esboço sobre a psicologia da crença.

A Parte II da obra abre-se com um capítulo dedicado à Teoria da Evolução, que servirá como referencial para analisar vários fatores e questões da natureza humana numa ótica naturalista. Tendo isso como base, a Parte II tenta apresentar uma visão natural do mundo e do homem, usando para isso uma perspectiva nos moldes da ciência: racional, objetiva e aberta.

Primeiramente, as questões levantadas envolvem temas como o antropocentrismo, seu efeito na cosmovisão humana e a relevância de levar tais fatores em consideração no que concerne a aquisição de conhecimento. Entender o modo como nosso cérebro processa e interpreta os dados captados pelos sentidos é uma das preocupações principais nesta etapa do livro.

Feita a distinção teórica entre o objetivo e o subjetivo, está pronto o terreno para analisar outra questão: o que é a moral? O que é um valor moral? A perspectiva até então apresentada torna mais fácil a compreensão da origem e função de conceitos como bem e mal ou certo e errado.

Chega-se, posteriormente, à questão do sentido da vida. Trazendo as conclusões dos três capítulos anteriores, faz-se a fusão da Teoria da Evolução com a faceta subjetiva da psicologia humana, tão adaptativa, enfocando aquilo que concerne a valoração e a motivação, e assim vemos que existe um dualismo na questão do sentido da vida.

Adentrando nesta análise da psicologia humana, o próximo capítulo procura delinear algumas correspondências entre nosso comportamento, nossas emoções e sentimentos, e nossas necessidades biológicas esculpidas pela evolução ao longo de milhões e milhões de anos – levantando, juntamente, a questão da descontextualização da espécie Homo sapiens à vida na civilização moderna.

Por fim, é apresentado aquilo que se pode denominar um esboço provisório do lugar do homem no mundo. Em sua humilde posição, o homem se sente extremamente importante, e isso soa contraditório; mas, aos que chegarem a este ponto da leitura, o porquê provavelmente já terá se tornado óbvio.

A Parte III contém um ensaio intitulado Sobre a Liberdade e o Livre-Arbítrio, que consiste de uma investigação acerca do significado de tais conceitos e de sua compatibilidade com o homem, tendo como foco central a questão de termos ou não uma vontade livre. Ademais, a Parte III contém o poema Ateísmo & Liberdade, inspirado nas idéias que a obra apresenta e algumas palavras do autor, por si mesmo.


Resenha

A relação entre ateísmo e niilismo, apesar de crucial para compreendermos o impacto da descrença em deus na subjetividade humana, é muitas vezes negligenciada.

No processo de abandonar a crença em deus(es), costuma-se dar pouca atenção aos aspectos humanos da crença. Disso é comum resultar um ateísmo leviano, rude, calcado num feroz combate à religião.

Assim, luta-se contra a religião, não por motivos legítimos, mas simplesmente como quem lutasse por seu “time”, na ingênua suposição de que, se todos fossem “racionais”, o mundo estaria “salvo”. Ora, essa não é exatamente a postura de um religioso, às avessas?

Tal postura parece ignorar o fato de que a religiosidade — não a religião — é reflexo de nossa própria humanidade e, sendo esse o caso, não poderíamos simplesmente suprimi-la, sem com isso extirpar parte de quem somos.

Claro que, dadas as evidências atuais, já não há cabimento em acreditarmos na existência de um “fantasma criador”, mas também não há cabimento em reduzirmos a religiosidade a uma “aberração”, como se sentimentos religiosos fossem simplesmente “inventados” pela religião. Pois não são. Tais sentimentos estão presentes em todos nós, crentes ou descrentes.

A religião não é uma “aberração delirante”, mas simplesmente uma interpretação equivocada de alguns aspectos de nossa vida interior. Sem dúvida, a religião é falsa, mas os sentimentos com os quais ela lida são indiscutivelmente reais (e entenda-se bem: reais são os sentimentos, não as explicações que eles inspiram).

Esse é um dos pontos centrais da discussão.

Outro ponto é que, ao tornar-se ateu, o indivíduo abandona a figura divina, mas geralmente não abandona aquilo que tal figura justificava — ou seja, os dogmas sobre o “valor da vida” e sobre o “sentido da vida”, os quais são, por assim dizer, “contrabandeados” à sua visão supostamente “esclarecida” da realidade.

Essa circunstância de os ateus, apesar de abandonarem deus, permanecerem abraçados aos dogmas que a figura divina justificava, configura o quadro que, no livro, se descreve como “descrença parcial”. No caso, seria o apego emocional a tais “destroços metafísicos” que, ao proporcionar um consolo parcial, nos faria resistir à descrença total, isto é, ao niilismo.

O livro, naturalmente, passa por vários outros assuntos, mas seu foco principal é entender essa controvérsia da crença/descrença em termos mais humanos, menos conceituais.

Publicações que discutam esse tipo de questão, apesar de necessárias, são bastante escassas. Daí a importância que, aos nossos olhos, tem a presente obra, preenchendo uma lacuna muito relevante à discussão da problemática da “morte de deus”.

Esse tipo de leitura será especialmente interessante aos que já refletiram com alguma maturidade sobre tais assuntos, e que desejam investigar mais a fundo as implicações da “morte de deus” — não na infantil perspectiva de “combate” à religião, mas na perspectiva mais madura de um ser humano em busca de suas motivações mais fundamentais.

* * *

Até aqui, falamos apenas da proposta geral do livro, do que justificou escrevê-lo. Porém, como ele trata de assuntos bastante controversos, parece oportuno aproveitarmos a ocasião para explicar também seu conteúdo em linhas gerais.

A proposta central do livro é demonstrar que o niilismo se segue do ateísmo.

Assim, apesar do título, a obra não trata da (in)existência de deus(es). Toma-se o ateísmo apenas como ponto de partida e, daí em diante, tenta-se elaborar um caso convincente em favor do niilismo enquanto postura teórica — lembrando que também o ateísmo não é algo que se “pratica”, mas meramente uma postura teórica que se assume em relação à existência de deus.

O niilismo defendido no livro consiste no chamado “niilismo existencial”, segundo o qual nossa existência seria algo desprovido de sentido, bem como de valor intrínseco. O homem não passaria, nessa ótica, de um acidente na história do tempo.

Dada a quantidade de áreas que se relacionam com ateísmo e niilismo — moral, religião, psicologia, biologia e evolução, história, filosofia, cosmologia, e assim por diante —, foi preciso um cuidado considerável na organização dos assuntos, de modo a abordá-los de uma maneira, não só sistemática e bem fundamentada, mas também linear, clara e intuitiva.

O livro divide-se em quatro partes, cada qual com um objetivo específico dentro da proposta geral de apresentar uma leitura contemporânea do niilismo.

A primeira parte, que ocupa quase metade do livro, dedica-se a definir o niilismo, fundamentando-o no conhecimento científico de que dispomos acerca da realidade. Nesse processo, a linha de argumentação utilizada é bastante semelhante à do ateísmo: não devemos acreditar em hipóteses para as quais não haja evidências.

Por que o ateu não acredita em deus? Porque não há evidências. Por que o niilista não acredita num sentido da vida? Porque não há evidências. Naturalmente, o assunto é mais complexo que isso, mas o paralelo é apenas para nos dar uma ideia da abordagem utilizada. Nessa primeira parte, também será apresentada uma defesa do niilismo moral, que consiste na ideia de que não há valores morais objetivos, isto é, independentes do homem (realismo moral).

A segunda parte será uma tentativa de situar nossos valores morais dentro da realidade conhecida, para que assim consigamos pensar sobre tal assunto de uma maneira mais sóbria, evitando a comum tendência de simplesmente “acreditarmos” neste ou naquele valor (ou “ideal”), sem realmente entendê-lo.

A terceira parte buscará elucidar o que seria exatamente esse “sentido” que buscamos em nossas vidas e, ao lado disso, também apresentará um esboço da psicologia da crença, tentando explicar quais mecanismos mentais estão envolvidos nesse processo de “acreditar”, e como esse acreditar poderia possivelmente estar envolvido naquilo que sentimos “dar sentido” às nossas vidas.

A última parte, que é relativamente curta, consiste de alguns apontamentos sobre como integrar diferentes perspectivas da realidade numa só visão, de modo a superarmos algumas dicotomias que costumam habitar nosso pensamento individual, explicando que não faria sentido pensar em “verdades humanas” usando o mesmo modelo das ciências naturais.

Ainda que essa apresentação esteja bastante resumida, já se pode perceber que o livro gira em torno dos questionamentos mais básicos do homem sobre si mesmo, buscando entender sua natureza e seu lugar na existência.

É exatamente esse tipo de questionamento que, em geral, nos leva ao ateísmo — e que, se aprofundado, nos levará ao niilismo.