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A redação de Ateísmo e Niilismo iniciou-se em meados de 2010 e, um ano depois, a obra finalmente vem a público.

A relação entre ateísmo e niilismo, apesar de crucial para compreendermos o impacto da descrença em deus na subjetividade humana, é muitas vezes negligenciada.

No processo de abandonar a crença em deus(es), costuma-se dar pouca atenção aos aspectos humanos da crença. Disso é comum resultar um ateísmo leviano, rude, calcado num feroz combate à religião.

Assim, luta-se contra a religião, não por motivos legítimos, mas simplesmente como quem lutasse por seu “time”, na ingênua suposição de que, se todos fossem “racionais”, o mundo estaria “salvo”. Ora, essa não é exatamente a postura de um religioso, às avessas?

Tal postura parece ignorar o fato de que a religiosidade — não a religião — é reflexo de nossa própria humanidade e, sendo esse o caso, não poderíamos simplesmente suprimi-la, sem com isso extirpar parte de quem somos.

Claro que, dadas as evidências atuais, já não há cabimento em acreditarmos na existência de um “fantasma criador”, mas também não há cabimento em reduzirmos a religiosidade a uma “aberração”, como se sentimentos religiosos fossem simplesmente “inventados” pela religião. Pois não são. Tais sentimentos estão presentes em todos nós, crentes ou descrentes.

A religião não é uma “aberração delirante”, mas simplesmente uma interpretação equivocada de alguns aspectos de nossa vida interior. Sem dúvida, a religião é falsa, mas os sentimentos com os quais ela lida são indiscutivelmente reais (e entenda-se bem: reais são os sentimentos, não as explicações que eles inspiram).

Esse é um dos pontos centrais da discussão.

Outro ponto é que, ao tornar-se ateu, o indivíduo abandona a figura divina, mas geralmente não abandona aquilo que tal figura justificava — ou seja, os dogmas sobre o “valor da vida” e sobre o “sentido da vida”, os quais são, por assim dizer, “contrabandeados” à sua visão supostamente “esclarecida” da realidade.

Essa circunstância de os ateus, apesar de abandonarem deus, permanecerem abraçados aos dogmas que a figura divina justificava, configura o quadro que, no livro, se descreve como “descrença parcial”. No caso, seria o apego emocional a tais “destroços metafísicos” que, ao proporcionar um consolo parcial, nos faria resistir à descrença total, isto é, ao niilismo.

O livro, naturalmente, passa por vários outros assuntos, mas seu foco principal é entender essa controvérsia da crença/descrença em termos mais humanos, menos conceituais.

Publicações que discutam esse tipo de questão, apesar de necessárias, são bastante escassas. Daí a importância que, aos nossos olhos, tem a presente obra, preenchendo uma lacuna muito relevante à discussão da problemática da “morte de deus”.

Esse tipo de leitura será especialmente interessante aos que já refletiram com alguma maturidade sobre tais assuntos, e que desejam investigar mais a fundo as implicações da “morte de deus” — não na infantil perspectiva de “combate” à religião, mas na perspectiva mais madura de um ser humano em busca de suas motivações mais fundamentais.

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Até aqui, falamos apenas da proposta geral do livro, do que justificou escrevê-lo. Porém, como ele trata de assuntos bastante controversos, parece oportuno aproveitarmos a ocasião para explicar também seu conteúdo em linhas gerais.

A proposta central do livro é demonstrar que o niilismo se segue do ateísmo.

Assim, apesar do título, a obra não trata da (in)existência de deus(es). Toma-se o ateísmo apenas como ponto de partida e, daí em diante, tenta-se elaborar um caso convincente em favor do niilismo enquanto postura teórica — lembrando que também o ateísmo não é algo que se “pratica”, mas meramente uma postura teórica que se assume em relação à existência de deus.

O niilismo defendido no livro consiste no chamado “niilismo existencial”, segundo o qual nossa existência seria algo desprovido de sentido, bem como de valor intrínseco. O homem não passaria, nessa ótica, de um acidente na história do tempo.

Dada a quantidade de áreas que se relacionam com ateísmo e niilismo — moral, religião, psicologia, biologia e evolução, história, filosofia, cosmologia, e assim por diante —, foi preciso um cuidado considerável na organização dos assuntos, de modo a abordá-los de uma maneira, não só sistemática e bem fundamentada, mas também linear, clara e intuitiva.

O livro divide-se em quatro partes, cada qual com um objetivo específico dentro da proposta geral de apresentar uma leitura contemporânea do niilismo.

A primeira parte, que ocupa quase metade do livro, dedica-se a definir o niilismo, fundamentando-o no conhecimento científico de que dispomos acerca da realidade. Nesse processo, a linha de argumentação utilizada é bastante semelhante à do ateísmo: não devemos acreditar em hipóteses para as quais não haja evidências.

Por que o ateu não acredita em deus? Porque não há evidências. Por que o niilista não acredita num sentido da vida? Porque não há evidências. Naturalmente, o assunto é mais complexo que isso, mas o paralelo é apenas para nos dar uma ideia da abordagem utilizada. Nessa primeira parte, também será apresentada uma defesa do niilismo moral, que consiste na ideia de que não há valores morais objetivos, isto é, independentes do homem (realismo moral).

A segunda parte será uma tentativa de situar nossos valores morais dentro da realidade conhecida, para que assim consigamos pensar sobre tal assunto de uma maneira mais sóbria, evitando a comum tendência de simplesmente “acreditarmos” neste ou naquele valor (ou “ideal”), sem realmente entendê-lo.

A terceira parte buscará elucidar o que seria exatamente esse “sentido” que buscamos em nossas vidas e, ao lado disso, também apresentará um esboço da psicologia da crença, tentando explicar quais mecanismos mentais estão envolvidos nesse processo de “acreditar”, e como esse acreditar poderia possivelmente estar envolvido naquilo que sentimos “dar sentido” às nossas vidas.

A última parte, que é relativamente curta, consiste de alguns apontamentos sobre como integrar diferentes perspectivas da realidade numa só visão, de modo a superarmos algumas dicotomias que costumam habitar nosso pensamento individual, explicando que não faria sentido pensar em “verdades humanas” usando o mesmo modelo das ciências naturais.

Ainda que essa apresentação esteja bastante resumida, já se pode perceber que o livro gira em torno dos questionamentos mais básicos do homem sobre si mesmo, buscando entender sua natureza e seu lugar na existência.

É exatamente esse tipo de questionamento que, em geral, nos leva ao ateísmo — e que, se aprofundado, nos levará ao niilismo.

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Diferentemente do que foi planejado, não haverá um lançamento físico oficial para o livro, mas apenas virtual. Mesmo assim, este não deixa de ser um momento de comemoração a todos os envolvidos neste projeto, seja na parte de produção — e aqui fica em especial o agradecimento a Jairo Moura, pelas cuidadosas revisões do manuscrito —, seja na parte de recepção, pois o interesse de tantos leitores, mesmo antes de a obra ser lançada, foi uma grande motivação à finalização do trabalho.

 

Ficha técnica:
Título: Ateísmo e Niilismo: reflexões sobre a morte de deus
Editor/autor: André Díspore Cancian
ISBN: 9788590555834
Ano: 2011
Edição: 1
Número de páginas: 360
Acabamento: Encadernação
Formato: Médio

Onde encontrar:

Ateus.net