Poesia Alguém gosta de ler ou escrever poesia'
#281
Postou 06/05/2013 - 17:27
“Não se deixe enganar em sua solidão só porque há algo em você que deseja sair dela. É bom ser solitário, pois a solidão é difícil; o fato de uma coisa ser difícil tem de ser mais um motivo para fazê-la. Amar também é bom: pois o amor é difícil. Ter amor, de uma pessoa por outra, talvez seja a coisa mais difícil que nos foi dada, a mais extrema, a derradeira prova e provação, o trabalho para o qual qualquer outro trabalho é apenas uma preparação. Por isso as pessoas jovens, iniciantes em tudo, ainda não podem amar: precisam aprender o amor. Com todo o seu ser, com todas as forças reunidas em seu coração solitário, receoso e acelerado, os jovens precisam aprender a amar. Mas o tempo de aprendizado é sempre um longo período de exclusão, de modo que o amor é por muito tempo, ao longo da vida, solidão, isolamento intenso e profundo para quem ama. A princípio o amor não é nada do que se chama ser absorvido, entregar-se e se unir com uma outra pessoa... O amor constitui uma oportunidade sublime para o indivíduo amadurecer, tornar-se algo, tornar-se um mundo, tornar-se um mundo para si mesmo por causa de uma outra pessoa; é uma grande exigência para o indivíduo, uma exigência irrestrita, algo que o destaca e o convoca para longe. Apenas neste sentido, como tarefa de trabalhar em si mesmos (“escutar e bater dia e noite”), as pessoas jovens deveriam fazer uso do amor que lhes é dado. a comunhão é o passo final, talvez uma meta para a qual a vida humana quase não seja o bastante. Uma única coisa é necessária: a solidão. A grande solidão interior. Ir dentro de si e não encontrar ninguém durante horas, é a isso que é preciso chegar. Estar só, como a criança está só. E só então, quando você começa a entender o que é solidão, você entende o que é o amor..."
#282
Postou 09/05/2013 - 23:07
Não leva o tempero das arte e da escola
É rude poeta, não sabe o que é lira
Saluça e suspira no som da viola.
Tu nele não acha tarvez, com agrado
Um trecho engraçado que faça uma escôia
Mas ele te mostra com gosto e vontade
A luz da verdade gravada nas fôia" - Patativa de Assaré.
#283
Postou 10/05/2013 - 21:01
Nunca fui senão uma criança que brincava.
Fui gentio com o sol e a água,
De uma religião universal que
[ só os homens não têm.
Fui feliz porque não pedi coisa nenhuma,
Nem procurei achar nada,
Nem achei que houvesse mais explicação
Que a palavra explicação não ter sentido nenhum.
Não desejei senão estar ao sol ou à chuva -
Ao sol quando havia sol
E à chuva quando estava chovendo
(E nunca a outra coisa)
Sentir calor e frio e vento,
E não ir mais longe.
Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto.
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que
[ na primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem
[ importância nenhuma.
Se soubesse que amanhã morria
E a primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era
[ depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela
[ de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo
[ esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu
[ não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo esta certo.
Podem rezar latim sobre o meu caixão,
[ se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar
[ à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não
[ puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.
- Alberto Caeiro
[
#284
Postou 10/05/2013 - 21:12
[ a minha biografia,
Não há nada mais simples.
Tem só duas datas - a da minha nascença
[ e a da minha morte.
Entre uma e outra coisa todos os dias
[ são meus.
Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as coisas sem sentimentalidade
[ nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse
[ realizar, porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão
[ um acompanhamento de ver.
Compreendi que as coisas são reais e todas
[ diferentes umas das outras.
Compreendi isto com os olhos, nunca com
[ o pensamento.
Compreender isto com o pensamento seria
[ achá-las todas iguais.
Um dia deu-me o sono como a qualquer
[ criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso, fui o único poeta da Natureza.
-Alberto Caeiro
#285
Postou 11/05/2013 - 11:37
Dia das Mães...
Mãe! eu volto a te ver na antiga sala
onde uma noite te deixei sem fala
dizendo adeus como quem vai morrer.
E me viste sumir pela neblina,
porque a sina das mães é esta sina:
amar, cuidar, criar, depois... perder.
Perder o filho é como achar a morte.
Perder o filho quando, grande e forte,
já podia ampará-la e compensá-la.
Mas nesse instante uma mulher bonita,
sorrindo, o rouba, e a velha mãe aflita
ainda se volta para abençoá-la
Assim parti, e nos abençoaste.
Fui esquecer o bem que me ensinaste,
fui para o mundo me deseducar.
E tu ficaste num silêncio frio,
olhando o leito que eu deixei vazio,
cantando uma cantiga de ninar.
Hoje volto coberto de poeira
e te encontro quietinha na cadeira,
a cabeça pendida sobre o peito.
Quero beijar-te a fronte, e não me atrevo.
Quero acordar-te, mas não sei se devo,
não sinto que me caiba este direito.
O direito de dar-te este desgosto,
de te mostrar nas rugas do meu rosto
toda a miséria que me aconteceu.
E quando vires e expressão horrível
da minha máscara irreconhecível,
minha voz rouca murmurar:''Sou eu!"
Eu bebi na taberna dos cretinos,
eu brandi o punhal dos assassinos,
eu andei pelo braço dos canalhas.
Eu fui jogral em todas as comédias,
eu fui vilão em todas as tragédias,
eu fui covarde em todas as batalhas.
Eu te esqueci: as mães são esquecidas.
Vivi a vida, vivi muitas vidas,
e só agora, quando chego ao fim,
traído pela última esperança,
e só agora quando a dor me alcança
lembro quem nunca se esqueceu de mim.
Não! Eu devo voltar, ser esquecido.
Mas que foi? De repente ouço um ruído;
a cadeira rangeu; é tarde agora!
Minha mãe se levanta abrindo os braços
e, me envolvendo num milhão de abraços,
rendendo graçs, diz:"Meu filho!", e chora.
E chora e treme, como fala e ri,
e parece que Deus entrou aqui,
em vez de o último dos condenados.
E o seu pranto rolando em minha face
quase é como se o Céu me perdoasse,
me limpasse de todos os pecados.
Mãe! Nos teus braços eu me tranfiguro.
Lembro que fui criança, que fui puro.
Sim, tenho mãe! E esta ventura é tanta
que eu compreendo o que significa:
o filho é pobre, mas a mãe é rica!
O filho é homem, mas a mãe é santa!
Santa que eu fiz envelhecer sofrendo,
mas que me beija como agradecendo
toda a dor que por mim lhe foi causada.
Dos mundos onde andei nada te trouxe,
mas tu me olhas num olhar tão doce
que , nada tendo, não te falta nada.
Dia das Mães! É o dia da bondade
maior que todo o mal da humanidade
purificada num amor fecundo.
Por mais que o homem seja um mesquinho,
enquanto a Mãe cantar junto a um bercinho
cantará a esperança para o mundo!
#286
Postou 12/05/2013 - 21:30
Terminar sozinho
no túmulo de um quarto
sem cigarros
nem bebida –
careca como uma lâmpada,
barrigudo,
grisalho,
e feliz por ter
um quarto
#287
Postou 15/05/2013 - 18:20
A Morte Não É Nada Para Nós
Habitua-te a pensar que a morte não é nada para nós, pois que o bem e o mal só existem na sensação. Donde se segue que um conhecimento exacto do facto de a morte não ser nada para nós permite-nos usufruir esta vida mortal, evitando que lhe atribuamos uma idéia de duração eterna e poupando-nos o pesar da imortalidade. Pois nada há de temível na vida para quem compreendeu nada haver de temível no facto de não viver. É pois, tolo quem afirma temer a morte, não porque sua vinda seja temível, mas porque é temível esperá-la.
Tolice afligir-se com a espera da morte, pois trata-se de algo que, uma vez vindo, não causa mal. Assim, o mais espantoso de todos os males, a morte, não é nada para nós, pois enquanto vivemos, ela não existe, e quando chega, não existimos mais.
Não há morte, então, nem para os vivos nem para os mortos, porquanto para uns não existe, e os outros não existem mais. Mas o vulgo, ou a teme como o pior dos males, ou a deseja como termo para os males da vida. O sábio não teme a morte, a vida não lhe é nenhum fardo, nem ele crê que seja um mal não mais existir. Assim como não é a abundância dos manjares, mas a sua qualidade, que nos delicia, assim também não é a longa duração da vida, mas seu encanto, que nos apraz. Quanto aos que aconselham os jovens a viverem bem, e os velhos a bem morrerem, são uns ingénuos, não apenas porque a vida tem encanto mesmo para os velhos, como porque o cuidado de viver bem e o de bem morrer constituem um único e mesmo cuidado.
Epicuro, in "A Conduta na Vida"
#288
Postou 15/05/2013 - 22:40
Nos homens, não - espuma de um segundo...
Se Colombo morresse em pequenino,
O Neves descobriria o Novo Mundo.
Mario Quintana
#289
Postou 17/05/2013 - 18:18
Mario Quintana
Era mesmo a daquele profeta que todos pensaram
que fosse um louco
só porque saiu desfilando nu pelas ruas,
com um enorme cartaz inteiramente em branco.
fonte: A Vaca e o Hipogrifo
#290
Postou 17/05/2013 - 19:07
Entre as verdades sobre as quais habitualmente meditas, inclui estas duas: Uma que as coisas não nos atingem a alma... a outra, que tudo o que vês logo se transformará e deixará de existir. Quantas transformações tu mesmo já viste!
O mundo é mudança e a vida opinião.
Marco Aurélio.
#291
Postou 17/05/2013 - 21:07
Nasrudin conversava com um amigo:
– Então, Mullah, nunca pensaste em casamento?
– Muito. – respondeu Nasrudin – Em minha juventude, resolvi conhecer a mulher perfeita. Atravessei o deserto, estive em Damasco e conheci uma mulher espiritualizada e linda; mas ela não sabia nada das coisas do mundo. Continuei a viagem e fui a Isfahan; lá encontrei uma mulher que conhecia o reino da matéria e do espírito, mas não era bonita. Então resolvi ir até o Cairo, onde, finalmente, jantei na casa de uma moça bonita, religiosa e conhecedora da realidade material.
– E por que não casaste com ela?
– Ah, meu companheiro! Infelizmente ela também procurava um homem perfeito.
#292
Postou 18/05/2013 - 03:43
there are worse things than
being alone
but it often takes decades
to realize this
and most often
when you do
it's too late
and there's nothing worse
than
too late.
- Charles Bukowski
#293
Postou 18/05/2013 - 03:52
Deslizo pela tarde e me debato em pensamento,
Me vejo como um barco capotado
Embora envolto em lamento e sofrimento,
Não me vejo aconselhado.
Mas por que ficar ressentido?
Em cem anos, tudo será esquecido.
Talvez fosse melhor me dar por acabado
Seguir até o mar com dores na alma.
E o mundo me encontraria afogado
O amargo fim num momento de calma.
Mas por que ser tão pervertido?
Em cem anos, tudo será esquecido.
- Knut Hamsun
Olha so, eu estava procurando uma traducao em portugues desse poema para postar aqui, e eis que me deparo com uma traducao feita pelo Jairo (Arcturus) e postada pelo Cancian. Bem, creio que deveria dar os devidos creditos.
#294
Postou 18/05/2013 - 14:47
―Manoel de Barros
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