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Poesia


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577 respostas neste tópico

#561 Karin

Karin

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Postado 11/01/2015 - 05:16

AS MOSCAS DA PRAÇA PÚBLICA – Friedrich Nietzsche
 

 

“Foge, meu amigo, para tua solidão! Eu te vejo aturdido pelo rumor dos grandes homens e apoquentado pelo aguilhão dos pequenos.

Dignamente contigo sabem calar-se os bosques e os rochedos. Assemelha-te de novo à árvore que amas, a árvore de grande ramagem que escuta silenciosa, suspensa sobre o mar.

Onde cessa a solidão, começa a praça pública; onde começa a praça pública começa também o ruído dos grandes cômicos e o zumbido das moscas venenosas.

No mundo as melhores coisas nada valem se não houver alguém que as ponha em cena. O povo chama a esses encenadores de grandes homens.

O povo não tem a dimensão do que é grande, quer dizer, o que cria. Mas dá sentido a todos os apresentadores e a todos os comediantes.

O mundo gira em torno dos inventores de novos valores. Gira de modo invisível, mas é em torno dos comediantes que gira o povo e a fama: assim anda o mundo.

(…) Derrubar: chama a isto demonstrar. Enlouquecer: chama a isto convencer. E o sangue é para ele o melhor de todos os argumentos.

Chama mentira e nada a uma verdade que só penetra em ouvidos apurados. Verdadeiramente só crê em deuses que provocam muito barulho no mundo.

A praça pública está cheia de palhaços solenes e o povo se vangloria de seus grandes homens. São para eles os senhores do momento.

O momento os oprime e eles a ti, por sua vez, oprimem. Exigem de si um sim ou um não. Infeliz! Queres colocar-te entre um pró e um contra?

Não invejes esses intransigentes, esses exigentes, tu que amas a verdade! Nunca a verdade pendeu do braço de um intransigente.

Diante desses impulsivos, recua para teu abrigo! Não é só na praça pública que assediam para arrancar a alguém “um sim ou um não?”

Com muito vagar é que todos os poços profundos vivem sua experiência. Têm de esperar muito tempo para saber o que foi que caiu em seu fundo.

Tudo quanto é grande passa ao largo da praça pública e da fama. Longe da praça pública e da fama sempre viveram os inventores de novos valores.

Foge, meu amigo, para tua solidão. Vejo-te atacado por moscas venenosas. Refugia-te onde sopre um vento rijo e forte!

Foge para tua solidão. Vivias próximo demais dos pequenos e mesquinhos. Não levantes mais o braço contra eles! São inumeráveis e teu destino não é ser espanta-moscas!São inumeráveis esses pequenos e mesquinhos e mais de um altivo edifício foi visto desmoronar sob a ação dessas infinitas gotas

(…)

Vejo-te picado pelas moscas venenosas, vejo-te arranhado e sangrando em muitos lugares. E teu orgulho nem uma só vez se quer encolerizar.

(…)

Muitas vezes, também se tornam amáveis contigo, mas foi sempre essa a astúcia dos covardes. Sim, os covardes são astutos!

Pensam muito em ti com sua alma mesquinha. Suspeitam sempre de ti. Tudo o que dá muito que pensar se torna inquietante.

Como és benévolo e justo, chegas a dizer: “Não têm culpa da mesquinhez de sua vida”. Mas sua alma tacanha pensa: “Aquele que vive uma grande vida é sempre culpado”.

(…)

Foge, meu amigo, para tua solidão, para onde sopre vento rijo e forte. Não é destino teu ser espanta-moscas.

Assim falava Zaratustra.”


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#562 Karin

Karin

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Postado 12/01/2015 - 10:18

José - Drummond

 

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio – e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?


  • 0

#563 Liah

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Postado 12/01/2015 - 22:26

"O pequeno vaga-lume
com sua verde lanterna,
que passava pela sombra
inquietando a flor e a treva
- meteoro da noite, humilde,
dos horizontes da relva;
o pequeno vaga-lume,
queimada a sua lanterna,
jaz carbonizado e triste 
e qualquer brisa o carrega:
mortalha de exíguas franjas
que foi seu corpo de festa.
Parecia uma esmeralda
e é um ponto negro na pedra.
Foi luz alada, pequena
estrela em rápida seta.
Quebrou-se a máquina breve 
na precipitada queda.
E o maior sábio do mundo
sabe que não a conserta."

 

Cecília Meireles. In: A Máquina Breve.


  • 0

#564 Karin

Karin

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Postado 16/01/2015 - 08:39

ignis fatuus

 

a única solidão é

sono ou morte

nós não éramos inteligentes o bastante
gentis com os outros e cruéis para si mesmo
quando pedimos a nós mesmos por misericórdia

e isso foi negado

 

a mais sagrada privacidade permanece

nos esperando
e tudo que foi

incompreendido ou abandonado

se reunirá

 

deixe meu fracasso ser sua sorte
isso que foi um quebrado

e descuidado
erro

 

 

que seja conhecido
que saber sua própria morte

é morrer duas vezes
uma vez realmente

e então, quase nada

 

 

que seja conhecido

que não há nada tão feio

em tudo que é tangente

como a besta humana

um truque definido contra o sangue de sua alma

 

 

que seja conhecido

que a solidão é a única

misericórdia

e a única

amante

 

 

que seja conhecido

que um homem não precisa ser Cristo

para ser crucificado

 

que seja conhecido

que um homem pode ser

crucificado

a cada dia

a cada momento

a cada respiração

de sono e vigília

e então ser atormentado novamente

que seja conhecido

que um homem pode morrer

e morrer

e morrer

e morrer

e ainda sentir a dor

e saber que está morto

e ainda sentir a dor

e saber que não há nada que ele possa fazer

e ainda  sentir

a dor

que seja conhecido

 

 

que seja conhecido

que os templos não são nada

e os sinos não são nada

e a fama não é nada

e a vitória não é nada

e o sexo não é nada

e que a solidão traz loucura

e a multidão traz loucura

e bebem  e comem o corpo

como um tigre

que não há nenhuma voz para falar com

nenhum ouvido para ouvir

 

que seja conhecido

que haverá outros homens como eu

levantados  para a boca dos leões

queimados  por falsos amores

enganados por gentileza

alvejados pelo intelecto

tontos por ramalhete

sacrificados para o lucro

utilizados como mão de obra barata

e estes serão os mais gentis dos acontecimentos

em comparação com o que vai entrar no olho

e na orelha

e no cérebro

e escoar para as entranhas para começar seu

trabalho de morte

eu tenho pena que todos esses meus irmãos

que vão me seguir nos séculos

Incapazes de amar, porque não há nada para amar

Incapazes de matar, porque não há nada vivo

Para sempre pendurados e

sangrando e tontos

Pela besta

humana

as paredes

os jardins

o sol

as flores

os beijos

as bandeiras

os mares

os animais

a comida

os licores

as pinturas

as sinfonias

tudo inutilidade

 

que seja conhecido

que a maioria dos homens

adoram quando podem ver

e eles vêem uns aos outros

e eles adoram isso

porque eles vêem muito pouco

 

 

que seja conhecido

que eu sou amargo

e condenado
e cansado

e inútil

 

 

que seja conhecido

que quando esperança final se vai

lá permanece, mas olhando para a dança

e observando a relação fraca

dos idiotas

com muito pouco anotações

que seja conhecido

que eu estou morto

mas não existe raiva

que seja conhecido

que a maioria dos homens estão mortos

muitos anos antes do enterro

que seja conhecido

que muitos homens morrem na infância

que muitos homens nascem mortos

embora as suas partes se movam

e fazem som

e crescem

e avançam

no comportamento adulto

e fazem  as coisas da

civilização

Que seja conhecido

que estes homens nunca existiram

e que seus funerais

foram  enormes farsas

e também as lágrimas mortas

para o já morto

que seja conhecido

que os próprios vermes

estavam mais perto da verdade

na medida em que

não

choram
 

 

que seja  conhecido

que o nascimento não é santo

que a morte não é santa

que a vida não é santa

que seja conhecido

que eu tenho sangrado sem coroas

que  eu vou sangrar em um momento

que eu vou sangrar para sempre

vermelho

vermelho

vermelho

e os falcões vão dançar

dentro dos meus ossos

e regozijar
 

 

que seja conhecido

que eu não morra pelos pecados do homem

mas que eu morra pelo o quê o homem é

e para o que eu quase fui

eles- muito pouco de qualquer coisa

em mim mesmo levantou o suficiente

para ver o horror

o adoecer

e enlouquecer

e murchar
 

 

não tome como pessoal

o que eu digo sobre a vida

completamente

ou o homem

completamente

a não ser que

em outro plano

você se considera

um defensor da vida e do homem

o que é apenas uma outra fraqueza natural das espécies

como um rato guardando seu ninho

e para o qual

eu não posso te culpar totalmente

a única solidão é a morte

mas não esta morte

não esta morte

não

esta

 

morte.

 

              - Charles Bukowski


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#565 Liah

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Postado 21/01/2015 - 12:19

Canção

 

Escrevo teu nome na minha memória,
mas inutilmente, mas inutilmente:
pois é tua mão ela mesma que o apaga,
ela mesma que o apaga.

 

Escrevo o teu nome na vida e na morte,
mas inutilmente, mas inutilmente,
que o tempo da vida, que o tempo da morte
é o tempo que o apaga.

 

Escrevo teu nome no meu pensamento,
mas inutilmente, mas inutilmente,
que o meu pensamento, ele mesmo, o apaga,
ele mesmo o apaga.

 

Não há esperança nenhuma em teu nome,
não há duração, firmeza, verdade.
De pura inconstância é teu nome feito,
ele mesmo se apaga, ele mesmo se apaga.

 

1961

Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

 

 

***

 

 

Hieróglifo

 

Seria preciso em clima extremamente seco:
e nós estamos ainda muito inundados de lagrimas.

 

Seria preciso uma linguagem clara, nítida, indiscutível:
e nós falamos unicamente por elipses.

 

Seria preciso um leitor atento, aprendiz humilde e crédulo:
todos, porém, morreram, na guerra dos homens com os monstros.

 

Abramos, pois, a varanda, ó escriba, e gravemos no vento,
na memória do vento, alado, solitário a memória da Esfinge.

 

Abril, 1960 

Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)


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#566 Malta

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Postado 21/01/2015 - 15:04

Criança desconhecida e suja brincando à minha porta,

Não te pergunto se me trazes um recado dos símbolos.

Acho-te graça por nunca te ter visto antes,

E naturalmente se pudesses estar limpa eras outra criança,

Nem aqui vinhas.

Brinca na poeira, brinca!

Aprecio a tua presença só com os olhos.

Vale mais a pena ver uma cousa sempre pela primeira vez que conhecê-la,

Porque conhecer é como nunca ter visto pela primeira vez,

E nunca ter visto pela primeira vez é só ter ouvido contar.

 

O modo como esta criança está suja é diferente do modo como as outras estão sujas.

Brinca! pegando numa pedra que te cabe na mão,

Sabes que te cabe na mão.

Qual é a filosofia que chega a uma certeza maior?

Nenhuma, e nenhuma pode vir brincar, nunca à minha porta.

(Fernando Pessoa – poema de Alberto Caeiro)

#567 Malta

Malta

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Postado 21/01/2015 - 15:16

Ricardo Reis
 

Como

Como se cada beijo fora de despedida, Minha Cloe, beijemo-nos, amando. Talvez que já nos toque No ombro a mão, que chama À barca que não vem senão vazia; E que no mesmo feixe Ata o que mútuos fomos E a alheia soma universal da vida.

#568 Karin

Karin

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Postado 25/01/2015 - 10:18

Creio que o tópico permite frases de sabedoria:

 

 

Não se julga o que nunca se quis conhecer.


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#569 Liah

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Postado 25/01/2015 - 10:48

II

 

 

Boa noite, velhice, vens tão cedo
Não esperava, agora, a tua vinda.
Eu tão despreocupado estava, ainda,
Levando a vida como num brinquedo...

 

Tens tão meigo sorriso e um ar tão ledo
Nos teus cabelos como a prata é linda
Ao meu teto, velhice, sê bem vinda
Fica à vontade. Não me fazes medo.

 

E ela assim me falou, em tom amigo:
- Estranha me supões, mas, em verdade,
Há muito tempo que, ao teu lado, eu sigo.

 

Mas, da vida na estúrdia alacridade,

Não me viste viver, seguir contigo...
Eu sou, amigo, a tua mocidade.

 

 

Bastos tigre
de Antologia Poética – l.982 –


  • 0

#570 linho

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Postado 04/03/2015 - 18:55


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"É o indivíduo que não está interessado no seu semelhante quem tem as maiores dificuldades na vida e causa os maiores males aos outros. É entre tais indivíduos que se verificam todos os fracassos humanos".

#571 Marcia Helena

Marcia Helena

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Postado 12/04/2015 - 23:08

Operário em Construção - Vinicius de Moraes

 

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas 
Ele subia com as asas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia 
De sua grande missão:
Não sabia por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa quer ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De fato como podia
Um operário em construção
Compreender porque um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor
 e com cimento

Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento

Alem uma igreja, à frente
Um quartel  e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse eventualmente
Um operário em construção.
Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
`A mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado 
Que tudo naquela mesa
- Garrafa, prato, facão
Era ele quem fazia
Ele, um humilde operário
Um operário em construção.
Olhou em torno: a gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia 
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento 
Não sabereis nunca o quanto 
Aquele humilde operário 
Soube naquele momento 
Naquela casa vazia 
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia 
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado 
Olhou sua própria mão 
Sua rude mão de operário 
De operário em construção 
E olhando bem para ela 
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo 
Coisa que fosse mais bela. 

Foi dentro dessa compreensão 
Desse instante solitário 
Que, tal sua construção 
Cresceu também o operário 
Cresceu em alto e profundo 
Em largo e no coração 
E como tudo que cresce 
Ele não cresceu em vão 
Pois alem do que sabia 
- Exercer a profissão - 
O operário adquiriu 
Uma nova dimensão: 
A dimensão da poesia. 

E um fato novo se viu 
Que a todos admirava: 
O que o operário dizia 
Outro operário escutava. 
E foi assim que o operário 
Do edifício em construção 
Que sempre dizia "sim" 
Começam a dizer "não" 
E aprendeu a notar coisas 
A que não dava atenção: 
Notou que sua marmita 
Era o prato do patrão 
Que sua cerveja preta 
Era o uísque do patrão 
Que seu macacão de zuarte 
Era o terno do patrão 
Que o casebre onde morava 
Era a mansão do patrão 
Que seus dois pés andarilhos 
Eram as rodas do patrão 
Que a dureza do seu dia 
Era a noite do patrão 
Que sua imensa fadiga 
Era amiga do patrão. 

E o operário disse: Não! 
E o operário fez-se forte 
Na sua resolução 

Como era de se esperar 
As bocas da delação 
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão 
Mas o patrão não queria 
Nenhuma preocupação. 
- "Convençam-no" do contrário 
Disse ele sobre o operário 
E ao dizer isto sorria. 

Dia seguinte o operário 
Ao sair da construção 
Viu-se súbito cercado 
Dos homens da delação 
E sofreu por destinado 
Sua primeira agressão 
Teve seu rosto cuspido 
Teve seu braço quebrado 
Mas quando foi perguntado 
O operário disse: Não! 

Em vão sofrera o operário 
Sua primeira agressão 
Muitas outras seguiram 
Muitas outras seguirão 
Porem, por imprescindível 
Ao edifício em construção 
Seu trabalho prosseguia 
E todo o seu sofrimento 
Misturava-se ao cimento 
Da construção que crescia. 

Sentindo que a violência 
Não dobraria o operário 
Um dia tentou o patrão 
Dobra-lo de modo contrário 
De sorte que o foi levando 
Ao alto da construção 
E num momento de tempo 
Mostrou-lhe toda a região 
E apontando-a ao operário 
Fez-lhe esta declaração: 
- Dar-te-ei todo esse poder 
E a sua satisfação 
Porque a mim me foi entregue 
E dou-o a quem quiser. 
Dou-te tempo de lazer 
Dou-te tempo de mulher 
Portanto, tudo o que ver 
Sera' teu se me adorares 
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não. 

Disse e fitou o operário 
Que olhava e refletia 
Mas o que via o operário 
O patrão nunca veria 
O operário via casas 
E dentro das estruturas 
Via coisas, objetos 
Produtos, manufaturas. 
Via tudo o que fazia 
O lucro do seu patrão 
E em cada coisa que via 
Misteriosamente havia 
A marca de sua mão. 
E o operário disse: Não!

- Loucura! - gritou o patrão 
Não vês o que te dou eu? 
- Mentira! - disse o operário
Não podes dar-me o que e' meu. 

E um grande silêncio fez-se 
Dentro do seu coração 
Um silêncio de martírios 
Um silêncio de prisão. 
Um silêncio povoado 
De pedidos de perdão 
Um silencio apavorado 
Com o medo em solidão 
Um silêncio de torturas 
E gritos de maldição 
Um silêncio de fraturas 
A se arratarem no chão 
E o operário ouviu a voz 
De todos os seus irmãos 
Os seus irmãos que morreram 
Por outros que viverão 
Uma esperança sincera 
Cresceu no seu coração 
E dentro da tarde mansa 
Agigantou-se a razão 
De um homem pobre e esquecido 
Razão porem que fizera 
Em operário construído 
O operário em construção 


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"Sobrenatural é a "explicação" de preguiçosos"

#572 Ricardo Sandre

Ricardo Sandre

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Postado 14/04/2015 - 12:05

Patrão em desconstrução - Ricardo Sandre. :P

 

Era uma vez um patrão ...

Que ficou com cara de bobão.

Pegaram o seu quinhão.

Passeando de carrão.

http://www.correio24...f3a436d8e2a52e1

 

Talvez lhe deem de punição ...

Um bom gorjetão ...

E assim, pra minha decepção  ...

Nos tornamos uma nação. :P

 

http://www1.folha.uo...invalidez.shtml


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Quanto mais eu conheço o macaco nu, mais admiro o chimpanzé.

#573 Liah

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Postado 15/04/2015 - 16:50

"A utopia está lá no horizonte.
Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos.
Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos.
Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei.
Para que serve a utopia?
Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar."

 

- Eduardo Galeano - 


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#574 Ricardo Sandre

Ricardo Sandre

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Postado 16/04/2015 - 12:03

Além do horizonte, ecziste um lugar ...

Bonito e tranquilo, pra gente se amar ...

Som no além ... mar: :D

http://www.vagalume....-horizonte.html


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Quanto mais eu conheço o macaco nu, mais admiro o chimpanzé.

#575 Ricardo Sandre

Ricardo Sandre

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Postado 16/04/2015 - 12:19

Utopia respondo com ironia ...

Desejos respondo com gracejos.

 

Ideologia anda de mãos dadas com a hipocrisia ...

Prudência !!! O sonho pode ficar medonho ...

 

 

Autor e poeta nas horas vagas: Ricardo Sandre :P


  • 1
Quanto mais eu conheço o macaco nu, mais admiro o chimpanzé.

#576 Liah

Liah

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Postado 16/04/2015 - 13:53

Frases sobre a ilusão

 

''Ilusão, nossa maior realidade''

 

''Sem ilusão, não se levanta da cama""

 

Autora e poeta em outra galáxia  :D


  • 0

#577 Samira

Samira

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Postado 27/04/2015 - 07:43

Essa estória de relegar a poesia

para depois do arroz

é só mesmo para aqueles

que apreciam iguarias

mas desconhecem as proporções

das especiarias

que completam

um bom baião de dois   :lol:  :D


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#578 Marcia Helena

Marcia Helena

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Postado 01/05/2015 - 09:56

Bertold Brecht: Perguntas de um Operário Letrado. Quem ?
 
Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilónia, tantas vezes destruída,
Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
Da Lima Dourada moravam seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
Foram os seus pedreiros? A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio
Só tinha palácios
Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos.
 
O jovem Alexandre conquistou as Índias
Sozinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha
Chorou. E ninguém mais?
Frederico II ganhou a guerra dos sete anos
Quem mais a ganhou?
 
Em cada página uma vitória.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?
 
Tantas histórias
Quantas perguntas


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"Sobrenatural é a "explicação" de preguiçosos"




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