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Poesia


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569 respostas neste tópico

#561 Karin

Karin

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Postado 11/01/2015 - 05:16

AS MOSCAS DA PRAÇA PÚBLICA – Friedrich Nietzsche
 

 

“Foge, meu amigo, para tua solidão! Eu te vejo aturdido pelo rumor dos grandes homens e apoquentado pelo aguilhão dos pequenos.

Dignamente contigo sabem calar-se os bosques e os rochedos. Assemelha-te de novo à árvore que amas, a árvore de grande ramagem que escuta silenciosa, suspensa sobre o mar.

Onde cessa a solidão, começa a praça pública; onde começa a praça pública começa também o ruído dos grandes cômicos e o zumbido das moscas venenosas.

No mundo as melhores coisas nada valem se não houver alguém que as ponha em cena. O povo chama a esses encenadores de grandes homens.

O povo não tem a dimensão do que é grande, quer dizer, o que cria. Mas dá sentido a todos os apresentadores e a todos os comediantes.

O mundo gira em torno dos inventores de novos valores. Gira de modo invisível, mas é em torno dos comediantes que gira o povo e a fama: assim anda o mundo.

(…) Derrubar: chama a isto demonstrar. Enlouquecer: chama a isto convencer. E o sangue é para ele o melhor de todos os argumentos.

Chama mentira e nada a uma verdade que só penetra em ouvidos apurados. Verdadeiramente só crê em deuses que provocam muito barulho no mundo.

A praça pública está cheia de palhaços solenes e o povo se vangloria de seus grandes homens. São para eles os senhores do momento.

O momento os oprime e eles a ti, por sua vez, oprimem. Exigem de si um sim ou um não. Infeliz! Queres colocar-te entre um pró e um contra?

Não invejes esses intransigentes, esses exigentes, tu que amas a verdade! Nunca a verdade pendeu do braço de um intransigente.

Diante desses impulsivos, recua para teu abrigo! Não é só na praça pública que assediam para arrancar a alguém “um sim ou um não?”

Com muito vagar é que todos os poços profundos vivem sua experiência. Têm de esperar muito tempo para saber o que foi que caiu em seu fundo.

Tudo quanto é grande passa ao largo da praça pública e da fama. Longe da praça pública e da fama sempre viveram os inventores de novos valores.

Foge, meu amigo, para tua solidão. Vejo-te atacado por moscas venenosas. Refugia-te onde sopre um vento rijo e forte!

Foge para tua solidão. Vivias próximo demais dos pequenos e mesquinhos. Não levantes mais o braço contra eles! São inumeráveis e teu destino não é ser espanta-moscas!São inumeráveis esses pequenos e mesquinhos e mais de um altivo edifício foi visto desmoronar sob a ação dessas infinitas gotas

(…)

Vejo-te picado pelas moscas venenosas, vejo-te arranhado e sangrando em muitos lugares. E teu orgulho nem uma só vez se quer encolerizar.

(…)

Muitas vezes, também se tornam amáveis contigo, mas foi sempre essa a astúcia dos covardes. Sim, os covardes são astutos!

Pensam muito em ti com sua alma mesquinha. Suspeitam sempre de ti. Tudo o que dá muito que pensar se torna inquietante.

Como és benévolo e justo, chegas a dizer: “Não têm culpa da mesquinhez de sua vida”. Mas sua alma tacanha pensa: “Aquele que vive uma grande vida é sempre culpado”.

(…)

Foge, meu amigo, para tua solidão, para onde sopre vento rijo e forte. Não é destino teu ser espanta-moscas.

Assim falava Zaratustra.”


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O grupo que deve ser em função do indivíduo e não o indivíduo em função do grupo.


#562 Karin

Karin

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Postado 12/01/2015 - 10:18

José - Drummond

 

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio – e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?


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O grupo que deve ser em função do indivíduo e não o indivíduo em função do grupo.


#563 Liah

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Postado 12/01/2015 - 22:26

"O pequeno vaga-lume
com sua verde lanterna,
que passava pela sombra
inquietando a flor e a treva
- meteoro da noite, humilde,
dos horizontes da relva;
o pequeno vaga-lume,
queimada a sua lanterna,
jaz carbonizado e triste 
e qualquer brisa o carrega:
mortalha de exíguas franjas
que foi seu corpo de festa.
Parecia uma esmeralda
e é um ponto negro na pedra.
Foi luz alada, pequena
estrela em rápida seta.
Quebrou-se a máquina breve 
na precipitada queda.
E o maior sábio do mundo
sabe que não a conserta."

 

Cecília Meireles. In: A Máquina Breve.


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#564 Karin

Karin

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Postado 16/01/2015 - 08:39

ignis fatuus

 

a única solidão é

sono ou morte

nós não éramos inteligentes o bastante
gentis com os outros e cruéis para si mesmo
quando pedimos a nós mesmos por misericórdia

e isso foi negado

 

a mais sagrada privacidade permanece

nos esperando
e tudo que foi

incompreendido ou abandonado

se reunirá

 

deixe meu fracasso ser sua sorte
isso que foi um quebrado

e descuidado
erro

 

 

que seja conhecido
que saber sua própria morte

é morrer duas vezes
uma vez realmente

e então, quase nada

 

 

que seja conhecido

que não há nada tão feio

em tudo que é tangente

como a besta humana

um truque definido contra o sangue de sua alma

 

 

que seja conhecido

que a solidão é a única

misericórdia

e a única

amante

 

 

que seja conhecido

que um homem não precisa ser Cristo

para ser crucificado

 

que seja conhecido

que um homem pode ser

crucificado

a cada dia

a cada momento

a cada respiração

de sono e vigília

e então ser atormentado novamente

que seja conhecido

que um homem pode morrer

e morrer

e morrer

e morrer

e ainda sentir a dor

e saber que está morto

e ainda sentir a dor

e saber que não há nada que ele possa fazer

e ainda  sentir

a dor

que seja conhecido

 

 

que seja conhecido

que os templos não são nada

e os sinos não são nada

e a fama não é nada

e a vitória não é nada

e o sexo não é nada

e que a solidão traz loucura

e a multidão traz loucura

e bebem  e comem o corpo

como um tigre

que não há nenhuma voz para falar com

nenhum ouvido para ouvir

 

que seja conhecido

que haverá outros homens como eu

levantados  para a boca dos leões

queimados  por falsos amores

enganados por gentileza

alvejados pelo intelecto

tontos por ramalhete

sacrificados para o lucro

utilizados como mão de obra barata

e estes serão os mais gentis dos acontecimentos

em comparação com o que vai entrar no olho

e na orelha

e no cérebro

e escoar para as entranhas para começar seu

trabalho de morte

eu tenho pena que todos esses meus irmãos

que vão me seguir nos séculos

Incapazes de amar, porque não há nada para amar

Incapazes de matar, porque não há nada vivo

Para sempre pendurados e

sangrando e tontos

Pela besta

humana

as paredes

os jardins

o sol

as flores

os beijos

as bandeiras

os mares

os animais

a comida

os licores

as pinturas

as sinfonias

tudo inutilidade

 

que seja conhecido

que a maioria dos homens

adoram quando podem ver

e eles vêem uns aos outros

e eles adoram isso

porque eles vêem muito pouco

 

 

que seja conhecido

que eu sou amargo

e condenado
e cansado

e inútil

 

 

que seja conhecido

que quando esperança final se vai

lá permanece, mas olhando para a dança

e observando a relação fraca

dos idiotas

com muito pouco anotações

que seja conhecido

que eu estou morto

mas não existe raiva

que seja conhecido

que a maioria dos homens estão mortos

muitos anos antes do enterro

que seja conhecido

que muitos homens morrem na infância

que muitos homens nascem mortos

embora as suas partes se movam

e fazem som

e crescem

e avançam

no comportamento adulto

e fazem  as coisas da

civilização

Que seja conhecido

que estes homens nunca existiram

e que seus funerais

foram  enormes farsas

e também as lágrimas mortas

para o já morto

que seja conhecido

que os próprios vermes

estavam mais perto da verdade

na medida em que

não

choram
 

 

que seja  conhecido

que o nascimento não é santo

que a morte não é santa

que a vida não é santa

que seja conhecido

que eu tenho sangrado sem coroas

que  eu vou sangrar em um momento

que eu vou sangrar para sempre

vermelho

vermelho

vermelho

e os falcões vão dançar

dentro dos meus ossos

e regozijar
 

 

que seja conhecido

que eu não morra pelos pecados do homem

mas que eu morra pelo o quê o homem é

e para o que eu quase fui

eles- muito pouco de qualquer coisa

em mim mesmo levantou o suficiente

para ver o horror

o adoecer

e enlouquecer

e murchar
 

 

não tome como pessoal

o que eu digo sobre a vida

completamente

ou o homem

completamente

a não ser que

em outro plano

você se considera

um defensor da vida e do homem

o que é apenas uma outra fraqueza natural das espécies

como um rato guardando seu ninho

e para o qual

eu não posso te culpar totalmente

a única solidão é a morte

mas não esta morte

não esta morte

não

esta

 

morte.

 

              - Charles Bukowski


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O grupo que deve ser em função do indivíduo e não o indivíduo em função do grupo.


#565 Liah

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Postado 21/01/2015 - 12:19

Canção

 

Escrevo teu nome na minha memória,
mas inutilmente, mas inutilmente:
pois é tua mão ela mesma que o apaga,
ela mesma que o apaga.

 

Escrevo o teu nome na vida e na morte,
mas inutilmente, mas inutilmente,
que o tempo da vida, que o tempo da morte
é o tempo que o apaga.

 

Escrevo teu nome no meu pensamento,
mas inutilmente, mas inutilmente,
que o meu pensamento, ele mesmo, o apaga,
ele mesmo o apaga.

 

Não há esperança nenhuma em teu nome,
não há duração, firmeza, verdade.
De pura inconstância é teu nome feito,
ele mesmo se apaga, ele mesmo se apaga.

 

1961

Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

 

 

***

 

 

Hieróglifo

 

Seria preciso em clima extremamente seco:
e nós estamos ainda muito inundados de lagrimas.

 

Seria preciso uma linguagem clara, nítida, indiscutível:
e nós falamos unicamente por elipses.

 

Seria preciso um leitor atento, aprendiz humilde e crédulo:
todos, porém, morreram, na guerra dos homens com os monstros.

 

Abramos, pois, a varanda, ó escriba, e gravemos no vento,
na memória do vento, alado, solitário a memória da Esfinge.

 

Abril, 1960 

Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)


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#566 Malta

Malta

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Postado 21/01/2015 - 15:04

Criança desconhecida e suja brincando à minha porta,

Não te pergunto se me trazes um recado dos símbolos.

Acho-te graça por nunca te ter visto antes,

E naturalmente se pudesses estar limpa eras outra criança,

Nem aqui vinhas.

Brinca na poeira, brinca!

Aprecio a tua presença só com os olhos.

Vale mais a pena ver uma cousa sempre pela primeira vez que conhecê-la,

Porque conhecer é como nunca ter visto pela primeira vez,

E nunca ter visto pela primeira vez é só ter ouvido contar.

 

O modo como esta criança está suja é diferente do modo como as outras estão sujas.

Brinca! pegando numa pedra que te cabe na mão,

Sabes que te cabe na mão.

Qual é a filosofia que chega a uma certeza maior?

Nenhuma, e nenhuma pode vir brincar, nunca à minha porta.

(Fernando Pessoa – poema de Alberto Caeiro)
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#567 Malta

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Postado 21/01/2015 - 15:16

Ricardo Reis
 

Como

Como se cada beijo fora de despedida, Minha Cloe, beijemo-nos, amando. Talvez que já nos toque No ombro a mão, que chama À barca que não vem senão vazia; E que no mesmo feixe Ata o que mútuos fomos E a alheia soma universal da vida.
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#568 Karin

Karin

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Postado 25/01/2015 - 10:18

Creio que o tópico permite frases de sabedoria:

 

 

Não se julga o que nunca se quis conhecer.


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O grupo que deve ser em função do indivíduo e não o indivíduo em função do grupo.


#569 Liah

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Postado 25/01/2015 - 10:48

II

 

 

Boa noite, velhice, vens tão cedo
Não esperava, agora, a tua vinda.
Eu tão despreocupado estava, ainda,
Levando a vida como num brinquedo...

 

Tens tão meigo sorriso e um ar tão ledo
Nos teus cabelos como a prata é linda
Ao meu teto, velhice, sê bem vinda
Fica à vontade. Não me fazes medo.

 

E ela assim me falou, em tom amigo:
- Estranha me supões, mas, em verdade,
Há muito tempo que, ao teu lado, eu sigo.

 

Mas, da vida na estúrdia alacridade,

Não me viste viver, seguir contigo...
Eu sou, amigo, a tua mocidade.

 

 

Bastos tigre
de Antologia Poética – l.982 –


  • 0

#570 linho

linho

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Postado Ontem, 18:55


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"É o indivíduo que não está interessado no seu semelhante quem tem as maiores dificuldades na vida e causa os maiores males aos outros. É entre tais indivíduos que se verificam todos os fracassos humanos".




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