Sobre O Budismo Gostaria de saber a opinião de vocês essa "religião atéia"
#1
Postou 28/07/2010 - 10:16
Apesar de seus 2500 anos de idade, esse sistema filosófico (ou religião) ensina que não existe um "Eu" independente do corpo e das sensações. O renascimento ocorre como consequência das ações intencionais, do Kamma (karma em sânscrito), e não está necessariamente vinculado à morte física, ocorrendo a todo instante sem que percebamos. Ao invés de ter um deus que guarda o caminho para a salvação, o Budismo foca-se na prática como instrumento de libertação, o nibbana (nirvana em sânscrito), que não é uma outra realidade mas antes um outro nível de percepção. Há sim fé no Budismo. No entanto, não deve ser cega. Crê-se que tanto a fé quanto o ceticismo quando absolutos não permitem o avanço no caminho proposto.
Não é bem um resumo, mas pontos chave com os quais me identifico. Gostaria de saber a opinião de vocês.
Sabbe sankhara dukkha
Sabbe dhamma anatta
#2
Postou 28/07/2010 - 13:00
que com procrastinação podemos encerrar todos os ciclos de sofrimento aos quais acostumamo-nos.
(com tal base, geramos as seguintes fórmulas)
Adiar para não errar. Se errar, consertar. Aprender o caminho e, se assim desejar, ensinar.
Meditar para pensar, mas a meditação pode ocorrer com qualquer coisa a qualquer momento, desde que nos concentremos.
Leis da natureza, dharma, se tornam óbvias aos iluminados. Não é exclusividade do Budismo, mas simpatizo com a religião.
Karma para mim é a memória das mentes. E nos ajudará ou atrapalhará de acordo com o equilíbrio das próprias. Dependendo das lembranças e de quais emoções são ativadas por elas...
#3
Postou 28/07/2010 - 13:04
Quando se acerta através da fé é por pura sorte, então ao meu ver você tem muito mais chances de acertar com o ceticismo.
#4
Postou 28/07/2010 - 14:12
Rav.
"Da mihi sis crustum Etruscum cum omnibus in eo"
#5
Postou 28/07/2010 - 15:00
Mesmo encarando o budismo como filosofia, não concordo com seus preceitos. Sou a favor do livre pensamento, do questionamento natural, sem normas , sem caminhos determinados, sem dogmas.
Tudo aquilo que "deseja mostrar o caminho iluminado" acaba fazendo parte de uma lavagem cerebral disfarçada.
Rav, penso que a memoria das mentes, que o Anlmol se referiu é a nossa memoria mesmo, das coisas boas e ruins que passamos em nossas vidas e os sentimentos que elas carregam. Para o budismo Kharma é aquilo que está predestinado á pessoa, aquilo que ela precisa passar para seu crescimento e iluminação .
Anlmol , me corrija se eu estiver errada...e por favor tambem esclareça qual a correlação desse conceito que voce deu ao kharma - com o que é por definição do budismo, pls
#6
Postou 28/07/2010 - 18:42
MonkeyMan, em 28/07/2010 - 13:04, disse:
Quando se acerta através da fé é por pura sorte, então ao meu ver você tem muito mais chances de acertar com o ceticismo.
Nem sempre dispomos de toda informação necessária para tomarmos uma decisão. Outras vezes, temos os dados, mas as variáveis são tantas que não dá para analisar dentro do tempo disponível. São apenas alguns exemplos... Em todos esses casos uma parcela de fé, no sentido de confiança, é necessário. Se formos duvidar, analisar, questionar podemos simples paralisar.
Sorte também faz parte. ;-) Sorte que você tenhamos nascido atualmente, senão teríamos que caçar por comida.
O Budismo propõe o caminho do meio, que procura evitar os extremos, por isso absolutas são rejeitas. Fé absoluta mesmo no caminho budista não encarada como virtude.
Sabbe sankhara dukkha
Sabbe dhamma anatta
#7
Postou 28/07/2010 - 18:58
Deia, em 28/07/2010 - 15:00, disse:
Mesmo encarando o budismo como filosofia, não concordo com seus preceitos. Sou a favor do livre pensamento, do questionamento natural, sem normas , sem caminhos determinados, sem dogmas.
Talvez você goste então do discurso aos Kalamas, especialmente o trecho:
Quote
Deia, em 28/07/2010 - 15:00, disse:
Há várias correntes budistas, cada qual com visões diferentes. De todo modo, conforme o cânone, Kamma (em sânscrito Karma) significa ação intencional. Essa ação cria consquência mentais, formando através do acúmulo hábitos, que irão cedo ou tarde fruticar em ações. Como o kamma é construído pela intenção, ele pode ser moldado. Não há, portanto, predestinação. Embora o kamma seja instrumento para a iluminação, essa só acontece quando não há mais kamma.
Sabbe sankhara dukkha
Sabbe dhamma anatta
#8
Postou 29/07/2010 - 19:01
#9
Postou 29/07/2010 - 19:25
MonkeyMan, em 29/07/2010 - 19:01, disse:
Como eu disse, não se trata de fé absoluta, baseada em dogmas. Está mais para confiança. Um paciente precisa confiar, ter fé, em seu médico para seguir seu tratamento até o fim. Quando iniciamos um projeto, temos fé que o concluiremos. Temos fé de que o que aprendemos na escola seja verdadeiro.
Em todos esses casos a fé se baseia nalguma entidade sobrenatural, numa certeza artificial. É, antes, a aceitação de nossa ignorância. Uma hipótese na qual apostamos.
Estamos arriscando? Sim! Mas viver é arriscado!
Creio que não há como escapar disso, afinal, não há certezas absolutas, apenas possibilidades.
Sabbe sankhara dukkha
Sabbe dhamma anatta
#10
Postou 29/07/2010 - 20:44
Os céticos também confiam. Mas não tem nada a ver com entidades sobrenaturais.
#11
Postou 29/07/2010 - 21:10
MonkeyMan, em 29/07/2010 - 20:44, disse:
Os céticos também confiam. Mas não tem nada a ver com entidades sobrenaturais.
Não sei...
Até admito que sejam diferentes. Mas parece-me mais uma diferença quantitativa do que qualitativa - a fé religiosa seria um excesso.
Sabbe sankhara dukkha
Sabbe dhamma anatta
#12
Postou 30/07/2010 - 02:45
Eu posso confiar muito em uma pessoa, mas se ela me trair, deixarei de fazê-lo. Se essa confiança fosse a fé religiosa, mesmo me traindo eu ia continuar fingindo que não aconteceu nada e iria continuar acreditando na pessoa.
#13
Postou 30/07/2010 - 09:17
li vários artigos e entre eles um trazia elementos da visão budista em que me chamou muito a atenção
"Uma ação negativa gera uma reação negativa"
Tão simples como ver o que queremos para nós mesmos quando agimos com os outros.
#14
Postou 31/07/2010 - 11:34
Achei este forum via um alerta do google sobre budismo e gostaria de participar.
Sou budista e ateu.
Vou ler todo o tópico com atenção antes de manifestar-me.
Obrigado!
-o Buddha
#15
Postou 31/07/2010 - 15:28
(Eu não te conheço de algum lugar?)
Como abordaram a questão da fé eu vou acrescentar algo.
Uma forma de definir a fé no sistema budista é dizer que temos fé em que se cultivarmos a nossa mente por meio do método ensinado pelo Buda isto nos beneficiará. Outra forma possível é dizer que temos fé em que se abrirmos mão de estados mentais como a raiva, o anseio e a obscuridade mental isto nos fará bem.
Precisamos deste grau de fé para experimentar o ensinamento, o método ensinado pelo Buda.
Outro aspecto da fé diz respeito ao natural desejo de felicidade e de evitar a dor que todos temos. Nós, budistas, temos a fé de que um estado plenamente liberto de sofrimento é possível.
Interessante dizer também que uma das visões que o Buda classifica como impeditivas de alcançar tal estado de libertação é a crença em uma entidade criadora tal como os deuses das diversas mitologias de criação, em que podemos incluir a judaico/cristã.
Todo tipo de fé que negue a experiência foi repudiada pelo Buda e não tem papel preponderante em seu sistema. Por exemplo, o Buda afirmou a continuidade da mente após a morte deste corpo físico. É uma crença que a maioria dos budistas, eu inclusive, mantem, mas ela não é, de forma alguma essencial à prática no sentido de conduzir à meta final, o Nibbana.
-o Buddha
#16
Postou 31/07/2010 - 16:06
#17
Postou 31/07/2010 - 18:55
#18
Postou 31/07/2010 - 19:36
A Roda budista é a natureza pecaminosa cristã. Algo nos libertará! Discordo, não somos prisioneiros senão dos nossos medos.
Um louco tem certamente dificuldades em entender como não percebemos o mundo como ele. O verdadeiro desafio do homem não é entender o mundo filosoficamente organizado, com explicações razoáveis; é sim viver sem justificar seus atos, porque somo imputáveis, certos ou não. Somos como somos a qualquer tempo. O que nos resta é o nada... o que temos como certo é o fim. Isso deve bastar.
Budismo não é filosofia, é religião. Tem rituais, paramentos, dogmas, hierarquia, e outros tralalás tais. Verniz por verniz, vou de niilismo.
#19
Postou 31/07/2010 - 21:43
silvio2009, em 31/07/2010 - 19:36, disse:
Reencarnação é realmente implausível. Na verdade, o budismo fala de renascimento. É diferente: a mente aqui é vista como um processo que se extende em sucessivos momentos de morte e nascimento ao longo do período que vai da concepção à morte física.
A Roda budista é a natureza pecaminosa cristã. Algo nos libertará! Discordo, não somos prisioneiros senão dos nossos medos.
silvio2009, em 31/07/2010 - 19:36, disse:
silvio2009, em 31/07/2010 - 19:36, disse:
Então dá tudo na mesma. ;-)
Mas acho o 'nada' tão improvável quanto qualquer crença maluca. Tornar algo existente em nada é tão miraculoso quanto criar algo a partir do nada. Aliás, duas coisas nunca vistas. A partir do momento que algo existe como pode deixar de existir simplesmente? Observe que não defendo a sobrevivência à morte. Apenas acho aniquilação completa tão implausível quanto uma alma eterna.
Agora, PARTICULARMENTE, creio que algo continue a existir? Não sei o que não sei como - imagino que seja algo entre o nada e o eterno. Não tenho prova disso e não tenho ilusão de conseguir alguma. Apenas me reservo ao direito de acreditar da mesma como acredito haver vida noutro cantos do universo.
silvio2009, em 31/07/2010 - 19:36, disse:
No Palácio do Planalto vemos tudo isso, nem por isso política é religião. O mesmo vale para escolas, empresas e outras instituições de nossa sociedade.
JERUSALEM, em 31/07/2010 - 18:55, disse:
No final, é isso que todos fazemos, né? ;-)
Sabbe sankhara dukkha
Sabbe dhamma anatta
#20
Postou 01/08/2010 - 00:09
Uma das fantasias é a crença em renascimento, que vocês já citaram. Talvez essa seja uma das verdades que só se pode intuir, mas não compreender, eis porque a confusão.
Outra idéia implícita no budismo é a de que a maior ação é a não-ação(ups! isso é Tao!). Dessa forma se chega àqueles conceitos que Nietzsche chamou de negação à vida, como por exemplo, "dar a outra face" do cristianismo que; no budismo, se traduz por todo aquele blábláblá sobre compaixão.
O problema com qualquer sistema filosófico que postula o pós-morte(ainda que por impulsos kármicos) é que se despreza a honestidade da aceitação de que não sabemos nada sobre isso, para abraçar um sonho, útil, porém ainda um sonho.
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