Livre-Arbítrio

H. L. Mencken

O livre-arbítrio, segundo consta, continua um dogma essencial à maioria dos cristãos. Sem ele, as crueldades de Deus esticariam a fé até um ponto de ruptura. Mas, fora do aprisco das ovelhas, parece estar caindo gradualmente em desuso. Os cientistas aplicaram-lhe golpes feios, e mesmo entre os leigos de mente mais inquisitiva o livre-arbítrio parece estar cedendo o lugar a uma apologética espécie de determinismo — um determinismo, pode-se dizer, temperado pela observação deficiente. Mark Twain, bem no fundo, era tal determinista. Em seu O que É o Homem?, pode-se flagrá-lo dando adeus ao livre-arbítrio. A imensa maioria de nossos atos, diz ele, é determinada, mas ainda permanece um resíduo de livre escolha. Com isso, ficamos livres de compulsões e temos duas ou mais alternativas, ficando à vontade para seguir este ou aquele caminho.

Um travesseiro para o livre-arbítrio descansar — só que recheado de tijolos. Onde os ocupantes desta última trincheira do livre-arbítrio se equivocam é em sua suposição de que os safanões de seus impulsos antagonísticos são exatamente iguais — que o indivíduo é absolutamente livre para escolher aquele a quem vai se submeter. Tal liberdade, na prática, nunca é encontrada. Quando um indivíduo se confronta com alternativas, não é apenas a sua vontade que escolhe entre elas, mas também o seu ambiente, seus preconceitos hereditários, sua raça, sua cor, sua condição de servidão. Posso beijar uma garota e posso não beijá-la, mas seria absurdo de minha parte dizer que sou o único elemento ativo neste caso. O mundo até resumiu meu desamparo num provérbio que diz que tudo depende da hora e do lugar — e, até certo ponto, da garota.

Os exemplos podem ser multiplicados ad infinitum. Não consigo me lembrar de ter desempenhado um único ato inteiramente voluntário. Toda a minha vida parece ser uma longa série de acidentes inexplicáveis. É a história das reações de minha personalidade ao meu ambiente, ou de meu comportamento diante de estímulos externos. Não sou responsável nem pela personalidade, nem pelo ambiente. Dizer que posso modificar esta personalidade por um ato voluntário é tão ridículo quanto dizer que posso modificar a curvatura do cristalino de meus olhos. Sei o que estou falando, porque tentei modificá-la várias vezes e sempre fracassei. Apesar disso, ela mudou. Não sou o mesmo homem que era no século passado. Mas as mudanças que aconteceram para melhor não devem ser creditadas a mim. Todas vieram de fora — ou de profundezas insondáveis e incontroláveis dentro de mim.

Quanto mais se examina o assunto, mais o resíduo do livre-arbítrio parece encolher, até que, no fim, torna-se impossível seguir-lhe a pista. Muitos homens, naturalmente, ao se olharem no espelho, batem no peito, consideram-se donos de seu arbítrio e pedem a Deus que os recompense por sua virtude. Mas esses sujeitos são apenas egoístas privados de qualquer senso crítico. Confundem os atos de Deus com seus próprios atos. Não diferem muito da raposa que se gaba de ter posto os cães para correr.

A inutilidade do livre-arbítrio é comumente denunciada como capaz de subverter a moral e fazer a religião de palhaça. Tais objeções tão pias não têm um pingo de lógica, mas vamos abrir uma exceção neste caso e dar uma olhada nelas. Elas se baseiam na capciosa hipótese de que o determinista foge ou tenta fugir às consequências dos seus atos. Nada poderia ser mais falso. As consequências se seguem aos fatos, implacavelmente, sejam eles voluntários ou involuntários. Se assalto um banco por minha livre decisão ou em resposta a alguma necessidade interior insondável, não importa: vou para a mesma cadeia. Na guerra, morrem tanto os soldados convocados à força quanto os voluntários.

Mesmo do ponto de vista espiritual, o determinismo não provoca tanto estrago na teologia. Não é mais difícil acreditar que um homem será punido por seus atos involuntários do que acreditar que ele será punido por seus atos voluntários, pois mesmo a suposição de que ele é completamente livre não anula o fato de que Deus o fez como ele é — e que Deus poderia ter feito dele um santo, se quisesse. Negar isto é tratar com desprezo o Onipotente — um crime do qual me eximo. Mas agora começo a pensar que chapinhei longe demais na água benta das ciências sagradas, e que é melhor dar o fora antes que me esfolem. Esta prudente retirada é puramente determinística. Não a atribuo à minha própria sagacidade; atribuo-a inteiramente àquela singular gentileza que o destino sempre me reserva. Se eu fosse livre, provavelmente continuaria a escrever — e depois me arrependeria.