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A ignorância só degrada a pessoa quando é acompanhada de riqueza. O pobre
é limitado por sua pobreza e por suas necessidades; no seu caso o
trabalho substitui o saber e ocupa seus pensamentos. Por outro lado, os
ricos que são ignorantes vivem apenas para seus prazeres e se parecem
ao gado, como podemos notar diariamente. Isto é ainda mais censurável
porque não usaram a riqueza e o ócio para aquilo que lhes empresta o
mais alto valor.
Quando lemos, outra pessoa pensa por nós: só
repetimos seu processo mental. Trata-se de um caso semelhante ao do
aluno que, ao aprender a escrever, traça com a pena as linhas que o
professor fez com o lápis. Portanto, o trabalho de pensar nos é, em
grande parte, negado quando lemos. Daí o alívio que sentimos quando
passamos da ocupação com nossos próprios pensamentos à leitura. Durante
a leitura nossa cabeça é apenas o campo de batalha de pensamentos
alheios. Quando estes, finalmente, se retiram, que resta? Daí se segue
que aquele que lê muito e quase o dia inteiro, e que nos intervalos se
entretém com passatempos triviais, perde, paulatinamente, a capacidade
de pensar por conta própria, como quem sempre anda a cavalo acaba
esquecendo como se anda a pé. Este, no entanto, é o caso de muitos
eruditos: leram até ficar estúpidos. Porque a leitura contínua,
retomada a todo instante, paralisa o espírito ainda mais que um
trabalho manual contínuo, já que neste ainda é possível estar absorto
nos próprios pensamentos. Assim como uma mola acaba perdendo sua
elasticidade pelo peso contínuo de um corpo estranho, o mesmo acontece
com o espírito pela imposição ininterrupta de pensamentos alheios. E
assim como o estômago se estraga pelo excesso de alimentação e, desta
maneira prejudica o corpo todo, do mesmo modo pode-se também, por
excesso de alimentação do espírito, abarrotá-lo e sufocá-lo. Porque
quanto mais lemos menos rastro deixa no espírito o que lemos: é como um
quadro negro, no qual muitas coisas foram escritas umas sobre as
outras. Assim, não se chega à ruminação [1]: e só com ela é que nos
apropriamos do que lemos, da mesma forma que a comida não nos nutre
pelo comer, mas pela digestão. Se lemos continuamente sem pensar depois
no que foi lido, a coisa não se enraíza e a maioria se perde. Em geral
não acontece com a alimentação do espírito outra coisa que com a do
corpo: nem a qüinquagésima parte do que se come é assimilado, o resto
desaparece pela evaporação, pela respiração ou de outro modo.
Acrescente-se a tudo isso que os pensamentos postos
no papel nada mais são que pegadas de um caminhante na areia: vemos o
caminho que percorreu, mas para sabermos o que ele viu nesse caminho,
precisamos usar nossos próprios olhos.
Nenhuma qualidade literária como, por exemplo,
força de persuasão, riqueza de imagens, dom de comparação, audácia, ou
amargor, ou brevidade, ou graça, ou leveza de expressão, ou ainda
agudeza, contrastes surpreendentes, laconismo, ingenuidade etc.,
podemos adquirir lendo autores que as possuam. O que podemos é, através
deles, despertar em nós tais qualidades no caso de já as possuirmos
como inclinação, quer dizer em potentia, trazê-las à
consciência, podemos ver tudo o que se pode fazer com elas, podemos ser
fortalecidos nessa inclinação, na coragem de usá-las, podemos julgar o
funcionamento de seu uso pelos exemplos e, assim, podemos aprender seu
uso correto; em todo caso é só depois disto que as possuímos também em actu.
Esta é a única maneira de a leitura educar-nos para escrever, na medida
em que nos ensina o uso que podemos fazer de nossos dons naturais;
sempre na suposição de que esses dons existam. Sem eles, no entanto,
não aprendemos com a leitura nada além de um maneirismo frio, morto, e
nos tornamos imitadores superficiais.
Os inspetores de saúde pública deveriam, no
interesse de nossos olhos, cuidar de que houvesse um mínimo fixo, a não
ser desobedecido, para o tamanho das letras impressas. (Quando eu
estava em Veneza em 1818, na época em que ainda se fabricavam as
verdadeiras correntes venezianas, um ourives me disse que aqueles que
faziam a catena fina ficavam cegos aos 30 anos.)
Assim como as camadas de terra conservam em filas
os seres vivos de épocas passadas, as prateleiras das bibliotecas
também conservam em filas os erros do passado e suas explicações que,
como aqueles no seu tempo, eram muito vivos e faziam muito barulho, mas
hoje estão ali rígidos e petrificados, e só o paleontólogo literário os
contempla.
Xerxes, segundo Heródoto, chorou ao mirar seu
inumerável exército porque pensou que de todos aqueles homens nenhum
estaria vivo cem anos depois: assim, quem não choraria ao ver um grosso
catálogo de feira de livro, ao pensar que de todos esses livros nenhum
estará vivo em menos de dez anos?
O que acontece na literatura não é diferente do que
acontece na vida: para onde quer que nos dirijamos, imediatamente
encontramos a incorrigível plebe da humanidade, que existe em toda
parte como uma legião, que ocupa tudo e suja tudo, como moscas no
verão. Daí a imensidão de livros ruins, essa erva daninha da literatura
que se alastra, que retira a nutrição do trigo e o sufoca. Assim, eles
usurpam o tempo, o dinheiro e a atenção do público a que, por lei,
pertencem os bons livros e seus nobres objetivos, enquanto os livros
ruins foram escritos com a única finalidade de gerar dinheiro ou
propiciar emprego. Não são, portanto, apenas inúteis, mas positivamente
daninhos. Nove décimos de toda nossa literatura atual não tem outra
finalidade a não ser o de tirar alguns centavos do bolso do público:
com este objetivo conspiram decididamente o autor, o editor e o crítico.
É um golpe baixo e mal intencionado, mas lucrativo,
que os literatos, os autores que escrevem para ganhar o pão e os
polígrafos, conseguiram dar contra o bom gosto e a verdadeira educação
do século, levando o mundo elegante pela coleira, adestrando-o para ler a tempo,
ou seja, todos sempre a mesma coisa, o mais recente, para ter em seus
círculos sobre o que conversar: para cumprir este objetivo servem os
romances ruins e outras produções do tipo de penas outrora famosas como
as de Spindler, Bulwer, Eugène Sue e outros. O que pode ser mais
miserável do que o destino de tal público literário que se acha
obrigado a ler, a todo momento, as últimas publicações de cabeças
absolutamente ordinárias, que escrevem apenas por dinheiro e que, por
esta razão, existem sempre em grande número e conhecem apenas de nome
as obras dos raros e superiores espíritos de todos os tempos e de todos
os países! – Os jornais de literatura diários são, em
especial, um meio habilmente inventado para roubar do público estético
o tempo que este deveria dedicar às verdadeiras produções adequadas à
sua formação e fazer com que este dedique seu tempo às improvisações
cotidianas de cabeças ordinárias.
Como as pessoas lêem sempre em vez do melhor de todos os tempos, o mais recente,
os autores permanecem na esfera estreita das idéias circulantes, e o
século se enterra cada vez mais profundamente nos seus próprios
excrementos.
É por isso que, no que se refere a nossas leituras, a arte de não ler é sumamente importante. Esta arte consiste em nem sequer folhear o
que ocupa o grande público, o tempo todo, como panfletos políticos ou
literários, romances, poemas, etc., que fazem tanto barulho durante
algum tempo, atingindo mesmo várias edições no seu primeiro e último
ano de vida: deve-se pensar, ao contrário, que quem escreve para
palhaços sempre encontra um grande público e consagre-se o tempo sempre
muito reduzido de leitura unicamente às obras dos grandes espíritos de
todos os tempos e de todos os países, que se destacam do resto da
humanidade e que a voz da fama identifica. Só eles educam e ensinam
realmente.
Os ruins nunca lemos de menos e os bons nunca relemos demais. Os livros ruins são veneno intelectual: eles estragam o espírito.
Para ler o bom uma condição é não ler o ruim: porque a vida é curta e o tempo e a energia escassos.
Livros são escritos sobre este ou aquele grande
espírito da Antigüidade e o público os lê, mas não lê as próprias
obras; isto porque quer ler apenas o que acaba de ser publicado e, já
que similis simili gaudet [Os semelhantes se atraem], para
ele o vazio e insípido dis-que-diz das cabeças de vento de hoje é mais
adequado e agradável do que os pensamentos de um grande espírito. Eu,
porém, agradeço o destino que me apresentou ainda na juventude o belo
epigrama de A. W. Schlegel, que, desde então, é minha estrela-guia:
Leia os antigos com cuidado, os antigos de verdade.
O que os novos dizem deles quase nada significa.
Ah, como uma cabeça ordinária se parece com outra! Como são fundidas em um único molde!
Como lhes ocorre o mesmo pensamento, e nada mais, nas mesmas
circunstâncias! Juntam-se a isto ainda seus sórdidos interesses
pessoais. O diz-que-diz sem sentido de tais anões é lido por um público
estúpido desde que tenha sido impresso hoje, enquanto os grandes
espíritos são deixados nas estantes.
É realmente incrível a estupidez e a burrice do
público que deixa de ler os espíritos mais nobres e mais
extraordinários de todos os tempos e países em todos os campos para ler
os rabiscos cotidianos de cabeças ordinárias, que surgem aos montes
todo ano, como moscas – só porque foram impressos hoje e a tinta ainda
está fresca. Tais produções deveriam ser ignoradas e desprezadas no dia
mesmo do seu nascimento, como ocorrerá dentro de alguns anos, mera
matéria de riso dos tempos passados e suas tolices.
Há, em todas as épocas, duas literaturas que
caminham uma ao lado da outra de uma maneira muito estranha: uma
verdadeira e uma apenas aparente. A primeira cresce para ser uma literatura permanente. Feita por pessoas que vivem para a ciência ou a poesia, ela segue séria e silenciosa, mas extremamente
devagar, mal produz na Europa uma dúzia de obras por século, as quais,
entretanto, permanecem. A segunda, feita por pessoas que vivem da ciência ou da poesia, anda a galope, acompanhada de muito barulho e da gritaria dos
interessados e lança todo ano muitos milhares de obras no mercado. Mas,
passados uns poucos anos, pergunta-se: onde estão elas? Onde está sua
fama, antes tão precoce e tão ruidosa? É por isso que também se pode
chamar esta literatura corrente e a anterior de literatura permanente.
Seria bom comprar livros se pudéssemos comprar
também o tempo para lê-los, mas, em geral, se confunde a compra de
livros com a apropriação de seu conteúdo.
Esperar que alguém tenha retido tudo que já leu é
como esperar que carregue consigo tudo o que já comeu. Ele viveu de um
fisicamente, do outro espiritualmente e assim se tornou o que é.
Contudo, assim como o corpo assimila o que lhe é homogêneo, cada um de
nós retém o que lhe interessa, ou seja, aquilo que
convém a seu sistema de pensamentos ou a seus objetivos. Todos,
certamente, têm objetivos, mas poucos têm algo que se pareça a um
sistema de pensamentos: daí não mostrarem nenhum interesse objetivo por
nada e, em conseqüência, nada do que leram se fixa: não retêm nada de
suas leituras.
Repetitio est mater studiorum [A repetição
é a mãe dos estudos]. Todo livro minimamente importante deveria se lido
de imediato duas vezes, em parte porque na segunda compreendemos melhor
as coisas em seu conjunto e só entendemos bem o começo quando
conhecemos o fim; em parte porque, para todos os efeitos, na segunda
vez abordamos cada passagem com um ânimo e estado de espírito
diferentes do que tínhamos na primeira, o que resulta em uma impressão
diferente e é como se olhássemos um objeto sob uma outra luz.
As obras são a quintessência de
um espírito: daí elas serem incomparavelmente mais ricas que o contato
pessoal, mesmo quando se trata de um grande espírito, as obras acabam
por substituí-lo na essência – e, inclusive, o superam largamente e o
deixam para trás. Mesmo os escritos de um espírito medíocre podem ser
instrutivos, dignos de leitura e agradáveis, precisamente porque são
sua quintessência, o resultado, o fruto de todos os seus pensamentos e
estudos – enquanto a convivência com ele não consegue nos satisfazer.
Daí que possamos ler livros de pessoas cuja convivência não nos
agradaria e, assim, uma alta cultura espiritual nos leva pouco a pouco
a encontrar entretenimento quase exclusivamente com livros e não mais
com as pessoas.
Não há maior deleite para o espírito que a leitura
dos antigos clássicos: tão logo tomamos um deles, nem que só por meia
hora, nos sentimos refrescados, aliviados, purificados, elevados e
fortalecidos; exatamente como se tivéssemos bebido de uma fresca fonte.
Deve-se isto as línguas antigas e sua perfeição? Ou à grandeza dos
espíritos cujas obras permaneceram incólumes e intactas por milhares de
anos? Talvez a ambos motivos. Se algo sei é que se, tal como agora se
ameaça, o estudo das línguas antigas fosse abandonado, surgiria uma
literatura feita de escritos tão bárbaros, superficiais e sem valor,
como nunca antes existiu; especialmente porque a língua alemã, que
possui algumas das perfeições das línguas antigas, está sendo
dilapidada entusiástica e metodicamente pelos escribas sem valor “do
tempo de agora”, de tal modo que ela, empobrecida e mutilada, pouco a
pouco se transforme em um miserável jargão.
Há duas histórias: a política e a da literatura e da arte. Uma é a história da vontade, a outra, ao contrário, do intelecto.
Daí que uma seja assustadora, terrível mesmo: medo, aflição, fraude e
crimes espantosos, em massa. A outra, ao contrário, é em toda parte
gratificante e agradável, como o intelecto solitário, mesmo quando
retrata caminhos equivocados. Seu ramo principal é a história da
filosofia. Na verdade, é este o baixo contínuo, cujas notas se ouvem
mesmo na outra história, cujo significado, em essência, também dá a
direção. Daí que a filosofia seja também, bem e propriamente
compreendida, a mais poderosa força material; no entanto ela atua muito
lentamente.
Na história do mundo, meio século é sempre um tempo
considerável, pois sua matéria continua fluindo, já que sempre alguma
coisa acontece. Na história da literatura, pelo contrário, o mesmo
período, muitas vezes, não conta, simplesmente porque não aconteceu
nada. As tentativas malogradas não lhe interessam. Está-se, assim, no
mesmo lugar onde se estava há cinqüenta anos.
Para esclarecer isto, pode-se comparar o progresso
do conhecimento da humanidade a uma órbita planetária. Assim, os
descaminhos que a humanidade percorre depois de cada progresso
significativo poderiam ser representados por egípcios ptolomaicos, de
cujo percurso a humanidade volta ao ponto onde estava antes do começo.
As grandes cabeças, porém, que realmente levam adiante o gênero humano
nessas órbitas, não participam desse epiciclo. Assim se explica porque
o aplauso da posteridade geralmente se paga com a perda da aprovação
dos contemporâneos e vice-versa.
Um desses epiciclos é, por exemplo, o da filosofia
de Fichte e Schelling, coroada no final por sua caricatura hegeliana.
Esse epiciclo partia da circunferência que Kant, por último, tinha
percorrido até então, de onde eu, posteriormente, o retomei para
levá-lo adiante: nesse ínterim os tais falsos filósofos e mais alguns
outros percorreram seu epiciclo que agora, enfim, se completa, pelo
qual o público que correu com eles se dá conta de que se encontra
exatamente no mesmo lugar de onde tinha saído.
Com este desenrolar dos acontecimentos se relaciona
o fato de aproximadamente a cada 30 anos ser declarada a bancarrota do
espírito científico, literário e artístico da época. Nesse período os
erros se acumularam em tal proporção que acabam caindo sob o peso de
seu próprio absurdo e, ao mesmo tempo, a oposição se fortaleceu com
eles. Assim, as coisas se invertem: muitas vezes, contudo, surge então
um erro no sentido oposto. Mostrar este curso das coisas em um
periódico retorno deveria ser exatamente o objeto pragmático da
história da literatura: mas esta se preocupa pouco com isso. Ademais,
devido à brevidade relativa desses períodos, os dados de tempos remotos
são, muitas vezes, difíceis de coletar: daí que se possam observar o
fenômeno mais facilmente em sua própria época. Se se quiser um exemplo
das ciências exatas, pode-se tomar a genealogia netúnica de Werner. No
entanto, atenho-me ao exemplo acima mencionado, que está mais próximo
de nós. Ao brilhante período de Kant seguiu-se, na filosofia alemã,
imediatamente outro no qual se esforçou por impor-se em vez de
convencer, de ser pomposo e hiperbólico em vez de ser sólido e claro e,
em especial, de ser incompreensível; de fato, de fazer intrigas em vez
de procurar a verdade. Deste modo, a filosofia não podia progredir.
Finalmente, veio a bancarrota de toda essa escola e
desse método. Pois em Hegel e seus comparsas, a petulância de escribas,
por um lado, e a autopromoção inescrupulosa, por outro, junto com o
evidente propósito de todo o grande tumulto, atingiram tamanhas
proporções que os olhos de todos tinham que abrir frente a toda essa
charlatanice, e quando, em conseqüência de determinadas revelações, foi
retirada a proteção superior, abriu-se também a boca de todos. Os
antecedentes fichteanos e schellingianos dessa pseudofilosofia, a mais
miserável que já existiu, foram arrastados por ela ao abismo do
descrédito. Por causa disso aparece agora à luz do dia a total
incompetência filosófica da primeira metade do século que seguiu a Kant
na Alemanha, enquanto que, face ao exterior alardeiam-se os dons
filosóficos dos alemães – sobretudo depois que um autor inglês teve a
maliciosa ironia de chamá-los de um povo de pensadores.
Quem quiser provas da história da arte para o
esquema geral dos epiciclos aqui exposto, que considere a escola
escultórica de Bernini, ainda florescente no século passado, sobretudo
em sua continuação francesa, que em vez da beleza da antiguidade
representava a natureza vulgar e, em vez da simplicidade e da graça dos
antigos, representava maneiras de minueto francês. Esta escola entrou
em bancarrota quando, depois da crítica de Winckelmann, seguiu-se uma
volta à escola dos antigos. Outra prova da história da pintura é dada
pelo primeiro quartel deste século, que considerava a arte como um mero
meio e instrumento de uma religiosidade medieval e que,
conseqüentemente, escolheu assuntos eclesiásticos como único tema, os
quais hoje, contudo, são tratados por pintores a quem falta a
verdadeira sinceridade da fé, que, porém, em conseqüência da mencionada
idéia fixa, tomaram como modelos a Francesco Francia, Pietro Perugino,
Ângelo da Fiesole e outros como eles e que consideravam a estes mais do
que os verdadeiros grandes mestres que vieram depois. Referindo-se a
esse desvio, e porque ao mesmo tempo se impunha uma tendência análoga
na poesia, Goethe escreveu a parábola “Pfaffenspiel”. Também essa
escola foi em seguida considerada como fundamentando-se em caprichos,
entrou em bancarrota e foi seguida pela volta à natureza,
expressando-se através de pinturas de costumes e todo tipo de cenas de
vida, ainda que se perdendo também, de vez em quando, na vulgaridade.
Similar à marcha do progresso humano acima descrita, a história da literatura é, em sua maior parte, o catálogo de um gabinete de abortos. O álcool
no qual esses fetos são conservados durante mais tempo é couro de
porco. Os poucos nascimentos bem sucedidos, no entanto, não devem ser
procurados ali: eles continuam vivos e se encontram em toda parte do
mundo, onde eles caminham em uma juventude eternamente fresca. Só eles
constituem a literatura verdadeira, indicada no parágrafo anterior e
cuja história pobre em personalidades aprendemos, desde a juventude, da
boca de todas as pessoas cultas e não, em primeiro lugar, dos manuais.
Contra a monomania, hoje dominante, de ler a história da literatura
para poder discorrer sobre tudo sem conhecer nada de fato, recomendo
uma passagem de Lichtenberg [2], que bem merece ser lida, do volume II,
p. 302 da antiga edição.
Eu gostaria muito que alguém, algum dia, tentasse
uma história trágica da literatura, que explicasse como as diferentes
nações, que se mostram tão orgulhosas dos grandes autores e artistas
que produzem, trataram-nos durante sua vida; que também nos revelasse a
luta interminável que o bom e o verdadeiro de todos os tempos e países
tiveram que travar contra o errado e o mais sempre dominantes, que
pintasse o martírio de quase todos os verdadeiros iluminadores da
humanidade, quase todos os mestres, de todo tipo e arte; que nos
mostrasse como eles, salvo poucas exceções, se atormentaram sem
reconhecimento, sem retribuição, sem discípulos, na pobreza e na
miséria, enquanto os indignos gozam de fama, honra e riqueza,
acontecendo-lhes o mesmo que a Esaú, que caçava para seu pai, enquanto
Jacó, em sua casa, roubava o direito de primogenitura, disfarçado em
suas vestes; como apesar de tudo, como todos que o amor de suas coisas
mantém de pé, até que enfim cessa a árdua luta de tal educador da
humanidade, o louro imortal lhe acena e soa a hora em que também para
ele se aplica:
A pesada armadura se torna manto alado,
Breve é a tristeza e infinita a alegria.
Notas
Extraído de “Über Lesen und Bücher”, capítulo 24 de Parerga und Paralipomena (1851), Sobre Livros e Leitura foi
originalmente publicado em edição bilíngüe pela Editora Paraula, em
1993, com reimpressão em 1994.
[1] Na prática, o fluxo contínuo e forte de novas leituras só serve para acelerar o esquecimento do já lido.
[2] A passagem de Lichtenberg diz: “Acho que em
nossos dias se persegue a história das ciências demasiado
minuciosamente, para grande detrimento da própria ciência. Ela é de
leitura agradável, mas deixa a cabeça não exatamente vazia mas, de
fato, sem força; justamente porque a enche tanto. Todo aquele que já
sentiu em sua vontade de não encher sua cabeça, mas sim de
fortalecê-la, desenvolver suas forças e aptidões, expandir-se, terá
notado que não há nada mais chocho que conversar com um dos chamados
literatos científicos sobre algo em que ele mesmo não meditou, mas de
que sabe mil circunstâncias histórico-literárias. É quase como ler um
livro de receitas quando se está com fome. Acho também que, entre as
pessoas que pensam, que sentem seu próprio valor e o da verdadeira
ciência, da assim chamada história literária nunca os empolgará. Essas
pessoas usam mais a razão do que se preocupam em saber como os outros
usaram as deles. O que é mais triste neste caso, como se comprova, é
que quanto mais aumenta a tendência para as pesquisas bibliográficas em
uma ciência, mais diminui a força para aumentar a própria ciência, e só
cresce o orgulho pela posse da ciência. Pessoas desse tipo pensam mais
na posse das ciências do que seus verdadeiros possuidores. É certamente
uma observação com fundamento que a verdadeira ciência nunca torna seu
possuidor orgulhoso; ao contrário, só se deixam inflar de orgulho
aqueles que, por incapacidade de aumentar a própria ciência, dedicam-se
ao esclarecimento de seus detalhes mais obscuros, ou sabem recontar o
que os outros fizeram, pois consideram essa ocupação principalmente
mecânica como o próprio exercício da ciência. Eu poderia provar isto
com exemplos, mas os exemplos são coisas odiosas.” |