O Futuro da Filosofia

Moritz Schlick

O objetivo deste trabalho é defender e explicar certa visão referente à natureza da filosofia.

No passado suas verdadeiras características foram frequentemente distorcidas e escondidas pela nebulosa escuridão dos sistemas metafísicos, mas acredito que em nossos dias elas se revelam para todos dispostos a vê-las, e estou convencido de que todos os pensadores sérios as perceberão e concordarão sobre elas num futuro não muito distante. É por isso que me aventuro a comentar sobre o “futuro da filosofia”.

Mas poderemos mesmo falar sobre as “verdadeiras” características da filosofia? O significado dessa palavra não é meramente uma questão de definição ou convenção e não tem mudado continuamente no decorrer dos séculos?

Nunca vale a pena discutir definições. Não desejo definir, mas entender e criticar a filosofia. Podemos supor (e cuidadosa investigação histórica e sistemática justificará essa pressuposição) que há uma boa razão para o nome “filosofia” ter sido aplicado às mais diversas tentativas e conquistas humanas; que todas elas algo têm em comum, algo de que os próprios filósofos talvez não estejam cientes, mas que ainda assim determina a atitude de suas mentes e a própria natureza de seus pensamentos.

A descoberta desse traço comum não significaria muito se resultasse em nada além de circunscrições precisas do domínio a que todo trabalho filosófico é restrito; mas parece que no estabelecimento dos limites naturais da filosofia adquirimos inesperada clarificação de seus problemas; são vistos por nós sob novo aspecto que nos proporciona os meios de estabelecer todas as chamadas disputas filosóficas de forma fiel e absoluta.

Parece uma tarefa audaciosa, e percebo o quão difícil é demonstrar sua veracidade e, ainda, fazer alguém acreditar que a descoberta da verdadeira natureza da filosofia, que carrega tão maravilhoso fruto, já foi alcançada. Contudo é minha firme convicção que este é o caso e que testemunhamos o começo de uma nova era da filosofia, que seu futuro será diferente de seu passado, tão cheio de fracassos lamentáveis, lutas vãs e disputas fúteis.

Grandes verdades dificilmente são descobertas duma vez; geralmente são abordadas sob vários aspectos e por mais de um homem. A verdade sobre a real função da filosofia emergiu nos tempos modernos através de diversos pensadores que a formularam de maneira mais ou menos imperfeita. Mas o primeiro que a viu com absoluta clareza foi, acredito, Ludwig Wittgenstein, expressando-a de maneira perfeitamente adequada. Ele declara em seu Tractatus Logico-Philosophicus:

O objeto da filosofia é a clarificação lógica de pensamentos. Filosofia não é uma teoria mas uma atividade. O resultado da filosofia não é um número de ‘proposições filosóficas’, mas tornar proposições claras.[1]

Essas três sentenças, a meu ver, trazem mais elucidação a problemas de difícil solução que muitos livros de metafísica. Qualquer que compreenda seu amplo significado e esteja ciente de suas consequências perceberá que o futuro destino da filosofia depende amplamente de sua compreensão universal.

Nas passagens mencionadas podemos distinguir duas asserções, uma positiva e outra negativa:

(1) Filosofia não é uma ciência;

(2) É a atividade mental de clarificação de ideias;

À luz da história, analisemos as duas asserções. Bruscamente falando, a filosofia parece ter preenchido quatro funções principais na história do pensamento. Na antiguidade foi identificada

(1) Como ciência em geral, i.e. com a busca de verdades teóricas por si mesmas;

(2) Como sabedoria de vida.

Em tempos antigos deveria fornecer

(3) A fundação para todas as ciências especiais (Epistemologia), e

(4) As verdades gerais sobre “Ser” que, acreditava-se, não poderiam ser atingidas pelas ciências especiais, mas apenas pela síntese de todas as suas verdades particulares, ou por um método filosófico específico chamado “intuição” (Metafísica, Ontologia).

Todos esses significados ainda são atribuídos ao termo “filosofia” atualmente.

É fácil perceber que o segundo dos quatro significados encaixa-se mais naturalmente com nossa visão. Pois a sabedoria do instruído não é uma teoria ou ciência; trata-se da vida prática apenas e pode muito bem consistir na atividade de clarificar as noções que entram nos princípios de conduta da vida e que sempre permanecem obscuras para os não sábios.

O primeiro dos quatro significados, contudo, parece inteiramente incompatível com nossa afirmativa de que a filosofia não é uma ciência; de fato parece não ter sido nada além disso para Tales e Aristóteles assim como Galilei e até mesmo pensadores mais recentes. Mas isso é apenas uma aparência que desaparece do momento em que distinguimos dois significados diferentes para a palavra “ciência”. Primeiramente, pode denotar uma teoria, i.e. um conjunto ou sistema de proposições verdadeiras – e é neste sentido que negamos a filosofia como uma ciência –, por outro lado, pode significar todas as atividades humanas, procedimentos e artifícios necessários para descoberta e demonstração dessas proposições. Agora entre as atividades que constituem ciência no último sentido de longe as mais importantes são aquelas que clarificam conceitos científicos; é através delas que o verdadeiro significado de todas as proposições científicas é estabelecido. Essa é precisamente a tarefa da filosofia de acordo com nossa presente visão; clarificar nossos pensamentos significa descobrir ou definir o verdadeiro significado de nossas proposições. O significado duma proposição deve ser conhecido antes que sua veracidade seja estabelecida; isso significa que a filosofia deve fazer seu trabalho antes que uma teoria – uma ciência no primeiro sentido do termo – seja construída. Também significa que toda ciência – no segundo sentido do termo – é essencialmente filosófica, pois seu trabalho mais importante deve ser o de sempre tornar o significado de suas asserções absolutamente claro. Enquanto as ideias fundamentais não se tornarem perfeitamente claras, toda energia do cientista deve ser direcionada à elucidação de seus significados; é por isso que os trabalhos da ciência em tempos modernos têm sido primeiramente de caráter filosófico; e nos faz compreender porque distanciou-se da filosofia assim que seus conceitos básicos tornaram-se claros o suficiente. Então a esse respeito nossa visão dá um completo relato do desenvolvimento histórico. Também relata o fato de que todas as grandes revoluções científicas (tais como as presenciadas na física contemporânea, por exemplo) são consideradas de importância e natureza filosóficas; por sempre consistirem na descoberta de novos significados dos conceitos básicos (tais como tempo, espaço, substância).

Depois dessas considerações apenas alguns comentários serão necessários referentes ao terceiro aspecto da filosofia, aquele da “epistemologia”. Houve boas razões para considerar filosofia como “teoria do conhecimento”, pois não há dúvida de que a filosofia preocupava-se com a análise dos princípios e conceitos fundamentais que constituem a base de todo conhecimento real. Mas foi um erro supor que os resultados dessas análises poderiam ser expressos por um sistema de “proposições filosóficas” formando uma ciência chamada Epistemologia. Pois se houvesse tais proposições deveríamos nos perguntar por seu significado, que necessitaria nova elucidação, e assim por diante. Como esse processo não pode continuar in infinitum, a clarificação final não pode ser alcançada por nenhuma proposição, mas deve ser feita por aqueles atos que constituem a essência da filosofia. Portanto, embora não haja teoria do conhecimento, existe a atividade filosófica de análise do conhecimento. É natural que esses dois tenham sido confundidos um com o outro.

E quanto ao quarto aspecto, aquele da metafísica? É evidente que nossa própria visão impossibilita inteiramente a possibilidade de tal coisa. Qualquer cognição que tenhamos sobre “Ser”, da natureza inteira das coisas, é ganhada inteiramente pelas ciências especiais; elas são a verdadeira ontologia, e não pode haver outra. Cada proposição científica verdadeira expressa de certa forma a real natureza das coisas – se não expressassem, simplesmente não seriam verdadeiras. Então em respeito à metafísica a justificação de nossa visão é que explica a vaidade de todos os seus esforços, manifestados em desesperançosa variedade de sistemas, todos brigando entre si. Muitas das chamadas proposições metafísicas não são sequer proposições, mas combinações de palavras sem significado; e o resto não são “metafísicas”, mas simplesmente asserções científicas disfarçadas cuja veracidade ou falsidade pode ser asserida pelos métodos comuns da experiência e observação.

Alguns dos mais renomados filósofos duvidaram do caráter científico de sua ocupação. Isso aparece, por exemplo, no famoso ditado de Kant que estipula a impossibilidade de se ensinar filosofia, apenas como filosofar[2]. Ele poderia ensinar uma atividade, mas não uma teoria, pois a filosofia não existe como teoria. Outra instância é Leibniz que, ao elaborar o plano de estudos da Academia de Ciência Prussiana, não atribuiu nenhum lugar à filosofia[3].

Tenho certeza de que mais cedo ou mais tarde a visão que venho defendendo será geralmente adotada. Quais serão as consequências? A filosofia será menosprezada por não ser uma ciência? Será desprezada por nunca tornar-se metafísica? Certamente não! Pelo contrário, embora não seja uma ciência, será, mais que nunca, reconhecida como a rainha das ciências, dominando-as, por ser a sua alma – na verdade, não pode haver nada de mais vital para as ciências que a atividade sem a qual todas as suas proposições permaneceriam sem significado. Tendências metafísicas serão inteiramente abandonadas, simplesmente por não haver tal coisa como metafísica, suas aparentes descrições sendo apenas frases sem sentido. O que era valioso e belo nessas tendências será reconhecido como pertencente ao campo da poesia, e a filosofia será mais estimada por permanecer inteiramente em sua própria esfera.

Filosofia não sendo uma teoria, não será mais dividida em diferentes ramos como ética, estética, etc. O verdadeiro significado da palavra “ética”, por exemplo, nada mais é que a ciência do comportamento moral; estética é a teoria daqueles sentimentos e atividades humanas conexas a certos objetos chamados de “belos”: e as proposições destas teorias formam parte da ciência da psicologia. É bem óbvio que elas tenham sido consideradas “filosóficas” apenas por seus conceitos serem ainda tão obscuros que necessitam de constante clarificação antes de esperarem tornar-se científicas. E a certo grau isso aplica-se até mesmo à psicologia.

Como a filosofia será estudada no futuro?

Sempre haverá homens capacitados para analisar os significados últimos das teorias científicas, mas que podem não ser habilidosos na manipulação dos métodos pelos quais sua veracidade ou falsidade é asserida. Esses serão os homens que ensinarão e estudarão o filosofar, mas é claro teriam de conhecer as teorias tão bem quanto os cientistas que as inventaram. Do contrário não seriam capazes de dar um passo sequer, não teriam objeto a que trabalhar. Um filósofo, portanto, que soubesse nada exceto filosofia seria como uma faca sem lâmina e cabo. Atualmente um professor de filosofia é frequentemente alguém que não consegue deixar nada claro, de nenhuma maneira filosofando; ele apenas fala sobre filosofia ou escreve livros sobre ela. Isso será impossível no futuro. O resultado de filosofar será que não haverá mais livros de filosofia, mas todos os livros serão escritos de forma filosófica.

 

 

[1] Wittgenstein, Tractatus 4.112.

[2] Kant, “Nachricht von der Einrichtung seiner Vorlesungen in dem Winterhalbenjahre von 1765-1766.” S.306.

[3]  Leibniz, “General-Instruction”.

  • Traduzido por Ricardo Aloysio Caldas Borsato
  • Publicado em Moritz Schlick Gesamtausgabe. Vienna/New York: Springer Verlag 2006, Vol. VI, pp. 305-311.

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